O mecânico da minha rua não tem que conhecer Wilco
Tenho um problema grande com quem cria lista de coisas que eu TENHO QUE — que ler, que ouvir, que comer, que conhecer, que visitar etc. — sem incluir um SE, sem incluir um pra quê. É claro que, se eu quero conhecer a filmografia do Woody Allen, é possível que alguém me mande uma lista de dez filmes que eu TENHO QUE ver, uma lista de por quais começar, se eu quiser entender a história, a linguagem, o senso de humor ou qualquer coisa por aí envolvendo o diretor. Mas, se alguém me dá uma lista de dez cidades que eu TENHO QUE conhecer, por que eu deveria conhecê-las? Por que eu deveria ir a Balneário e não a, sei lá, Muriqui? Qual é o argumento para o imperativo? Pelo que consta, Muriqui é menos poluída.
O que torna o destino X imprescindível em relação ao destino Y? Tenho que? Se você vai falar comigo nesse tom, acho bom colocarmos algumas cartas na mesa.
O mundo da literatura não é diferente de nada no mundo da cultura em geral, seja a cultura pop ou aquela que se leva mais a sério: é cheio de listas-de-tem-que. Já viu o conteúdo produzido aos montes por essa galera — e, meu Deus, eu me sinto ridículo só por saber que vou escrever os termos a seguir — booktuber e booktoker? É lista aos montes, e cheia de imperativos — NÃO PODE deixar de ler! TEM QUE conhecer! —, sem sequer um aditivo honesto como “porque EU considero os melhores de tal cenário”. Existe um medo não pronunciado de elencar, de atribuir um pódio, para não ser injusto com as outras, ignorando o fato de que qualquer lista já nasce deixando quase tudo para trás.
Sim, eu quero que alguém me diga quais livros da literatura chilena seria legal conhecer, seja porque venderam mais, porque sobreviveram ao teste do tempo, porque o leitor e argumentador em questão criou algum afeto particular por aquele livro. Eu quero saber quais são as principais autoras de ficção desta década, ou pelo menos quais são as mais interessantes, e quero que alguém me diga que eu deveria conhecê-las por essas questões, e não simplesmente “cinco autoras que você NÃO PODE deixar de ler!”.
Não posso por quê? A polícia literária vai aparecer na porta da minha casa com um mandado? Um oficial de justiça vai me levar pra frente de um juiz que vai me perguntar “senhor Jorge, você não recebeu a lista de autores que você tinha que ler? POR QUE O SENHOR NÃO AS LEU, SENHOR JORGE?!”
Não, isso não vai acontecer. Meu imposto de renda não vai ser maior porque eu deixei de declarar a leitura de um fulano, de uma fulana. Então isso significa que, afinal, eu não tinha que nada.
A vida não é esse imenso checklist de checklists, essa infinidade de coisas para serem consumidas simplesmente porque alguém ou alguns dizem que isso deveria ser feito dessa forma, sem conseguir apontar pra você, às vezes nem mesmo pra eles próprios, por que isso deveria ser assim. Algumas pessoas vão viver muito bem sem nunca abrir uma página de 1984. Ok, elas não vão saber por que o Big Brother, o reality show, tem o nome que tem, mas e daí? Por outro lado, também nunca vão se flagrar perturbadas com a ideia de que o passado é passível de mudança e que talvez elas não devessem confiar tanto assim nas suas lembranças como acontece comigo desde que eu li o livro pela primeira vez lá em 2002.
Ou terá sido em 2003?
2004… Talvez.
Algumas pessoas vão viver e morrer perfeitamente bem, talvez a maior parte delas, sem ter a menor ideia de que aquele filme com o Jimmy Fallon e a Drew Barrymore era adaptação de um livro que um careca aficionado por futebol escreveu nos anos 90. Outras vão perder a referência quando ouvirem perguntas como “traiu ou não traiu” jogadas ao vento, sem contexto, mas… E daí? Quem, de fato, é melhor por entender um pouquinho mais disso do que daquilo?
Eu não sei trocar um pneu, e não acho que eu tinha que saber, a não ser, é claro, se eu dirigisse. De igual modo, eu não acho que o mecânico da minha rua deveria saber quem é Jeff Tweedy, a não ser, é claro, que ele queira uma boa lista de músicas para ouvir quando estiver numa autoestrada.
I just can’t find the time / to write my mind / the way I want it to read

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
