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“A Odisseia” é um baita filme de ação

 

 

Antes de mais nada, aqui vai um aviso aos puristas: “A Odisseia”, de Christopher Nolan, não é – e nem pretende ser – uma narração fiel do poema épico de Homero. O texto original, enorme, escrito há mais de três mil anos, não poderia ser integralmente adaptado para um formato de 170 minutos de duração. E mais – muitas das passagens da saga de Odisseu/Ulisses e tudo o que envolve os eventos narrados, bem como as passagens em que deuses micênicos aparecem e desaparecem, foram suprimidas, adaptadas, repensadas para o nosso ano de 2026. Nem poderia ser diferente, tendo em vista o tanto de transformações e vivências que a humanidade acumulou ao longo desses séculos. Essas escolhas e releituras tiveram como objetivo formatar o texto original para várias instâncias de aprovação e filtragem, indo desde chancela de grandes estúdios, escolha de elenco multiestelar e aceitação por parte de um público mainstream de cinema. Com todas essas ressalvas feitas, com algumas críticas que podemos fazer a detalhes, opções estéticas e até algumas interpretações, é possível dizer que o essencial do texto de Homero – a noção de transformação e a impossibilidade de evitá-la – foi preservado. E que “A Odisseia” é, sim, um baita filme.

 

Matt Damon é Odisseu, rei da ilha grega de Ítaca, casado com Penélope (Anne Hathaway), que vai unir forças a Menelau (Joe Bernthau) e Agamenon (Benny Safdie), o comandante supremo grego, no cerco a Troia. Ele deixa seu palácio e participa da conquista da cidade, sendo idealizador da artimanha do Cavalo, que é levado ao centro de Troia como uma oferenda à deusa Athena. Uma vez dentro dos muros, a tropa de Odisseu sai de dentro do artefato e inicia o ataque ao exército troiano, abrindo os portões para as hostes gregas invadirem e destruirem tudo. No filme, Christopher Nolan opta pelo recurso narrativo do flashback, com Odisseu lembrando de tudo o que aconteceu enquanto está sob os cuidados de Calipso (Charlize Theron), tentando recordar quem é e como foi parar na ilha em que se encontra. Enquanto os fatos vão sendo relembrados, Penélope permanece em Ítaca, esperando pela volta do marido. O filho do casal, Telêmaco (Tom Holland) ainda não tem forças para assumir o trono do pai, algo que Penélope reluta a aceitar, pois isso significa admitir que o marido morreu tentando voltar para casa. O cerco e a batalha em Troia duraram dez anos e muitos acreditam que Odisseu morreu na viagem de regresso, mas ninguém tem informações precisas.

 

A dúvida suscita o desejo de disputa pelo trono vago de Ítaca. Vários pretendentes se instalam no palácio e tentam convencer Penélope com várias artimanhas, inclusive a provocação para que Telêmaco reaja e seja vencido em combate. Desses, Antinoo, vivido por Robert Pattinson, é o mais ardiloso e sinistro, e vai tentar de todas as formas persuadir a rainha. Enquanto o roteiro mostra essa disputa, vai enfileirando as situações que envolvem a volta de Odisseu ao longo do tempo. Com um pequeno regimento de soldados, ele tenta regressar das praias de Troia até Ítaca, perdendo-se no caminho. As lembranças do cerco à cidade se misturam com os eventos que vão surgindo diante dos homens, como a luta contra o Cíclope Polifemo, filho do deus Poseidon, que, ao ser ferido pede ao pai para que amaldiçoe e persiga os homens. Além desta passagem, a tripulação de Odisseu ainda enfrenta guerreiros gigantes; a feiticeira Circe, vivida por Samantha Morton, que transforma homens em animais, que conta a Odisseu que será necessário ir até o Hades (o mundo dos mortos) para conseguir encontrar o caminho de volta. E que isso custará caro para ele e sua tripulação.

 

Mesmo que o texto seja o mais antigo da literatura ocidental, não vamos avançar para evitar spoilers ao espectador mais curioso. Todos esses eventos, além do impressionante desfecho, das aparições de Zendaya (como a deusa Athena), Lupita Nyong’o (como as gêmeas Helena de Troia e Clitemnestra) e de John Leguizamo (como o pastor Eumeu, fiel criado de Odisseu) são muito bem amarrados pelo roteiro de Nolan. As locações, a filmagem integralmente feita com câmeras IMAX, a trilha sonora, de Ludwig Goransson – que colaborou em filmes anteriores do diretor, como “Tenet” e “Oppenheimer” – dão um acabamento de luxo para “A Odisseia”. O elenco, cheio de medalhões, muitos deles com outros trabalhos com o diretor, está afiado, especialmente Anne Hathaway, Pattinson e Holland. E o fato mais interessante do texto, sua essência, diria eu, está mantida, que é a percepção de que situações vivenciadas pelas pessoas as transformam de maneira irreversível. No caso de Odisseu, sua participação nas atrocidades cometidas em Troia, suas decisões em comando, suas escolhas, mesmo que existentes num plano moral que as legitime, reverberam de maneira incontrolável.

 

No fim das contas, como podemos voltar para casa, ou seja, sermos quem um dia fomos, se a vida e tudo que ela traz, nos transforma e nos leva em várias direções? Mesmo que sejam as direções que escolhemos, ou achamos que escolhemos? Mesmo que o revestimento de “A Odisseia” seja mais de um filme de ação, há o que pensar. Dentro das circunstâncias expostas lá no início do texto, dá pra dizer que Christopher Nolan fez um belo trabalho aqui.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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