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Rankeamos os discos do Kid Abelha

 

 

Eu gosto de Kid Abelha. Em meu tempo, poucos críticos musicais teriam coragem de assumir isso. Era clichê mal intencionado falar que a música de Paula Toller, Leoni, Bruno Fortunato e George Israel era boba, fútil, alienada. E quem dizia isso era a imprensa paulista, meio puxando a brasa pra sardinha das bandas de lá, meio por mau humor puro e simples. O fato é que o Kid teve uma carreira longeva, ainda que bastante irregular. Seu começo, com os álbuns “Seu Espião” (1984) e “Educação Sentimental” (1985), fez da banda uma das forças principais do rock brasileiro oitentista.

 

A saída de Leoni, logo após o segundo álbum, fez com que a banda, então reduzida a um trio com alguns músicos flutuantes, como o ótimo baterista Claudio Infante, precisasse achar um caminho próprio, longe das ótimas composições do ex-baixista e vocalista. Dito e feito. Porém, ao longo do tempo, o Kid provou ser mais uma banda de singles que de discos. Seus trabalhos, na maioria das vezes, carecem de coesão e, por mais que haja sempre duas ou três canções bacanas em cada um, a maioria é sempre de “fillers”, faixas meio desnecessárias. Mesmo assim, a gente resolveu rankear os trabalhos do Kid Abelha, incluindo alguns lançamentos com pinta de coletânea, mas que tiveram a chancela da própria banda. Deixamos de fora aqueles álbuns protocolares que as gravadoras lançam de vez em quando e procuramos focar nos trabalhos mais autorais. Aqui está a nossa listinha de preferências.

 

 

16 – Remix (1997) – o fundo do poço vem primeiro. Era modinha lançar remixes dançantes no fim dos anos 1990, quase sempre em versões que inseriam um ou outro baticum repetitivo e sem alma. Com o Kid não foi diferente. Nada se salva por aqui, nem como curiosidade.

 

15 – Multishow Ao Vivo (2012) – o disco ao vivo que encerrou a carreira da banda, também teve versão em DVD e especial na emissora global. É uma apresentação competente, mas com vários equívocos, como, por exemplo, chamar a … Bateria da Mangueira e Ivo Meirelles para participarem de “Pintura Íntima”, num constrangimento nível master. De resto nada feito aqui supera os originais, portanto, consideramos bola fora.

 

14 – Pega Vida (2005) – o último disco de inéditas do Kid é frouxo e sem nada que seja memorável se comparado ao que a banda fez em outros momentos. Canções burocráticas, bobas, sem ressonância e meio tolas até, como, por exemplo “Strip Tease”. O hit “Peito Aberto” é insípido e não tem lugar numa coletânea abrangente de singles do grupo.

 

13 – Surf (2001) – outro álbum fraco, mas, ao contrário de “Pega Vida”, “Surf” tem duas canções bacaninhas: “Eu Contra a Noite” e a bela “O Rei do Salão”, com alusões ao título do álbum. Mas é pouco, bem pouco.

 

 

12 – Meio Desligado (1994) – na febre dos “acústicos” do início dos anos 1990, o Kid não quis esperar pelo convite da MTV, que só viria em 2002 e decidiu lançar o seu. Há alguns acertos por aqui, como as versões de “Alice (Não Me Escreva Aquela Carta de Amor)”, “Por Que Não Eu” e, sobretudo, a leitura de “Grand’Hotel”, com participação de Wagner Tiso e um lindo arranjo de cordas.

 

11 – Acústico MTV (2002) – badalado e bem sucedido, o “Acústico” do Kid é legalzinho mas poderia ser melhor. Mesmo assim, aquelas participações típicas de lançamentos desse tipo, fazem diferença. Edgard Scandurra aparece em “Como Eu Quero” e na cover de “Mudança de Comportamento” (do Ira!, claro) e Lenine dá um tom saltimbanco a “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”. Versões frouxas de dois clássicos da banda, “Amanhã é 23” e “Os Outros”, no entanto, jogam muito contra.

 

10 – Ao Vivo (1986) – o que era um ambicioso disco duplo acabou saindo como um quase EP. A ausência de Leoni, já fora da banda àquela altura, é perceptível. As versões são longas demais e não funcionam, apesar do esmero dos músicos, especialmente a baixista Claudia Niemeyer, a bordo para a turnê que a banda fazia então. De novidade, a inédita gravação de “Nada Por Mim”, de Paula e Herbert Vianna, que foi o single do disco. Estranho, mas com valor histórico.

 

 

09 – Autolove (1998) – o último disco do Kid nos anos 1990 é razoável. Tem duas canções bacanas, mantendo aquela média típica da banda – “Maio” e a bonitinha “Eu Só Penso em Você”, mas como dissemos, é um disco que não tem coesão. A produção é pouco inspirada, meio eletrônica, meio qualquer coisa. Mas é melhor do que a banda fez depois.

 

08 – Coleção (2000) – compilação de versões que o Kid gravou ao longo da carreira e que ficaram de fora de seus álbuns principais. Aqui está a prova de que o grupo quase sempre foi bom de covers, a começar pela lindinha “Pingos de Amor”, que foi tema de um comercial de sandálias. Além dela, tem “Esotérico”, de Gilberto Gil, “Pare o Casamento”, famosa na voz de Wanderleia e “Teletema”, clássico de Antonio Adolfo. E ainda tem uma leitura simpática para “As Curvas da Estrada de Santos”, do Rei.

 

07 – Kid (1989) – este disco é bacana e subestimado. A sonoridade da banda estava bem equilibrada e a safra de composições era boa. “Dizer Não é Dizer Sim” e “Todo Meu Ouro” são ótimos hits e ainda tinha a controversa “Agora Sei”, com o chocante verso “eu já nem me lembro bem da primeira vez que eu dei”, um caso raríssimo de empoderamento e franqueza femininas em pleno 1989.

 

06 – Iê Iê Iê (1993) – o Kid adentrava a era dos clipes da MTV com esse álbum. O do hit “Eu Tive Um Sonho”, por exemplo, trazia o jogador Raí como ator e a letra surrealista casava bem com o inusitado da empreitada. Além dela, a baladinha “Em Noventa e Dois” servia como um farol do tempo transcorrido em versos como “estou esquecendo seu rosto // saudade não é nada gostoso // em pleno 92”. Como flerte com o horror total, a cover terrível de “Smoke On The Water”, sim, ela mesma, que mais parece com “Bete Balanço” na leitura do Kid.

 

05 – Meu Mundo Gira em Torno de Você (1994) – dá pra dizer que esse disco encerra o periodo realmente criativo da banda. O trio está bem inspirado, seja no bom hit jovemguardista “Te Amo Pra Sempre”, seja na simpática faixa-título, que chega a lembrar gravações do início da carreira do Kid, talvez por marcar o décimo ano de carreira do trio. O grande, imenso acerto, no entanto, veio com a cover de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon, seja leitura reggae do arranjo, seja no ótimo clipe, cheio de celebridades.

 

04 – Tudo é Permitido (1991) – aqui está um bom disco, confirmando a boa forma do Kid na virada dos anos 1980/90. Três hits incontestáveis dão as caras aqui – “No Seu Lugar”, “Grand’Hotel” e a cover simpaticíssima de “Não Vou Ficar”, de Tim Maia, famosa com o Rei, que entrou na trilha sonora da novela Vamp. Ainda há uma outra versão, de “Fuga Número 2”, dos Mutantes, quando a banda paulista ainda não havia sido redescoberta, via David Byrne ou Kurt Cobain. Nilo Romero tocou baixo e produziu, ao lado de George Israel.

 

 

03 – Tomate (1987) – primeiro álbum do grupo sem Leoni, no qual o Kid procurou um caminho levemente mais sério, tentando uma linha evolutiva em relação a “Educação Sentimental”, mas com toques artísticos mais focados. A faixa-título, meio concretista, tem uma ótima linha de baixo, a cargo de Nilo Romero. Outras ótimas canções também estão presentes: “Me Deixa Falar”, abre o álbum, é uma belezura, outra com linha de baixo rebuscada e ótima melodia e bons versos: “Onde andam meus amigos // Que não aparecem mais // Será que me abandonaram // E eu fiquei pra trás?”. Tem outro hit, “No Meio da Rua”, outro acerto no alvo, melodia maravilhosa e bom arranjo de guitarras, mas, sem dúvida, o ponto alto aqui é a melancólica balada “Amanhã é 23”, na qual Paula Toller assume uma persona mais velha e fala consigo mesma, num inventário emocional raríssimo de se ouvir naquele 1987. “Tomate” é tristemente subestimado e desconhecido. Aqui dá as caras um Kid Abelha adulto, sem pedantismo e muito eficiente.

 

02 – Seu Espião (1984) – muitos preferem o Kid Abelha quando ainda tinha “E Os Abóboras Selvagens” no nome e isso faz alusão direta ao início de sua carreira. Sete das dez faixas desse álbum de estreia tocaram intensamente nas rádios e, em meio ao estouro desarvorado da banda, dava pra ver que canções como “Fixação”, “Seu Espião” e “Alice (Não Me Escreva Aquela Carta de Amor)” e “Nada Tanto Assim” indicavam a presença de algo mais que o sucesso simples e fácil. Eram todas composições de Leoni, um sujeito que já despontava como um compositor e letrista raro, sensível e articulado. “Seu Espião” é um clássico do rock nacional oitentista, em sua faceta mais colorida, esperta e pop. Tremendamente pop.

 

01 – Educação Sentimental (1985) – o melhor momento do Kid Abelha está aqui. “Educação Sentimental” é um tratado sobre o amor naquele Rio de Janeiro de 1984/85, focado na Zona Sul da cidade, extremamente fiel sobre as idas e vindas meio fúteis, meio verdadeiras que marcavam a vida de quem estava inserido no contexto. Leoni já era um grande compositor em questão de meses, responsável por coisas belas como “Lágrimas e Chuva”, as duas “Educação Sentimental”, “Garotos” (que teve Roberto de Carvalho tocando piano) e a suprema, superior e definitiva “Os Outros”, canção que, mesmo 41 anos depois de gravada, ainda emociona velhos corações. “Educação Sentimental”, o disco, é um dos melhores álbuns de rock já feitos no Brasil, sem exagero.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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