“Revolver” é o disco perfeito dos Beatles

Quando a gente começa a ouvir música mais a sério, acaba trombando com os Beatles. Tenho uma fase pré-escuta interessante. A primeira vez que vi minha mãe chorar de verdade, sem chance de disfarce, foi quando John Lennon morreu. Eu tinha dez anos e tive a certeza de que algo terrível havia acontecido, mesmo que só fosse entender a dimensão daquela morte décadas depois. Mais ou menos na mesma época da morte de John, eu amava a música de outro beatle, Paul, que fazia sucesso global com sua maravilhosa “Goodnight Tonight”. Também era fã de um imitador de carteirinha da estética do grupo, Jeff Lynne, que, com sua Electric Light Orchestra, fazia a delícia das pistas de dança com “Last Train To London”. E, no ano seguinte, por conta da perda de John, George Harrison, o terceiro beatle que habitava minha esfera musical de criança, lançava “All Those Years Ago”, uma canção que se tornou uma das minhas mais queridas. Isso sem falar no sucesso de Elton John, com “Empty Garden”, outra homenagem a John. Posso dizer que, por tabela, os Beatles estavam na minha órbita, ainda que eu não prestasse qualquer atenção à música que eles fizeram pouco mais de uma década antes. Lá em casa, ainda que minha mãe gostasse deles, não havia qualquer disco do grupo à mão. Eles não tocavam nas rádios, apareciam na TV ou eram assunto, exceto pelo assassinato de Lennon.
Demorou mais algum tempo para que eles entrassem no meu radar. Eu devia ter uns 16, 17 anos, quando comprei uma coletânea com vinte sucessos e capa branca. Dali em diante, não deixei mais de ouvi-los, amá-los e querer-lhes bem. Sim, porque os Beatles se tornaram, aos poucos, presença tão forte em minha vida que ultrapassaram o âmbito meramente artístico. Suas canções, de diversas épocas e fases, me consolaram, deram força, me fizeram acreditar e pensar em pessoas e situações de todos os tipos e contextos. Eles são a própria música popular do século 20, inventaram a pop music como ainda a conhecemos, estabeleceram as fundações para os modelos de canção ainda vigentes e ainda são imbatíveis na cultura pop. A década em que estiveram juntos, entre 1961 e 1970, tem muito mais que dez anos de avanços, conquistas, fatos históricos, momentos, eternidades. Eles foram as pessoas certas na hora e lugares certos, pavimentaram caminhos, inventaram e fizeram girar a roda, os móbiles e tudo mais. Não adianta escapar deles. E o momento em que a banda começou a sair da música e entrar na história foi com “Revolver”, lançado em 1966.
Ouvir o disco hoje, sessenta anos depois de ser lançado, é uma experiência multidimensional. É impossível pensar no mundo que viu essas 14 faixas surgirem nas lojas de disco, nas rádios, nas TVs do planeta. De uma forma até natural, o álbum une esses dois momentos e faz deles história. Mesmo que a gente não estivesse vivo naquele ano, é como se as canções nos mostrassem exatamente como era tudo. E o que fazia as pessoas sorrirem e chorarem. E tudo mais. Até tento conter os arabescos emocionais quando escrevo sobre Beatles, mas não dá. A vida, a idade, as coisas, tudo conspira a favor da emoção. Aliás, lembrando da escuta inicial da banda, lá por 1986/87, uma outra fase se instalou na mente: qual o disco preferido dos Beatles? Algum do início, da Beatlemania? Os álbuns da maturidade precoce, “Rubber Soul” ou “Revolver”? Algum da fase crepuscular? Alguma das trilhas sonoras? Eu já considerei “Revolver” o meu preferido, talvez porque ele seja o disco mais próximo da perfeição que o grupo já lançou. Ele é conciso, com temas diversos, mas perfeitamente amarrados pela maestria musical da banda e do produtor George Martin. Ele tem estilo, capa marcante, ótimas composições – algumas das mais importantes da banda – e surgiu antecipando a revolução estética que viria cerca de um ano depois. Aliás, sua última canção, “Tomorrow Never Knows” é o início deste tsunami estético que estava por vir.
Ela é diferente de tudo o que fora ouvido de um artista como os Beatles. Lennon teria pedido a Martin para fazer sua voz soar como a do Dalai Lama pregando para as montanhas. Atrás dele, Ringo dá mais uma das infinitas provas de excelência na bateria e Paul toca apenas uma nota no baixo. É o minimalismo a serviço do universo. Mas, como dissemos, ela parece antecipar um outro contexto, que ainda viria. As outras faixas são deliciosamente pop e perfeitas, até quando não me agradam pessoalmente, caso da incursão radical de George na música indiana mais tradicional, que é “Love You To”. E, quando falamos “pop”, não falamos de banalidades, pelo contrário. O leque de influências temáticas dos Beatles nunca estivera tão vasto. Temos crítica à cobrança de impostos, ode à maconha, à Motown Records, à amizade…Temos observações maduras e impressionantes sobre a solidão, o amor e gritos de “não enche”, traduzidos em justificativas como as que John dá em “I’m Only Sleeping”, uma pérola menor num cancioneiro tão perfeito. E temos outros três momentos impressionantes, ainda que dentro da “normalidade”, todos eles creditados na conta de Paul McCartney: “Eleanor Rigby”, um marco da canção popular, ao trazer um arranjo de cordas como único acompanhamento para a letra; “Here, There And Everywhere”, talvez a mais linda balada já escrita no planeta; e “For No One”, uma canção à frente de seu tempo, respeitando o ponto de vista e a vontade de uma mulher que deixa um relacionamento abusivo para trás.
Há alguns anos que “Abbey Road” é meu disco preferido dos Beatles. Esse título já foi do “White Album” e do próprio “Revolver”. Foi o primeiro álbum que considerei o melhor da banda e, ainda hoje, tenho dificuldades para não considerá-lo assim. Talvez tenha a ver com a capacidade que temos de enxergar a perfeição de maneira imediata. Porque “Revolver”, repito, é um disco perfeito. É o disco perfeito dos Beatles e isso, gente, é o mais alto lugar na cordilheira. Deixo abaixo um faixa-a-faixa contextualizante para quem ainda vai ouvir o disco pela primeira vez. E amá-lo.
1. “Taxman” (George Harrison) – Frustrado com a alta alíquota de impostos cobrada pelo governo trabalhista britânico da época sobre as grandes fortunas, George Harrison escreveu uma letra ácida e bem-humorada reclamando das taxas excessivas (inclusive citando nominalmente o Primeiro-Ministro Harold Wilson e o líder da oposição Edward Heath). A faixa abre o disco com uma introdução de contagem seca e um marcante riff de baixo tocado por Paul McCartney a pedido de George e a aura do tema de “Batman” no refrão.
2. “Eleanor Rigby” (Paul McCartney, creditado a Lennon–McCartney) – Um marco na composição pop por dispensar totalmente as guitarras, bateria e baixos tradicionais, apostando apenas em um arranjo cortante e dramático para octeto de cordas escrito por George Martin. A letra retrata com profunda solidão e melancolia a velhice esquecida e figuras solitárias da sociedade, como a personagem do título e o Padre McKenzie.
3. “I’m Only Sleeping” (John Lennon, creditado a Lennon–McCartney) – Um hino à procrastinação e ao descanso, refletindo o estilo de vida sonolento e letárgico que John Lennon levava em sua mansão em Weybridge, onde passava longas horas na cama compondo e lendo. A sonoridade psicodélica é marcada por guitarras gravadas ao contrário (um efeito inovador de fita invertida criado por George Harrison e pelo produtor George Martin).
4. “Love You To” (George Harrison) – A primeira imersão total de George na música clássica indiana dentro da discografia dos Beatles. Gravada sem a participação de John e Paul, a faixa traz Harrison tocando cítara e violão acústico, acompanhado por músicos indianos de tabla e cítara, explorando uma atmosfera meditativa e transcendental que aprofundava a curiosidade ocidental pela cultura oriental.
5. “Here, There and Everywhere” (Paul McCartney, creditado a Lennon–McCartney) – Considerada pelo próprio McCartney uma de suas melhores composições, a música foi escrita à beira da piscina na casa de John Lennon enquanto Paul esperava o colega acordar. Inspirada pelo som vocal dos Beach Boys (especialmente pelo álbum “Pet Sounds”), a faixa tem harmonias vocais lindas, arranjos de violão delicados e uma atmosfera romântica e atemporal.
6. “Yellow Submarine” (Paul McCartney e John Lennon) – Concebida primariamente como uma faixa lúdica e infantil por McCartney, com ganchos pensados para a voz de Ringo Starr. A gravação ficou famosa pelo laboratório de efeitos sonoros montado no estúdio Abbey Road, que incluiu correntes de âncoras chacoalhando na água, sinos de campainha, caixas de fósforos e vozes abafadas em baldes cheios d’água para simular o fundo do mar.
7. “She Said She Said” (John Lennon, creditado a Lennon–McCartney) – Inspirada em um episódio bizarro ocorrido durante uma festa em Los Angeles, na qual o ator Peter Fonda repetidamente dizia a John Lennon saber o que era “estar morto” após um acidente com LSD. A música lida com a sensação de dissociação e infância perdida, sendo a última canção gravada para o álbum — montada de última hora após um desentendimento que quase deixou o disco sem uma faixa de abertura para o lado B.
8. “Good Day Sunshine” (Paul McCartney, creditado a Lennon–McCartney) – Um exercícío de otimismo
ensolarado composto no piano por Paul durante um dos dias mais quentes do verão britânico. Com forte inspiração no estilo no pop americano dos anos 1940, a faixa destaca-se pelo ritmo saltitante e pelos vocais em coro efervescentes.
9. “And Your Bird Can Sing” (John Lennon, creditado a Lennon–McCartney) – Conduzida por um brilhante dueto de guitarras tocadas por George e Paul, a música traz uma letra enigmática e irônica de John Lennon sobre o tédio existencial, o materialismo e o esvaziamento das relações superficiais da alta sociedade.
10. “For No One” (Paul McCartney, creditado a Lennon–McCartney) – Um retrato devastador, maduro e dolorosamente realista sobre o fim de um relacionamento amoroso. Gravada apenas por Paul McCartney (que toca piano, baixo e cravo) e por Ringo, a faixa conta ainda com um célebre e melancólico solo de trompa executado pelo músico convidado Alan Civil.
11. “Doctor Robert” (John Lennon, creditado a Lennon–McCartney) – Uma crônica bem-humorada e irônica sobre a contracultura de Nova York e Londres, inspirada em um médico nova-iorquino de reputação duvidosa conhecido por receitar injeções cheias de vitaminas e substâncias controladas (como anfetaminas) para celebridades e artistas cansados.
12. “I Want to Tell You” (George Harrison) – Terceira contribuição de George Harrison para o álbum, a faixa lida com a ansiedade, a dificuldade de comunicação e o caos mental gerado pelo excesso de pensamentos. Musicalmente, destaca-se pelo uso de acordes dissonantes de piano e por um marcante riff de guitarra.
13. “Got to Get You Into My Life” (Paul McCartney, creditado a Lennon–McCartney) – A tentativa
explícita de Paul para prestar uma homenagem à sonoridade e à energia contagiante da gravadora Motown e dos selos de soul music americanos. O arranjo é encabeçado por uma seção de metais vibrante e enérgica, embora o próprio McCartney tenha revelado mais tarde que a letra era, na verdade, uma ode apaixonada ao consumo de maconha.
14. “Tomorrow Never Knows” (John Lennon, creditado a Lennon–McCartney) – A grande obra-prima experimental e o encerramento apoteótico do disco. Inspirada pelo livro “The Psychedelic Experience” (uma adaptação do “Livro Tibetano dos Mortos” feita por Timothy Leary), John Lennon pediu para soar como “o Dalai Lama pregando no topo de uma montanha”. A faixa é construída inteiramente sobre uma única nota de baixo, acompanhada por uma parede sonora de loops de fita reproduzidos ao contrário, velocidades alteradas e gravações aleatórias manipuladas ao vivo no estúdio. Um milagre para a tecnologia da época.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
