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O inexplicável The Playboys

 

 

“Companheiros perfumados! É um absurdo ser cobrado taxa de estacionamento nos Shoppings do Recife! O preço do perfume francês está fora da nossa capacidade de consumo! Playboys e Patricinhas de todo o mundo: Uni-vos”. Eis o discurso de João Neto, vocalista do The Playboys, na introdução da música “Brincando de Punk”.

O The Playboys foi a banda mais iconoclasta que surgiu no cenário nacional. Além de inverter o Marxismo, colocando a classe opressora como categoria oprimida, tocavam fantasiados de milionários, acrescentavam brinquedos ao tradicional formato “guitarra, baixo e bateria”, esculhambavam punks, surfistas, classe média trabalhadora, a intelectualidade pernambucana e Ariano Suassuna. E consideravam Chiquinho Scarpa seu maior mentor. Até eu ganhei uma “homenagem”. Conto essa história mais adiante.

 

A primeira vez que vi o The Playboys foi em um festival no antigo “Ancoradouro”, em 2004. E confesso que fiquei sem saber o que escrever diante de tanta informação. Era inacreditável ver punks numa roda-de-pogo quando eles estavam sendo esculachados em músicas como “Brincando de Punk” e “Niilista de Fim de Semana”. No meio do show, João Neto abriu uma enorme Lista Telefônica para recitar os filósofos Pré-Socráticos Heráclito e Parmênides. Em outra ocasião, alguém vestido de “preto velho” entrou em cena e deu umas baforadas de charuto no vocalista, que se transformou em Chico Science, para entoar “Monólogo aos Ouvidos dos Imitadores”, recitando o seguinte verso: “Imitar o finado é uma transação comercial”. Durante todo o show, uma loira fantasiada de coelhinha patinava no meio do público com os CDs da banda para vender.

 

Além de João Neto, o The Playboys contava com um bom time de músicos, como o guitarrista Filipe, o baixista e letrista Ebis Filho e o baterista Lucas Rabelo. A formação ainda era reforçada por ZGR no teclado de brinquedo, Tiago na guitarra de brinquedo e Eduardo Alves nos teclados. O vocalista João Neto também usava uma corneta de brinquedo.

 

Um dia uma colega de pós-graduação perguntou se eu tinha alguma treta com o The Playboys. “Não que eu saiba”, respondi. Ela explicou que, na noite anterior, tinha ido ao “Barramundo”, casa de shows que dava espaço para bandas independentes, e viu a banda tocar uma música na qual berravam meu sobrenome. Descobri depois que era uma versão que fizeram de “I Wanna be Your Dog”, dos Stoges, cuja letra dizia: “Eu quero ser independente / para fazer show no Barramundo / com a cobertura de Montarroyos”. E, no refrão, berravam meu sobrenome umas três vezes, num sonoro “MONTARROYOS!”. Se a intenção era contrariar, o efeito foi o contrário. Me senti tremendamente lisonjeado.

 

Fiz de tudo para não ficar amigo deles, mas fracassei lindamente. João Neto era jornalista, e no momento em que a banda estourava no Recife, cursava filosofia. Eu também tinha feito filosofia antes de jornalismo, só que não concluí o curso. João é hoje um dos maiores especialistas em Nietzsche no Brasil. Uma vez, numa conversa informal, ele me disse: “Eu sou um crítico musical frustrado”. Achei que era brincadeira, mas ele falava sério. João já havia trabalhado como repórter da editoria de
economia do “Jornal do Commercio”, e queria, de fato, ser crítico de música.

 

Eles eram tão anárquicos que, em 2000, lançaram um disco intitulado “Vivendo Cada dia Mais Lindos e Perfumados”, uma clara referência ao clássico álbum de 1987 “Vivendo Cada Dia Mais Sujo e Agressivo”, do Ratos de Porão. Também não tiveram pudores ao gravar uma Bossa Nova, “Pessoas Cult”, cujo refrão diz: “Meu sonho é ser pós-graduado / Na Sorbonne fazer um doutorado”.

 

A banda sempre alugava um espaço na Feira Pop do ‘Abril pro Rock” para vender discos e livros. Em 2005, fizeram um “show-surpresa” no chão do evento, sem o prévio conhecimento de Paulo André, criador e produtor do festival. Batizaram o local de “Palco 3”, e fizeram história.

 

Um dia, eu estava com Guilherme Moura na redação do “Recife Rock”, quando vimos a banda tocar, pela primeira vez na televisão, no programa “Sopa Diário”, comandado por Roger de Renor, a obra-prima “Paulo André não me Ouve”. Ficamos tão impactados que resolvemos lançar a música pelo selo virtual do site.

 

“Paulo André não me Ouve” merece um capítulo à parte. Trata-se de um rock delicioso com uma letra em que a banda pede desesperadamente para tocar no “Abril pro Rock” e ser exportado para a Europa. Eis parte da letra: “Paulo André não me ouve / não presta atenção no meu release e CD (…) / Sua agenda já está lotada / ele já tem muito o que fazer / Se eu não tocar no “Abril pro Rock” / Como vou sair na MTV / Não exporto a minha banda / sem ser uma referência pernambucana”.

 

No “Rec-Beat” de 2006, fizeram um boneco gigante de Paulo André, e o jogaram para o público antes de tocar a música. O tal boneco foi destroçado pela plateia. Foi histórico. Até que, finalmente, tocaram no “Abril pro Rock” de 2007, mesmo ano em que lançaram a coletânea “10 Anos Pedindo Mesada”.
Para homenagear Ariano Suassuna, compuseram o funk “Pancadão Armorial”. Eis parte da letra: “Eu vou fazer uma música de raiz / e a macaxeira vai tocar no CD-Player / O Ariano vai dançar no baile funk / vou misturar o erudito e o popular/ Eu vou fazer um pancadão armorial”.

 

Ariano adorou. Soube disso através de uma sobrinha dele, que é jornalista.

 

Mas o capítulo mais bonito da trajetória do The Playboys foi a criação do “Rock na Tamarineira”, festival realizado no maior hospital psiquiátrico de Pernambuco, o “Ulysses Pernambucano”. O evento tinha como principais objetivos levar diversão para os internos e arrecadar roupas e produtos de primeira necessidade para o hospital. Foi o festival mais emocionante que já cobri. Fiz a cobertura da edição de 2010 para o “Portal IG”, e foi difícil segurar as lágrimas. É algo de tamanha sensibilidade que só gente muito iluminada é capaz de proporcionar.

 

Confesso que tenho muita saudade do The Playboys e de seus shows. Como me disse João Neto numa entrevista: “Eu acredito que nossa obra é póstuma. Só seremos compreendidos daqui a 50 anos”.

 

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

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