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“Frequência Lunar”: o melhor disco de rap nacional do ano?

 

 

 

Budah – Frequência Lunar
39′, 14 faixas
(Universal)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Quem é de fora do eixo Rio-São Paulo sabe como ainda é difícil ser ouvido. Mesmo que a internet e o streaming tenham melhorado esse fluxo com o tempo, furar o bloqueio das grandes capitais ainda exige uma paciência e precisão em cada lançamento. Para uma artista que surge em Vitória, no Espírito Santo, o desafio é em dobro. Estamos falando de uma mulher preta se impondo no Rap e no R&B, um ecossistema que, apesar de todas as transformações, ainda é predominantemente masculino, engessado e muitas vezes relutante em dar o protagonismo a quem está na linha de frente da caneta. Brenda Rangel, mais conhecida como Budah, passou anos moldando seu som nesse cenário litorâneo. A explosão veio com a elogiada estreia em disco com “Púrpura (2024), o álbum que confirmou seu talento e carimbou seu passaporte, furou todas as bolhas possíveis, levou seu som para palcos na Europa e gerou até uma parceria com Wyclef Jean. Quando ela chegou para participar de “Mano Erasmo”, o tributo idealizado por Pupillo que reprocessou a obra de Erasmo Carlos, já não era uma promessa. No meio de graúdos do rap, Budah roubou a cena ao mandar um rap cortante sobre a angulosa “Cachaça Mecânica”, mostrando que tinha cacife para mais e isso se comprova lindamente em “Frequência Lunar”.

 

Ainda que Budah seja uma artista com total identificação com o universo rap-R&B, o que ela faz nas 14 faixas do disco é propor diferentes maneiras de aproximar essa estética com o que há de mais moderno e atual no pop. Este termo que já teve diversas traduções sonoras hoje, pelo menos no universo do mainstream, deve muito às bases do rap e do hip-hop. Se surgir uma artista brasileira capaz de fazer essa aproximação com uma visão próxima do que temos por aqui, será pioneira e poderá atingir o alto do pódio. Budah se coloca nessa disputa, colocando na poeira nomes duvidosos como Luisa Sonza e bacanas, como IZA, a milhas de distância. Essa vantagem se consolida porque “Frequência Lunar” soa como o manifesto de uma compositora que domina a própria pegada e não parece se importar muito com os planejamentos de marketing. Ao centralizar a direção artística e costurar participações de peso sob sua própria ótica, Budah mostra coragem e confiança em seu taco e isso faz o disco ser ainda mais legal.

 

A faixas do álbum foram pensadas como um fiapo de conceito, identificando-se com a ideia das fases da lua. Com isso temos uma pequena montanha russa de idas e vindas de amor, reconhecimento, enfrentamento, realização, tristeza e tudo mais. Tudo soa verdadeiro, para o bem e para o mal. Se em “C’est La Vie” há a afirmação do sucesso e do triunfo sobre as adversidades, com Budah falando que ralou bastante para chegar num hotel em Paris e gastar “cem mil num anel e ainda sobrar papel”, noo verso seguinte ela vem com o cortante verso “conquistei tudo lá em Vitória e vim pra São Paulo // Mudo o rumo da família e de quem tá do lado”. E arremata: “Eu quero essa casa, esse carro, essa bolsa, esse bloco, eu quero cachê desses caras, quero tudo, quero em dólar, quer o horário nobre desse palco que meu tempo vale ouro”. É como se dissesse: sei jogar seu jogo. Em “Salto 15”, com participação de IZA, tem mais constatação sobre a “autoestima nesse salto 15”, com a afirmação física de várias situações em que uma mulher se sente empoderada e forte, sem deixar de avisar: “só não atrasa minha energia”. Também tem essa postura em “Afropaty”, mas com um tom mais crítico “skin Afropaty, ursinho na chave”, mas falando dos corres e da vida cotidiana numa base sensacional que tem um leve toque de R&B noventista.

 

Falando em 90’s, a batida mais pesada e lenta de “Intuição” e a melodia de “Quem Você Escolhe?” acenam diretamente para aquela década, mas sem um traço de nostalgia. Em “Novo Voo”, que me lembrou … Djavan, ela tem a força para chutar longe a obrigação da mulher surgir sempre acompanhada, num relacionamento. Em benefício de independência e autonomia, ela vai desferindo porradas verbais em situações pregressas: “quem não entende minha liberdade // só me tem um pouco ou pela metade // tive que viver pra aprender que o melhor // é viver sozinha”. Forte e necessário. Com Duquesa, “VIP” é uma das faixas do ano e outra cacetada de autoafirmação sobre um relacionamento que acabou : “eu não vou viver esse futuro incerto // só pra ter você por perto” e setencia: “Sem meu VIP ninguém cê vai ver ninguém te conhece // Agora cê vai ter a moral que você merece”. A melodia é absolutamente sensacional e flui facilmente. E “Quebrei Sua Casa” tem um desfile de situações em que aquele sujeito parasitário e que vampiriza a mulher é escorraçado em diversos níveis, de pagamento do cartão a corte de “drogas desse relacionamento”, além de dizer “pode se afogar nesse limbo”, além do título: “Só liguei pra dizer que eu quebrei sua casa // as coisas que eu te dei já botei nas caixa”. Sensacional. E o foco muda em “Meu Crime É Existir”, em que ela relata uma perseguição sofrida num shopping pelo segurança que desconfiou de um preto bem vestido. Só quem passou por isso sabe como é.

 

“Frequência Lunar” é um álbum maduro, que recusa o consumo rápido e exige escuta atenta. Pode anotar aí: se tudo der certo, Budah é a próxima estrela da música pop nacional, se tudo der certo. E, caso isso aconteça, que ela não perca o gume de suas letras e o talento de sua música. Estamos na torcida.

 

Ouça primeiro: “C’est La Vie”, “Salto 15”, “Skin Afropaty”, “Intuição”, “Quem Você Escolhe?”, “Novo Voo”, “VIP”, “Meu Crime É Existir”, “Ponto Mais Alto”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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