Dez anos sem Prince – O Anão Púrpura de Minneapolis está vivo
Em alguma Bizz dos anos 1980, eu vi algum crítico da revista se referir a Prince como “O Anão Púrpura de Minneapolis”. Acreditem, era um elogio rasgado, ainda que possa parecer politicamente incorreto nos dias de hoje. Eu acho a denominação tão genial a ponto de resgatá-la para fazer parte do título dessa homenagem. Prince é gênio, sua música está muito longe de ser ultrapassada e sua habilidade como cantor, compositor e instrumentista é inquestionável. Claro, ele teve momentos menos inspirados em sua carreira, mas a média ainda é altíssima. Com o passar do tempo, seu catálogo, que era raríssimo online, foi disponibilizado e é possível constatar a magnitude de sua obra. Tem de tudo – discos não lançados, versões ao vivo, remixes, álbuns duplos, triplos, relançamentos e mais um monte de tesouros que ainda encantam os fãs do homem. Mas ainda há lacunas. O mitológico “Black Album” nunca foi disponibilizado e até alguns remixes meio manjados, como o de “Space”, faixa de 1993, numa versão eletroacústica, que chegou a tocar em rádios, não deu as caras nos streamings mais populares. Tudo bem, há outros meios de catar as faixas restantes e completar o arco de Prince.
Sua carreira tem momentos inquestionáveis. Prince surgiu em fins dos anos 1970, fazendo uma versão muito pessoal da fusão funk-rock, totalmente inspirado em George Clinton e Rick James, mas já com personalidade muito própria. Basta ouvir as faixas do primeiro disco dele, “For You”, pra ver como havia um minimalismo instrumental próprio, um apreço pelo rock mais moderno da época – a new wave – e uma habilidade própria com a guitarra. Ele logo se enturmou com o pessoal do grupo The Time e montou a banda The Revolution. Discos maravilhosos como “Prince” (1979), “Dirty Mind” (1980) e “Controversy” (1981) abriram caminho nessa sonoridade própria e moderníssima para seu tempo. Seu quinto trabalho o colocou na cabeceira da pista de decolagem. “1999” varreu o mundo e deu cacife suficiente para Prince lançar um filme em âmbito mundial e a trilha sonora dele, “Purple Rain” (1984), o colocou no mapa mundi, gerando comparações com Michael Jackson e revelando sua persona fascinante. O filme era fraco, mas as canções estão entre o que Prince fez de melhor em sua carreira. “When Doves Cry” foi parar no Fantástico da Rede Globo. “Let’s Go Crazy” talvez seja o melhor momento da carreira de Prince, enquanto a faixa-título é, até hoje, uma das maiores baladas rock de todos os tempos. Maluco, tarado, talentoso, temperamental, tudo ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo, ele dava canções para outros fazerem sucesso mundial, como Chaka Khan, que fez uma versão arrasa-quarteirão de “I Feel For You” em 1984, faixa que ele gravara em seu segundo álbum. Também fez o sucesso das Bangles, dando para elas a linda “Manic Monday”, em 1985.
A partir daí, com o nome consolidado, Prince seguiu com álbuns bacanas. Foi psicodélico de caixa de lápis de cor no sensacional “Around The World In A Day” no mesmo 1985, funky eletrônico em “Parade” (1986) e resolveu mirar uma visão personalíssima de futuro para a música pop em “Sign O’ The Times” (1987), um disco duplo no qual abria mão de quase todo o elemento pop de suas canções em favor de timbres eletrônicos, canções oblíquas e geniais. Estava, claro, à frente de seu tempo e seguiu assim no trabalho seguinte, “Lovesexy” (1988), no qual aparecia nu na capa e com uma sugestiva flor como membro. Mesmo experimental, Prince seguia nas paradas de sucesso, emplacando canções como “Alphabet St” ou “U Got The Look”. Seu cacife seguia polpudo e ele foi chamado para fazer a trilha sonora de “Batman”, a versão de Tim Burton, em 1989, que visava recolocar o Homem-Morcego no mapa da cultura pop – lugar em que ele está até hoje. A trilha foi sucesso massivo, ainda que alguns dissessem que era meio diferente do que Prince vinha fazendo. Não estavam errados. Mas era genial tanto quanto, e ele seguiu nos anos 1990 fazendo outros bons álbuns, mesmo que não fossem totalmente aclamados pela crítica como os anteriores. E os primeiros fracassos vieram. “Grafitti Bridge”, de 1990, foi um filme que ninguém viu e o disco com as canções dele ficou muito longe de repetir o sucesso de “Purple Rain” seis anos antes. Mesmo assim, teve as bacanas “We Can Funk”, com George Clinton e “New Power Generation”, que batizou a nova banda de Prince e o manteve nas paradas.
O trabalho seguinte, “Diamonds And Pearls” (1991), recuperou seu prestígio e ele voltou para as paradas com duas canções maravilhosas: “Gett Off” e “Cream”, que tiveram clipes em alta rotação na MTV – uma tradição na obra de Prince. Além disso, uma canção sua foi uma das mais ouvidas no planeta ao longo dos anos de 1990 e 1991. “Nothing Compares 2U”, com a irlandesa Sinéad O’Connor, se revelou o maior sucesso radiofônico de Prince ao longo do tempo. E isso não é pouco. No entanto, o que parecia mais uma década de triunfo revelou um movimento inesperado – o sujeito abriu mão de seu nome e exigiu que se referissem a ele como um símbolo no qual fundia as representações de masculino e feminino. Denominações como “O artista anteriormente conhecido como Prince” ou “O Artista” surgiram como esforços desesperados para fazer menção a ele. Vieram então álbuns um pouco menos geniais, como “Love Symbol” (1992) e “Come” (1994), mas que mantinham a capacidade impressionante de Prince seguir compondo e gravando. Em 1995 ele participa de “Exodus”, álbum lançado pela New Power Generation, um discaço funky, talvez seu melhor momento e, adivinhe: é um dos trabalhos que faltam nos streamings. A canção “The Good Life” foi sucesso mundial. Mas é possível dizer que Prince não conseguiu repetir a coesão de trabalhos anteriores dali pra frente. E ele não parou de lançar novos álbuns. Vieram “The Gold Experience” (1995), “Chaos And Disorder” (1996) e o duplo “Emancipation” (1996), que confirmaram essa queda de relevância, como se Prince não conseguisse o mesmo protagonismo de antes naquela espécie de “vanguarda pop” da música negra. Ele foi perdendo espaço para um estilo que vinha para assumir esse lugar, o hip hop.
O que o rap foi para a música a partir do fim dos anos 1990 e dali para frente, Prince não conseguiu acompanhar. Ele seguiu lançando discos em profusão, muitas vezes sem relevância, mas ainda mostrando aqui e ali que era ainda havia lenha para queimar. Trabalhos como “Musicology” (2004) ou “3121” (2006) trazem boas canções, mas a régua sempre foi muita alta com o sujeito. No fim da vida, Prince seguia produtivo e havia lançado uma sequência de trabalhos, iniciada por “Art Official Age”, em 2014 e seguia com dois álbuns “HITNRUN Phase 1” e “HITNRUN Phase 2”, no qual parecia voltar sua atenção para uma abordagem mais rock de canção, investindo em seu talento guitarrístico. Sua morte em 2016 interrompeu o projeto. Seus herdeiros então iniciaram um processo de disponibilização de seu catálogo online e lançamento de vários álbuns e projetos guardados pelo artista. E deram início a uma sequência de relançamentos de seus discos clássicos em versões cheias de bônus, lados B, sobras de estúdio e um monte de belezuras. E vieram álbuns inéditos, como “Piano And Microphone 1983” (2018) e “Originals” (2019) e “Welcome 2 America” (2021).
A gente fez uma playlist de canções queridas de Prince e selecionamos 42 momentos importantes. Tem gravações clássicas, algumas mais obscuras, covers bacaníssimas e colaborações com o The Time, a banda que ele praticamente integrou, produziu e lançou no início dos anos 1980.
“I Feel For You” e “I Wanna Be Your Lover” – de “Prince”, 1979 – dois exemplares da composição primeva do sujeito, um funk quase minimalista, mas cheio de ironia, estilo e letras lascivas.
“Head” – uma das nossas gravações preferidas de Prince, o título já diz tudo. Direto de “Dirty Mind” (1980), seu terceiro álbum.
“Controversy” – faixa-título de seu terceiro álbum, de 1981, mostra que a música de Prince estava evoluindo para algo completamente diferente.
“Cool” e “Get It Up” – duas canções do The Time, banda que Prince produziu e para qual escreveu canções, além de tocar junto. Essas duas cacetadas são do álbum “The Time”, de 1981.
“1999”, “Little Red Corvette” e “Lady Cab Drive” – três canções do sensacinal “1999”, lançado em 1983, o álbum no qual Prince achou a sonoridade que o identificou diante do público, uma variante muito especial de synthfunk, meio new wave, meio qualquer coisa.
“Jungle Love” – mais uma faixa do The Time, talvez o maior sucesso deles, do álbum “Ice Cream Castle”.
“I Feel For You” – a versão de Chaka Khan é um colosso do funk oitentista.
“Let’s Go Crazy”, “I Would Die 4 U”, “Take Me With U”, “Purple Rain”, “When Doves Cry” – faixas de “Purple Rain” (1984), ainda hoje o melhor álbum de Prince, em todos os sentidos.
“Manic Monday” – a canção que as Bangles gravaram e que fez muito sucesso naquele ano de 1985.
“Raspeberry Beret” e “Pop Life” – duas belezuras coloridas e psicodélicas de “Around The World In A Day” (1985).
“Kiss” – clássico interdimensional, até hoje uma das canções mais sensacionais já feitas, tudo nela é muito novo e original. Dos vocais, às batidas secas, ao uso da guitarra, nada envelhece em “Kiss”. Direto de “Parade” (1986).
“Sign O’The Times”, “Shockadelica”, “U Got The Look” – três faixas do genial “Sign O’The Times” (1987), disco no qual Prince rompeu barreiras estéticas e praticamente definiu rumos de uma nova modalidade de black music.
“Batdance” – a impressionante canção que identificou o novo Batman para as massas de 1989
“New Power Generation”, “We Can Funk” – duas faixas de “American Graffiti”, álbum melhor que o filme de mesmo nome, de 1990.
“Nothing Compares 2U” – canção com a interpretação de Sinead O’Connor, que fez mais sucesso do que qualquer outra canção naquele ano de 1990/1991.
“Cream” e Gett Off” (Ao Vivo no Grand Slam) – dois colossos funk de “Diamonds And Pearls”, álbum de 1991. A versão ao vivo de “Gett Off” é ainda melhor que o excelente original de estúdio.
“Sexy MF”, “7” – duas faixas de “Love Symbol” (1992), o disco que apresentou ao mundo o símbolo pelo qual Prince seria conhecido mais tarde. Duas cacetas funk.
“Space” – canção do razoável “Come”, de 1993. O remix é muito mais bacana que esse original, mas tudo bem.
“P Control” – cacetada solitária e funky do confuso “The Gold Experience”, de 1995.
“Rock And Disorder” – cacetada solitária e funky do confuso “Chaos And Disorder”, de 1996.
“Betcha By Golly Wow” e “La La La Means I Love You” – Prince fazendo duas covers de clássicos da Phiadelphia International. A primeira, dos Stylistics, a segunda dos Delfonics, ótimas versões. Do enorme e cansativo “Emancipation”, de 1998.
“Musicology” e “Cinnamon Girl” – ambas faixas de “Musicology” (2004). A canção-titulo é uma ótima funky song e a segunda, homônima do sucesso de Neil Young, é uma ótima canção pop, que lembra a fase oitentista do homem.
“Art Official Cage” – faixa de abertura quase homônima de “Art Offical Age”, de 2014, mostrando aquela verve funky que Prince nunca perdeu ao longo do tempo.
“Stare” – cacetada cheia de baixos insinuantes e levada irresistível de “HITNRUN Phase 2”, de 2015.
“Manic Monday”, “Nothing Compares 2 U”, “Sexy Shooter” – faixas do póstumo “Prince Originals” (2019), com leituras alternativas ou versões personalíssimas de sucessos do homem.
“Running Game” e “Hot Summer” – faixas de “Welcome 2 America”, o último lançamento de material inédito de Prince, de 2021.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
