O disco perfeitinho do Trashcan Sinatras

The Trashcan Sinatras – Ever The Optimist
40′, 11 faixas
(TCS)
(4,5 / 5)
Em alguma ramificação mais sortuda do multiverso, os escoceses do Trashcan Sinatras são uma banda de muito, muito sucesso. Lá eles atravessaram os quase quarenta anos de carreira em triunfo total, ficaram ricos, com fama, poder e glória. Aqui, no nosso universinho, eles são uma formação que lutou de todos os jeitos para seguir gravando. Começaram promissores na virada dos anos 1980/90, lançando um bom disco, “Cake”. Dali foram para “I’ve Seen Everything”, que trazia um hit indie bonitinho, chamado “Hayfever”, que os fez até tocar na programação da finada Universidade FM, lá por 1993/94. Apareceram em episódios de Beavis & Butthead, excursionaram pelos estados unidos e Reino Unido, lançaram um terceiro álbum igualmente bacana, “A Happy Pocket”, que tinha até uma cover brumosa de “To Sir With Love”, sucesso da cantora Lulu, tema do filme que consagrou o ator Sidney Poitier, lá em 1967. Chegaram a ter filme de curta-metragem exibido em programa duplo com as sessoes de “Os Doze Macacos”, clássico sci-fi de Terry Gilliam e, do nada, sua gravadora, a Go! Discs, foi comprada pela Universal. A nova gestão simplesmente dispensou os Trashcans e eles….foram à falência. Simples assim. Entre 1996 e 2004, a banda fez de tudo – vendeu estúdio, tocou em todos os cantos por cachês mínimos e, quando muitos desistiriam, manteve-se ativa. Essa história culmina no lançamento deste lindo e delicado “Ever The Optimist”.
Digo “disco pequeno” porque assim é a música do TCS. Ela é feita para escutas atentas e que prezam sutileza e delicadeza. Talvez eles sejam antepassados de outra banda escocesa que aposta nessa onda, o Travis. Mas os Trashcans são ainda mais leves que o ar. Formado por Frank Reader, David Hughes, John Douglas, Paul Livingston e Stephen Douglas, o grupo ressurgiu em 2004 com o seu melhor trabalho, “Weightlifting”, que tinha produção do grande Andy Chase, do Ivy. Desse trabalho veio uma das músicas mais belas da existência, “All The Dark Horses”. O grupo seguiu gravando mais lentamente, fazendo shows esporádicos, até chegar aqui. Com Frank e David morando nos estados unidos há tempos, a simples reunião da banda tornou-se complicada por problemas logísticos. Lembrem-se, não são um grupo de muito sucesso, com gravadoras e contratos. É tudo independente, pela vontade de estar junto e tocar para um público pequeno, porém muito fiel. O grupo seguiu gravando mais lentamente, fazendo shows esporádicos, até chegar aqui. Com Frank e David morando nos Estados Unidos há tempos, a simples reunião da banda tornou-se complicada por problemas logísticos. Lembrem-se, não são um grupo de muito sucesso, com gravadoras e contratos. É tudo independente, pela vontade de estar junto e tocar para um público pequeno, porém muito fiel.
A brincadeira com o multiverso lá do início do texto tem a ver com o fato de que poucas bandas são capazes de gravar tantas canções bonitas. O DNA tem marcas fortes de Smiths, mas de sua faceta mais delicada e melancólica, misturando com bandas como Felt e contemporâneos como Aztec Camera. Mas os vocais de Frank Reader são marcantes por si, têm uma profundidade emocional notável e as guitarras entrelaçadas do grupo dão um molho especial. Desse jeito tem sido e segue adiante, com uma nova safra de canções maravilhosas. Gravado no estúdio Chem19, em Blantyre — endereço histórico da cena independente escocesa associado à Chemikal Underground – “Ever The Optimist” é uma lindeza. De cara já temos a faixa-título, que, surpreendentemente, dissipa as nuvens e espanta a chuva, com um arranjo solar e melodia ainda mais pra cima. Não parece que se passaram dez anos desde o último álbum do grupo, “Wild Pendulum”. As guitarras de John e Paul estão presentes, fortes e pronunciadas e isso é só o início. “Games For The ZX Spectrum” traz de volta o cinza no céu, mas só um pouco, enquanto uma melodia celestial vai se construindo com guitarras indo em direções opostas.
A convidada especial Traceyanne Campbell, do Camera Obscura, surge num dueto luminoso em “Bad Husband”, fazendo uma combinação perfeita com Frank. É mais uma das canções pop com guitarras ganchudas bem evidentes que a banda costuma fazer e, a despeito da letra triste, coloca um sorriso no rosto do ouvinte. O primeiro single do álbum, “The Bitter End”, traz outra grande melodia, tingida por uma melancolia universal, algo típico da banda e de vários companheiros de tempo e ofício. “The circle never ends // Meet you again in the bitter end”. Em “A View From Nowhere”, o arranjo torna a melodia repleta de camadas de guitarras, com mais um aceno a esta melancolia intrínseca. Na dançante “The Associated Funk” a banda encontra espaço para uma pequena reviravolta estética, mostrando algo que ainda não havia feito. Com uma batida marcante e linha de baixo destacada, ela salta aos ouvidos. “Rome” é outro exemplo de destaque em meio às novidades possíveis, entrando numa seara mais psicodélica e cinzenta, enquanto “Melodramatic” surge como uma baita demonstração de talento de força criativa, bem próxima da perfeição. Outra lindeza é “Birds I Couldn’t Identify”, com mais fluidez melódica irresistível, abrindo caminho para “Learning To Love Your Ghost”, contrastando mais linhas leves e belas com uma letra sobre amor não correspondido.
Não dá pra saber o futuro do Trashcan Sinatras depois desse disco. Se virão shows de divulgação, turnê ou mesmo quanto tempo vai levar até – e se farão – o próximo trabalho. O que temos que fazer, como habitantes deste universo, é ouvir o que eles têm a dizer. Sem qualquer risco de arrependimento.
Ouça primeiro – o disco todo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
