Roger Waters vs David Draiman e o roqueiro brasileiro médio
Se vocês leem a Célula Pop, sabem que este é um site progressista e assumidamente de esquerda. É a nossa visão de mundo, nossa opinião sobre as coisas e não abrimos mão disso. Mesmo assim, evitamos polarizar discussões culturais, procurando sempre acrescentar pitadas de opinião aqui e ali, mais como um tempero do que como ingrediente principal. Claro, algumas vezes publicamos textos mais opinativos, mas como coluna ou expressamente configurados como tal. Por exemplo, já falamos várias vezes do conservadorismo do fã de rock no Brasil e isso nos preocupa bastante porque, mais que um sintoma de ponto de vista, é sinal inequívoco de falta de compreensão básica, alienação por déficit de conhecimento e, por fim, burrice pura e simples. Mas, fazer o quê? Não nos compete reverter esse quadro, apenas fazemos a nossa parte em oferecer conteúdo que vá contra essa visão de mundo. E não poderíamos deixar passar a reação nas redes sociais sobre a treta envolvendo Roger Waters e o vocalista do Disturbed, David Draiman. Eu te conto que aconteceu.
Draiman deu declarações fortes no podcast de Billy Corgan (o próprio Smashing Pumpkin encarnado), dizendo que “daria um soco na cara de Waters” se o encontrasse. O baixista inglês, notório ativista político, identificado com causas progressistas e totalmente pró-Palestina Livre, respondeu, chamando Draiman de “porco fascita e merdinha”. Até aí, tudo bem. Draiman está sendo coerente, uma vez que é um defensor da política de Israel, filho de judeus ortodoxos e mantém uma opinião consistente com o que acredita, inclusive já tendo … autografado mísseis numa base israelense. Não concordamos com ela, mas defendemos seu direito de ter uma visão do mundo. E, claro, defendemos a de Waters, que mantém o mesmo discurso há décadas, mostrando ser uma pessoa coerente, para dizer o mínimo. Draiman também atacou o guitarrista Tom Morello, do Rage Against The Machine, outro músico totalmente engajado com questões políticas e com opinião próxima da de Waters, pró-Palestina. Na ocasião, Morello havia defendido a postura dos irlandeses do Kneecap, que haviam tomado posicionamento semelhante em shows. Draiman não mencionou agressão, mas condenou veementemente Morello e o grupo de rap irlandês. Tudo bem, mas e daí? Quem é Draiman na fila do pão?

Bem, o Disturbed é uma banda da segunda divisão do nu-metal, faz o tipo de sonoridade que não nos interessa em qualquer sentido, mas é um grupo que tem mais de dezessete milhões de ouvintes no Spotify e ficou involuntariamente famoso com uma versão de “The Sound Of Silence”, de Simon & Garfunkel. Sob o ponto de vista da importância para o rock e a música pop em geral, Waters e Morello estão em prateleiras muito superiores ao Disturbed, mas isso não conta nenhum ponto nessa discussão. O que queremos abordar aqui é a reação de fãs de rock diante disso. Postagens no Facebook da emissora paulistana 89 FM contrastam frontalmente com as do semanário inglês NME, mostrando que a tendência das manifestações daqui é de quase total apoio a Draiman, independente de conhecer sua banda. Vários comentários, feitos por perfis que parecem verdadeiros (não são bots) defendem a agressão a Waters, na base do “nem sei quem é Draiman e já apoio” ou “se Waters está num lado, eu estou no outro”, ou ainda “já estou ouvindo Disturbed e amando”. Uma quantidade realmente pequena de comentários defende a postura de Waters em termos políticos, procurando aliar a relevância do que disse Draiman à importância que seu trabalho tem ou não. “Quem é Draiman?” ou “Só vejo um artista relevante aqui” ou ainda “as músicas de Roger Waters no Pink Floyd nos emocionam e esse Disturbed eu nem sei quem é”. Não há uma única manifestação pela defesa das pessoas terem opiniões ou pelo direito de pensarem diferente. É mais fácil condenar a postura pró-Palestina e encarar quem a defende como alguém que mereça ser agredido por isso.
Na postagem da NME sobre o mesmo assunto, as respostas são diametralmente opostas. As pessoas conhecem os dois trabalhos e não julgam o posicionamento político dos músicos através deles. Preferem criticar a truculência de Draiman em expressar um desejo de violência ou comparam suas atitudes às do governo de Israel, aludindo à “disponibilidade para o diálogo enquanto bombardeia o inimigo”. Em outro comentário alguém manda a revista voltar sua atenção para as bandas underground, criticando o assunto da reportagem, enquanto outro ainda analisa que nem Waters, nem Draiman têm autoridade para falar sobre o assunto, visto que ambos nasceram em países com passado colonial e imperialista. E mais gente fala sobre ser fácil a postura de Draiman, desde que ele tenha o exército americano por trás dele. Por fim, alguém argumenta que a questão no Oriente Médio é “muito complexa para americanos entenderem”. Checando esses perfis, vemos que também parecem reais, não são bots.
Podemos argumentar que essa amostragem é bem pequena ou que não representam uma metodologia mais definida de pesquisa. Porém, temos aqui o mesmo assunto e dois veículos de comunicação com bastante tempo no mercado. A 89 FM é uma “rádio rock”, enquanto a NME é uma das publicações mais respeitadas da Inglaterra. Podemos supor que há um número muito maior de ingleses lendo e opinando no post da revista, porém, na da emissora paulistana, só há brasileiros e a opinião deles é majoritariamente conservadora, anti-Palestina, anti-diálogo, anti-democrática e pró-violência. Não leva em conta qualquer viés mais aprofundado sobre o trabalho dos artistas ou demonstra um conhecimento maior sobre o que fazem, o que dizem, o que fizeram ou o que disseram. Não se importam em aproveitar a oportunidade para demonstrar uma suposta firmeza masculina, sem se preocupar em soar pouco esclarecido.
E vocês? O que acham disso? O roqueiro brasileiro médio é burro? É pouco esclarecido? Conhece bandas e trabalhos? Falar isso é generalizar? Quais as opiniões que vocês têm? Abaixo estão os dois posts no Facebook.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Ultimamente tenho ate vergonha de dizer que gosto de rock, não sou ingénuo e sei que há muita gente conservadora, racista e preconceituosa nesse meio, mas como baratas estavam meio escondidas agora estão há luz do dia proferindo perdigotos de total ignorância e raiva.