Death Cab For Cutie e Modest Mouse lançam ótimos álbuns

Death Cab For Cutie – I Built You A Tower
38′, 11 faixas
(Anti)
(4,5 / 5)

Modest Mouse – An Eraser And A Maze
49′, 15 faixas
(Glacial Pace)
(4,5 / 5)
Se você abrir qualquer manual que tente resumir o início dos anos 2000, o roteiro vai parecer milimetricamente ensaiado. Vão te vender que o rock de guitarras foi salvo em Nova York e Detroit por garotos de calça justa, jaqueta de couro e riffs minimalistas tirados diretamente de fitas antigas do Velvet Underground. O binômio The Strokes e The White Stripes virou o fetiche oficial daquela geração. Mas enquanto as lentes das revistas de moda miravam o asfalto novaiorquino, longe dali, no chuvoso Noroeste Americano, o verdadeiro coração emocional e a arquitetura mais complexa do rock alternativo daquela virada de século estavam sendo moldados longe do falatório. Uma região fértil, úmida e isolada — que compreende o eixo entre Seattle, Bellingham e Portland — deu ao mundo duas das forças mais viscerais do circuito: o Death Cab for Cutie e o Modest Mouse. O lançamento simultâneo de seus novos álbuns, “I Built You A Tower” e “An Eraser and a Maze”, respectivamente, é uma declaração de sobrevivência e, sem dúvida, entrega os trabalhos mais consistentes, robustos e urgentes que ambas colocam na praça em muito tempo.
Para compreender a força desse momento, é preciso fazer justiça histórica ao rock alternativo americano daquela virada dos anos 1990 para os 2000. Havia muito mais acontecendo do que a crueza de garagem das bandas de capa de revista. O Noroeste dos Estados Unidos desenvolveu uma linguagem própria, que rejeitava o niilismo estético de Nova York em favor de uma urgência poética, matemática e barulhenta. O Death Cab trazia a melancolia introspectiva, as guitarras limpas e intrincadas, e as letras confessionais de Ben Gibbard. O Modest Mouse, liderado pelo genial e errático Isaac Brock, vinha com o reverso da moeda: guitarras angulares, quebras de ritmo que pareciam acidentes de carro ensaiados e vocais maníacos. Era um som estranho, mas muito franco e confessional. O que torna os novos discos tão fascinantes é que ambos os grupos entraram em processo divórcio com o conforto das grandes gravadoras. Após duas décadas em majors, as duas bandas voltaram ao circuito independente, e esse retorno ao chão de fábrica fez muito bem para o som.
Em “I Built You A Tower”, lançado pela Anti- Records, o Death Cab for Cutie reencontra a tensão nervosa que não exibia desde os tempos de “Plans” (2005). O álbum foi gravado em apenas três semanas sob a produção cortante de John Congleton. O processo veio logo após as exaustivas turnês comemorativas de vinte anos que Ben Gibbard fez, liderando na mesma noite o Death Cab e o The Postal Service em arenas lotadas. O desgaste profissional somado ao colapso de sua vida pessoal no pano de fundo moldou o conceito do disco. A “torre” do título surgiu como uma metáfora de isolamento para proteger o músico do próprio luto. Em vez de se entregar ao conforto acústico, a banda responde com eletricidade. A segunda faixa, “Punching The Flowers”, é um pós-punk tenso e ansioso, que treme com sua própria vibração nervosa. Músicas como “Stone Over Water” resgatam a vulnerabilidade crua dos primeiros trabalhos do grupo, enquanto composições delicadas como “The Flavor Of Metal” provam que a escrita de Gibbard continua cirúrgica para retratar o desconforto emocional. O disco ainda traz as faixas-título “I Built You A Tower (a)” e “I Built You A Tower (b)”, onde o remorso dá lugar a um grunhido de cansaço emocional. É o DCFC recuperando a confiança de que o espaço entre as notas e o peso de uma distorção analógica valem mais do que o polimento de estúdio.

Do outro lado da estrada, “An Eraser and a Maze” marca o primeiro álbum do Modest Mouse em cinco anos, lançado pelo próprio selo de Isaac Brock, o Glacial Pace. Este é o primeiro trabalho do grupo desde a trágica morte do baterista fundador Jeremiah Green, em 2022, e traz a estreia dos novos integrantes Simon O’Connor, Damon Cox e Keith Karman. Havia o risco de o grupo se perder no luto, mas Brock desligou os filtros e entregou um trabalho expressionista, cru e imprevisível, dividindo a produção com nomes pesados como Jacknife Lee e Justin Raisen. O disco resgata a estranheza fascinante de clássicos como “The Moon & Antarctica” (2000). A abertura com “Picking Dragon’s Pockets” traz o clássico balanço torto do Modest Mouse, com guitarras que parecem arranhar o vidro, seguida pela adorável esquisitice lo-fi de “Song About Nothing” e “Absolutely Necessary Never”. O trabalho equilibra momentos densos e hipnóticos que se provam mais caóticas do que pareciam, caso específico da sensacional “Third Side Of The Moon”. Como o próprio Isaac Brock refletiu ao final do processo, a idade trouxe o desapego de não precisar pensar demais, apenas deixando o som acontecer.
Ver o Death Cab for Cutie e o Modest Mouse lançando obras dessa magnitude após tanto tempo de estrada evidencia que o rock de guitarras daquela virada de século nunca dependeu de uma cena passageira ou de uma fórmula de pista de dança. Enquanto os “salvadores da pátria” de 2001 precisaram mudar de rumo ou não existe mais, essas duas forças da natureza do Noroeste americano provam que as guitarras — quando carregadas de honestidade, cicatrizes e poeira — continuam sendo a ferramenta mais definitiva para explicar as nossas próprias ruínas. São dois discos imensos, acessíveis e com muita força para entrar nas listas de melhores de 2026.
Ouça primeiro:
Death Cab for Cutie – I Built You A Tower: “Punching The Flowers”, “Stone Over Water”, “The Flavor Of Metal”
Modest Mouse – An Eraser and a Maze: “Picking Dragon’s Pockets”, “Third Side Of The Moon”, “Song About Nothing”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
