O outro Murakami, o Murakami errado
Quando eu comecei a topar com o termo literatura pop e acompanhar esse mundinho do jeito que dava enquanto ainda precisava dividir meu tempo com coisas como ficar preocupado com a faculdade, discografias e dores de cotovelo, Nick Hornby era o nome sobre o qual mais lia — e lia mais sobre do que o que ele produzia, verdade seja dita. Depois tinham os outros. Falavam do Douglas Coupland — Primeiro, o Amor; Depois, o Desencanto (e o resto de nossas vidas) foi um que me jogou pra baixo com força —, falavam do Takeda, citavam a importância do JD, e tinham uns outros que não lembro mais. Mas o que não tenho dúvida é que o número dois na parada era o Haruki Murakami.
Topei com uns livros na época, umas capas bonitas, lombadas grandes, livros caros. Por alguma razão, provavelmente a última citada, fui deixando o cara passar. Nunca comprei nada, nunca peguei emprestado. E olha que mantive nos carrinhos virtuais, por um bom tempo, pelo menos “Norwegian Wood”, “Minha Querida Sputnik” e aquele sobre correr que estava em alta dia desses porque o Harry Styles falou a respeito.
Uma vez durante um show uma menina pulou no meu pescoço e eu acabei na casa dela depois disso. Era um apartamento legal, bem enxuto, e ela tinha uns pôsteres legais, uns CDs legais e vários livros do Murakami na prateleira da sala, achei o máximo. No fim, a menina nem era tão legal assim, mas o gato dela era. Ele pegava coisas e largava no meu pé pra que eu jogasse longe, ele pegasse e trouxesse de volta, como se fosse um cachorro. E eu nem gosto tanto assim de gatos, mas gosto de cachorros, o que dava uns pontos extras pra um gato que se comportava como cão.
Daí que lá se foram mais uns dez anos e há um tempo eu comecei um blog/coluna sobre literatura-mas-não-só, e venho lendo e escrevendo num bom ritmo, lembrando de coisas que já pareciam bem desbotadas — e dando uma colorida na marra quando essas coisas já estão apagadas demais. Comecei a publicar, contei pra algumas pessoas e dia desses um assessor da Darkside Books pediu meu endereço pra me mandar uns livros.
Meus primeiros recebidinhos — estou a um passo da Virgínia.
Abri a caixa e as capas são lindas, trabalho fino, padrão da editora em questão: um da Virginia Feito, e também o “Réquiem Para Um Sonho”, além de dois do Murakami.
Não do Haruki, o Murakami que eu conheço, só nunca li. Mas do Ryu, que eu não só nunca li como também não conhecia.
E aí comecei a ler Murakami. Não aquele, mas esse outro.
Entre as opções, eu vejo que “Audição” tem filme, mas acabo ouvindo sobre parte da sinopse, então pego o segundo, “Azul Quase Transparente”, porque dele eu já não sei absolutamente nada e já que vou ler um Murakami que nem sabia existir, acho que temos aí uma boa forma de começar. Acho que a última vez que li tanto nome de drogas em sequência foi com Hunter Thompson, papo de 20 anos. Nunca li “Trainspotting”, mas a julgar pelos filmes, é mais ou menos como eu imagino que seja.
Ryu abre de forma muito visual, situando você enquanto leitor dentro da casa, detalhando a cozinha, os aspectos caóticos como baratas mortas e alimentos apodrecidos, até que você esteja minimamente ambientado e enojado. Daí aos amigos junkies conversando sobre fazer uma festa, todo mundo chapado agora, todo mundo querendo chapar depois. Sexo, álcool, heróina e o “Sticky Fingers” recém lançado, aguardando sua chance na vitrola.
Toda essa ambientação é quase capaz de te levar para dentro das páginas. Ele faz isso tudo muito bem quando não está descrevendo grandes festas de sexo grupal, mas o ponto é que ele passa boa parte dessas páginas descrevendo as grandes festas de sexo grupal, parando só pra falar de agulhas sendo ou não desinfetadas, de colheres sendo levadas ao fogo, de injeções sendo aplicadas enquanto o haxixe queima no incensário e chapa todos os presentes da sala que, por alguma distração, ainda não estavam chapados. Sujeira, overdose, violência, gente entrando e saindo dos cômodos e corpos, sem a pressão do escândalo, mas sim do esgotamento.
Se o Murakami mais famoso é melancolia, jazz e gatos, o primo do submundo é violência, punk e baratas esmagadas. E tudo bem, punk é legal de vez em quando. Eu gosto de Clash. Mas Ryu, esse Murakami, é Sex Pistols. É Sid Vicious cuspindo no palco. Niilismo e autodestruição, sem glamour, sem catarse, mas com barulho o suficiente pra impedir que qualquer silêncio ocupe o espaço por muito tempo.
No future, there’s no future / No future for you.
Isso aqui:
“O ar úmido acaricia meu rosto. As folhas do choupo farfalham e a chuva cai, gentil. Sinto o cheiro de quando o concreto e a grama ficam molhados e esfriam.
As gotas de chuva que são destacadas pelos faróis dos carros parecem agulhas prateadas.
(…) A chuva bate em lugares diferentes, emitindo sons diversos. A chuva que cai sobre a grama, os seixos e a terra, como se estivesse sendo absorvida, faz um som que lembra o de um instrumento musical pequeno. Esse som que parece o de um piano de brinquedo que cabe na palma da mão se sobrepõe ao zumbido nos ouvidos causados pelos resquícios da brisa da heróina.”
Quando você lê isso aqui, você sabe que não é pouco. Tem algo. Algo urbano, caótico, sujo, talvez não tão querido ou pelo menos não tão conhecido quanto o autor que ouve jazz, corre e gosta de gatos — e só posso dizer talvez porque sequer tenho o repertório pra atestar a afirmação. E é por isso que eu sei que darei atenção ao Audição em breve, só não sei o quão em breve.
Preciso pelo menos de um tempo pra curar a ressaca das drogas que não uso e limpar a garganta do gosto dos cigarros que não fumo, mas que impregnaram a sala de casa enquanto eu lia esse primeiro Murakami, o outro Murakami, o Murakami errado.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
