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Papangu sobe de prateleira com novo álbum

 

 

 

 

 

Papangu – Celestial
50′, 10 faixas
(Deck)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Atenção, porque “Celestial” é coisa séria, gente. O Papangu, heroico grupo de João Pessoa, conseguiu fazer algo que ainda é bem raro na avalanche de bandas de hoje que buscam inspiração na música brasileira dos anos 1970 – refazer a conexão que muitos artistas daquela época tinham com o rock progressivo e o jazz fusion. Para quem não ouviu atentamente a produção de gente como Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Marcos Valle, Zé Ramalho, Alceu Valença, Secos e Molhados, entre vários outros , nos primeiros anos daquela década, as tinturas de fusion e progressivo eram fortíssimas, especialmente de bandas e artistas como Wayne Shorter, Hermeto Paschoal, Yes, Gentle Giant, Weather Report e King Crimson. Esse fato se refletia nos timbres, nos arranjos, nas ambiências, não chegando a esticar muito a duração das faixas ou impor conceitos fechados aos álbuns. Mesmo assim, é possível notar fortes ecos aqui e ali, inclusive em álbuns marcantes e conhecidos, como “Clube da Esquina” e vários outros. A sonoridade que o Papangu obtém, incluindo elementos de doom metal, vocais guturais em algumas passagens, além de outras remissões. Junte-se a isso boas doses de mitologia e folclore nordestinos e temos um disco absolutamente original em seu painel sonoro, com aquele elemento que a gente, aqui na Célula, preza tanto: ótimas canções. “Celestial” tem tudo isso. É uma beleza densa e sensacional.

 

“Celestial” é o terceiro álbum do Papangu e, de longe, o mais bem acabado. A banda está rumando em direção a uma sonoridade mais bem resolvida, deixando as influências mais pesadas em favor de um abraço mais sincero ao progressivo clássico. Quando digo “clássico”, não digo, em hipótese alguma, “velho”, pelo contrário. Nada pode ser mais vigoroso e antissistema hoje do que recuperar o tempo longo de escuta, os arabescos sonoros e os temas comuns à estética prog setentista. Mas o barato é que o Papangu faz isso com jeitão de 2026. E a leitura que a banda faz dessa música brasileira “com tintas prog” é muito precisa e bem feita. Se os trabalhos anteriores, “Holoceno” (2021) e “Lampião Rei” (2024) mostravam uma grande promessa se concretizando, em “Celestial” cumpre-se a profecia com sobras. Além de tudo isso, o grupo, formado por Marco Mayer, Hector Ruslam, Pedro Francisco, Rodolfo Salgueiro e George Alexandria, assumiu uma postura anti-IA, ou seja, dispensou mecanismos fáceis e muito tecnológicos para a gravação do álbum, aderindo a fitas magnéticas e mixagens analógicas feitas na raça. A gravação das faixas aconteceu em Berlim, num período de nove dias e a produção ficou a cargo do alemão Richard Behrens.

 

Os arranjos das faixas são sensacionais e muito bem feitos. A simbiose entre instrumentos acústicos, especialmente percussão e violões, com os teclados e guitarras é impressionante e vai construindo um painel bastante original. Para o ouvinte gringo, imagino que será sensacional detectar essas nuances acústicas e muito brasileiras em meio a instrumentais progressivos mais clássicos. Aliás, o uso de mudanças de andamento em meio a faixas mais longas é um dos trunfos de “Celestial”. Essa estratégia é bem utilizada até nas canções com duração média, caso de “Colosso”, com seus pouco mais de cinco minutos. O vai-e-vem de teclados é especialmente bacana em meio ao andamento quebrado da bateria e do esconde-esconde de triângulos e outros instrumentos percussivos muito sutis. Em “Mau-Olhado”, a faixa que abre o disco, a versão mais direta do Papangu aparece, mas não sem tornar o arranjo e o desenho instrumental multifacetado. E em “Taxidermia”, a terceira faixa, os vocais guturais aparecem e dão o aviso que esta é uma banda que transita por vários universos e vertentes do rock e que não abre mão disso.

 

O andamento corridinho de “Bode Expiatório” é alavancado por bateria, baixo e triângulo, que constroem uma estrutura jazz-fusion, que vai recebendo os outros instrumentos aos poucos, até mudar de rumo e incorporar flauta, guitarras e mais sintetizadores, numa demonstração de que, além de tudo o que já falamos sobre “Celestial”, este é um disco caleidoscópico e surpreendente. A faixa-título, introduzida por um lindo piano que parece tocado diretamente de uma floresta mágica, ganha uma roupagem jazzy setentista linda, que vai mudando à medida que a percussão e os synths vão entrando, resultado numa espécie de versão agreste do Azymuth. Essa impressão também aparece em “Fechamento de Corpo”, que alterna um riff mais pesado e tristonho de sintetizador com percussões, flautas e um andamento que vai saltitando em meio a evoluções da melodia. “Calado (De Olho)”, um dos singles, tem guitarra em timbre levemente floydiano sendo engolfada por trama de teclados e riffs mais pesados, numa pororoca de surpresas, que vai inundando tudo por onde passa. “Iamanakaru” consegue remixar várias influências familiares setentistas em uma faixa curta – pouco mais de três minutos e meio – num resultado esparso e multifacetado, abrindo caminho para “Afirmação”, em que timbres mais leves e diáfanos de guitarra e teclados dão o tom até que são substituídos por uma levada prog-rock-jazzy, pesadinha e dinâmica, que vai crescendo e encarnando vários elementos vocais. E o fim do disco, com “Outro”, usa o teclado para reproduzir andamento e timbre que poderia ser de uma sanfona e, quando nos convencemos, a faixa chega ao fim, deixando o ouvinte com gosto de “quero mais”.

 

“Celestial” é mais um dos grandes discos nacionais de 2026. Tem originalidade, coragem, ótimas canções e uma banda disposta a chutar o balde em nome de fazer o que acredita. Não à toa, o Papangu está com uma grande turnê pelo exterior em andamento, celebrando a excelência deste álbum e o reconhecimento pela originalidade da banda. Maravilha. Ouça ontem.

 

Ouça primeiro: todo o disco.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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