ArtigosDestacãoMúsica

Hino e inspiração: os 40 anos de “Dois”, da Legião Urbana

 

 

No final de 1985, o disco de estreia da Legião Urbana já havia vendido mais de 80 mil cópias e colecionava boas críticas. Renato Russo, vocalista da banda, era citado frequentemente em reportagens pela consistência de seus posicionamentos. Suas letras logo começariam a aparecer em álbuns de outros artistas (Barão Vermelho, Biquíni Cavadão, Capital Inicial…) Cacifado, o quarteto brasiliense (Russo mais Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha) já então radicado no Rio chegou a conceber um álbum duplo, “Mitologia e Intuição”. A EMI vetou o projeto, um lance alto demais, mas dedicou ao segundo álbum as melhores condições em termos de estúdio e produção. O resultado foram as 12 faixas de Dois.

 

Em dezembro de 1985, duas semanas foram preenchidas com o trabalho de pré-produção. Em janeiro, a banda voltou aos estúdios, em sessões que se estenderam até março. Depois disso, ainda muitas horas foram gastas na mixagem das gravações realizadas em 16 canais. No final de julho de 1986, o álbum estava nas lojas. No mês anterior, uma das faixas, “Tempo Perdido”, já havia começado a tocar nas rádios.

 

Dois conquistou enorme reconhecimento, desde a época de seu lançamento. Renato Russo firmou-se como um dos melhores letristas e vocalistas da sua geração. Em 2022, duas grandes enquetes sobre os melhores álbuns brasileiros de todos os tempos (Discoteca Básica e jornal O Globo) indicaram o lançamento de 1986 da Legião entre as primeiras posições.

 

Muito já se discorreu sobre Dois. Admitindo o risco de repetir palavras já ditas, insisto em um par de pontos: o lugar do álbum no cenário musical da época, em especial o contraponto entre rock e MPB, e o impacto existencial de suas faixas para os jovens que sob elas foram formados.

 

 

Música Urbana Brasileira

Dois é muito diferente de seu antecessor. Isso foi proposital, estava na própria concepção da obra. Também se beneficiou de melhores condições no estúdio e do trabalho de um produtor experiente, Mayrton Bahia. A capa, sóbria, poderia ter saído de um projeto da Factory – mas foi obra de Fernanda Pacheco, companheira de Dado e empresária da banda até 1986.

 

O repertório veio de diversas fontes. As mais antigas estavam ligadas ao trajeto de Russo, seja na Aborto Elétrico, seja a breve fase como Trovador Solitário. As mais recentes apoiavam-se sobre as criações do quarteto (lembremos que Rocha só ingressa em 1984 na banda formada em 1982). A rotina de poucos shows e poucas viagens até 1986 permitira aumentar o entrosamento em ensaios frequentes.

 

O pós-punk continuou a ser a principal referência, como se percebe em “Daniel na Cova dos Leões”, “Acrilic on Canvas”, “Plantas Embaixo do Aquário” e “‘Índios’”. “Tempo Perdido” ecoava em seus timbres a sonoridade da The Smiths, embora a melodia viesse de uma composição mais antiga, “Gente Obsoleta”. Ela já aparecera em shows durante 1985.

 

Por outro lado, em “Metrópole” a Legião soava mais punk do que em seu álbum de estreia. Isso vale também para “Química”, faixa bônus na versão em cassete, que a banda apresentou em um episódio do programa Clip Clip. “Fábrica” vinha, como as anteriores, de composições da época do Aborto e rodava igualmente em uma alta voltagem.

 

“Fábrica”, no entanto, se comunicava com várias das faixas pós-punks por conta do uso de teclados, uma das diferenças com o primeiro álbum (embora isso já se anunciasse no seu encerramento com “Por Enquanto”). “Daniel…” tinha nos teclados um componente central, inclusive em seu final dramático, mesmo que baixo, guitarra e bateria não estivessem em segundo plano. Já “‘Índios’”, com seu mantra eletrônico, dispensava até mesmo a guitarra.

 

“’Índios’” termina com um trabalho de violão e este é o instrumento que também marca a sonoridade de Dois. Há três faixas mais ou menos acústicas: o folk “Eduardo e Mônica”, o blues “Música Urbana 2”, ambas do repertório do Trovador Solitário, e a instrumental “Central do Brasil”. Mesmo em faixas “elétricas”, o violão cumpre um papel fundamental. É o caso da smithiana “Quase Sem Querer” e dos climas de “Andrea Doria”, ambas compostas nos estúdios da EMI.

 

É com a última que dialoga o comentário de Mayrton Bahia quando, em entrevista para Charles Gavin, se refere ao seu trabalho de produtor como uma pintura: “Sempre fizemos colagens, ideias simultâneas, um detalhe de violão, uma pérola de uma linha de guitarra, vozes coladas. O Dois tem essas camadas, é mais elaborado, tem texturas sonoras, ambiências”

 

O gradiente do punk ao folk buscava conciliar as diferenças entre os integrantes. De um lado, mas não exatamente na mesma sintonia, Bonfá e Negrete puxavam para sonoridades cujos extremos estavam no punk e no hardcore. De outro, Dado buscava aprimorar-se como instrumentista, fugindo da simplicidade. Isso contribuiu para as ambições possibilitadas pelo amplo repertório musical de Renato, ideólogo e principal compositor da banda (ele chegou a produzir sozinho “Eduardo e Mônica”).

 

Dessa maneira, com o conjunto das faixas de Dois, a Legião alcançou algo que Kelefa Sanneh define como a quintessência do rock: “Se um dos arquétipos do rock’n’roll é um bando de caras fazendo música barulhenta com guitarras, outro é um cara com uma pegada acústica, cantando letras pungentes com voz igualmente pungente – Dylan, ou alguma versão dele” (um artista, aliás, idolatrado por Russo).

 

Jogando isso para o cenário do BRock, e lembrando de outros dois grandes lançamentos do glorioso 1986, Cabeça Dinossauro dos Titãs e Selvagem? dos Paralamas, podemos admitir que a Legião estava em vantagem. O mais importante, no entanto, é o movimento que essas e muitas outras bandas estavam fazendo juntas. Eis um trecho da crítica de Jamari França no Jornal do Brasil:

 

“Impossível passar impunemente pela audição de Legião Urbana 2. O disco vem reforçar a ideia de que 1986 é o ano de consolidação do rock brasileiro, deixando de lado uma retranca chamada Rock Brasil para integrar-se de vez na Música Popular Brasileira como a nova MPB, que saúda a old MPB e pede passagem.”

 

Nova e velha MPB estavam relacionadas, como revela o encanto de Dado por João Gilberto, confessado em suas memórias, a caipirice bucólica de “Central do Brasil, ou ainda os acenos de trechos da letra de “Quase Sem Querer” a composições de Milton e Caetano. Mas havia sim um projeto de superação, por meio da atualização de referências musicais e de vocabulários poéticos. O BRock candidatava-se assim a ser a trilha sonora de uma nação em reconstrução, que logo iria estabelecer, aos trancos e barrancos, uma nova Constituição.

 

É bastante significativo que tenha sido considerada a inclusão, em Dois, de uma versão de “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, um dos patrimônios da MPB. A releitura da Legião tem duas partes: na primeira, há algo da bossa nova; a segunda é um apocalipse pós-punk. Uma nova forma de dizer que “O amor será eterno novamente”.

 

A relação com a MPB foi literalmente encenada quando a Legião foi convidada a participar do programa Chico & Caetano, exibido no segundo semestre de 1986 pela Rede Globo. Chico Buarque pareceu indiferente, enquanto Caetano esforçava-se para entender o que se passava no palco que já havia recebido Paralamas, Cazuza e Paulo Ricardo. Renato usava uma camiseta com o nome de outra banda de Brasília, a Plebe Rude, também da “nova MPB”.

 

 

Educação sentimental (estética, política, ética)

É comum que se diferencie também o primeiro e o segundo álbuns da Legião por seu conteúdo lírico. Em Dois, o olhar teria se voltado para os dramas íntimos e as paisagens emocionais. Penso que a coisa é mais complicada, inclusive no caso da estreia, onde essas questões não estavam ausentes. A força das letras de Renato está exatamente em conseguir abarcar diversas dimensões da existência. No álbum de 1986, essa proeza está em seu máximo.

 

A prosa social não deixa de ser marcante em Dois. “Fábrica” é um lamento que articula o capitalismo injusto a seus efeitos ambientais, dando as mãos aos operários: “Nosso dia vai chegar”. “Plantas…” é bem direta: “Não deixe a guerra começar”, seja ela qual for. Vale lembrar que em outubro 1985, a Legião havia participado de um especial infantil da Rede Globo, A Era dos Halley, contribuindo com a adultíssima “A Canção do Senhor da Guerra” (durante as gravações de Dois, ela ganhou nova versão, incluída em Música p/ Acampamentos). “Metrópole” é uma crônica de versos sarcásticos sobre as mazelas e descasos de um hospital público. Tão punk e tão inteligente!

 

E temos também “Música Urbana 2”, quase uma ladainha que vai enfileirando imagens fortes. Novamente uma metrópole está em cena, em muitas direções, nem todas iguais: a polícia vomita e os mendigos cantam. E o resultado diferencia-se bastante da sua homônima que foi gravada pela Capital Inicial, na qual a experiência do narrador é o foco.

 

Mas é verdade que as canções sobre relacionamentos, como era também “Ainda é Cedo”, ganham letras que se destacam mais. A historinha engraçada de “Eduardo e Mônica” (existiram ou não?) em seu improvável encontro contrasta com a densidade do que ouvimos na primeira pessoa em “Daniel…” (o gosto do desejo em sua insistência), “Andrea Doria” (cujo naufrágio vira metáfora para uma melancolia resignada) e “Acrilic on Canvas” (“um relato onírico para um amor surreal”, na descrição de Julliany Mucury).

 

Essa densidade, nos temas e na linguagem, deve ter tido algum papel na formação de adolescentes e jovens adultos que decoravam as letras de Renato. Elas provavelmente ajudaram a moldar seus sentimentos e expectativas em relacionamentos. Parece-me que a orientação sexual (que seria o segredo para entender “Daniel…”) não era a questão fundamental (até porque em “Acrilic” a relação é hetero), e sim a complexidade das emoções em “qualquer maneira de amor”.

 

E assim íamos sendo instigados pela poesia de Renato. Mesmo em “Eduardo e Mônica” (aliás, possivelmente uma alusão a “Paula e Bebeto”, de Milton) apareciam referências que ficavam como dicas culturais (Bandeira, Bauhaus, Van Gogh, Mutantes, Caetano, Rimbaud…). Quantos “Eduardos” não quiseram ficar mais maduros para compartilhar aquilo que as “Mônicas” já dominavam?

 

“Quase Sem Querer” também usa versos fáceis, mas foca na primeira pessoa do singular, revelando-se um diálogo com um “você” indefinido. Vacilante, esse “eu” busca equilibrar-se entre o amadurecimento e a candura, apostando em uma fusão de horizontes mútuos.

 

Na mesma linha está “Tempo Perdido”, porém com mais sofisticação. É uma profissão de fé no que ainda e sempre há para viver: “Somos tão jovens” (e é assim que aparecem vários roqueiros ao longo do videoclipe). Mas é também uma confissão de insegurança que envolve um apelo: “Então me abraça forte [impossível não lembrar da foto do casal no encarte] e me diz mais uma vez / Que já estamos longe de tudo: / Temos nosso próprio tempo.”

 

E é em “Tempo Perdido” que aparece com nitidez um traço que está espalhado nas letras de Dois: a ética (ampliando um ponto levantado por Arthur Dapieve). Valorizar “nosso suor sagrado”. Acostumar-se com a “própria lei” (“Andrea Doria”). Nenhum medo vai fazer da “força confusão” (“Daniel…”). Saber que “não precisava provar nada para ninguém” (“Quase Sem Querer”). Seja nos relacionamentos, seja na política, o que importa é não “mentir pra si mesmo” e fazer disso um projeto coletivo (“temos todo o tempo do mundo”). Portanto, aprendíamos também essa ética que foi tão marcante na trajetória da Legião em sua relação com os fãs, com a mídia e com o mercado.

 

Todas as dimensões convivem na faixa final, a enigmática “‘Índios’”. Nela aparecem referências religiosas, presentes também no título da faixa de abertura (“Daniel…”). Uma interpretação possível: trata-se de uma canção sobre a inocência e a sua perda, sobre os perigos do mundo e como sobreviver a eles. No refrão (coisa que só três das 12 faixas têm), novamente desponta esse eu que apela a um outro: “é sempre só você que me entende do início ao fim”.

 

 

Ainda estou confuso

Em 2026 fará 30 anos que Renato Russo morreu. Talvez tenha sido essa motivação para Michel Laub publicar Verão na Névoa, sua primeira obra de não ficção. Misto de ensaio e memória, em seu livro Laub reflete sobre si mesmo tendo por referência duas figuras com quem mantêm relação ao longo de sua vida. Uma delas é exatamente Renato. Laub, que tinha 13 anos quando Dois foi lançado, pode ilustrar o que acima apontei sobre a formação adolescente.

 

Identificando-se e distanciando-se de Renato, Laub comenta diversos aspectos da vida e da obra do vocalista da Legião Urbana. Destaco o seguinte: “Tudo pode ser proveito na fama, e tudo pode ser uma falha essencial: o sofrimento que gera legitimidade, mas não deixa de ser sofrimento, em episódios reiterados de abuso de drogas, crises depressivas, rompantes de estrelismo agressivo e autodestrutivo”.

 

Meu interesse não é apontar divergências entre vida e obra no caso de Renato. É mais para aludir aos “mil pedaços” em que podemos nos transformar. E para reconhecer as contradições que nos constituem, mesmo quando a ética nos guia. Daí a reflexão final que considera o que veio depois de Dois.

 

No segundo semestre de 1987, a banda voltou aos estúdios da EMI para as gravações do seu terceiro álbum, lançado ainda naquele ano. “Que País é Esse” e “Faroeste Caboclo” consolidaram a promessa do BRock como trilha sonora da nação. E a Legião conseguiu sobreviver até mesmo à crise do “rock nacional” no final da década.

 

Mas o preço do sucesso foi alto e se dramatizou no trágico show de Brasília, no estádio Mané Garrincha em junho de 1988. O evento foi impactante. Por conta dele e de outras questões, Renato enveredou em um caminho de busca de serenidade que suas letras tentaram expressar. Essa busca, no entanto, sempre conviveu com aquilo que aponta Laub: as drogas, as crises depressivas e os rompantes de estrelismo.

 

Musicalmente, a Legião, convertida em 1989 em trio, foi adiante criando uma espécie de mundo próprio, que teve seu ponto alto em As Quatro Estações e alguns tentos inspirados nos álbuns seguintes. Na década de 1990, sua obra ganhou apreciações um tanto esquizofrênicas: diante do rock voraz pelas misturas com outros gêneros, parecia pouco “brasileira”; para artistas de cenas mais próximas à MPB, o reconhecimento que permitia sua assimilação ao cânone da música nacional.

 

Disso tudo o cenário em torno da produção e repercussão de Dois guarda enorme distância. Naquela época a Legião contribuiu, na vanguarda, para provocar uma verdadeira mutação nas referências do pop brasileiro exatamente por se diferenciar da MPB. E Renato não estava preocupado em parecer sereno. Instigava inquietudes tentando conseguir a música urbana.

 

Nota: em 2020, a Célula Pop publicou outro texto sobre Dois. De minha autoria, há também comentários sobre V e O Descobrimento do Brasil.

 

 

Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *