Entrevista – Fernanda Takai

 

Há cerca de um mês, logo após participar do Festival Lula Livre, a cantora e compositora Fernanda Takai virou assunto nas redes sociais por ter declarado não ter problemas em deletar bolsominions de seus perfis. A explicação: muitos de seus próprios fãs haviam declarado estarem decepcionados com a postura política da cantora. À época eu escrevi um texto em homenagem à Fernanda (leia aqui) e pensei que seria um bom momento para perguntar sobre o acontecido.

Entrevistei Fernanda há alguns anos e me surpreendi positivamente com suas falas. Nada melhor do que falar com ela de vez em quando.

 

Aqui está o nosso bate-papo.

 

 

– Você se considera uma artista politizada?

Acredito que sim. Eu me mantive discreta durante muitos anos porque o Pato Fu não tem uma mesma opinião política entre os integrantes, mas desde que tenho minha carreira solo, resolvi me posicionar mais.

 

 

– Como foi participar do Festival Lula Livre? Como veio o convite, como foi o show?

O festival vinha tentando várias outras datas e sempre eu estava com espetáculo marcado, mas dessa vez deu certo! Sempre que acontece algo coletivo assim, a gente torce para que haja um encontro entre as agendas de tanta gente, né? Fiquei muito impressionada com a quantidade de voluntários que mobilizou e pelo público presente, mesmo sob chuva.

 

 

– Você já tinha visto alguma reação ideológica à sua carreira – ou ao Pato Fu – como esta dos fãs se manifestando em suas redes sociais?

Na época do impeachment da presidenta Dilma, estive com ela em Brasília. Muita gente esperneou nas redes, mas nas ruas, toda vez que alguém vinha falar comigo sobre esse encontro, diziam “eu queria estar lá abrançando Dilma, como você fez.”

 

 

– Em tempos atuais, muita gente fala da micropolítica, mais ou menos, o conjunto de atitudes que podemos ter no plano individual, que fazem diferença mais à frente. Você acredita nisso? Tem alguma atitude neste sentido?

Acredito demais nisso, é um aprendizado. Exercitar nossa cidadania no cotidiano, localmente, é cuidar do nosso futuro. Aguar nosso jardim e dialogar com diferenças que precisam coexistir.

 

 

– Quando nós publicamos o texto “Um Beijo Pra Fernanda Takai”, vimos muitas reações de pessoas que se assumiram “de direita” dizendo que não importava a sua posição política, que continuariam te admirando. Nós sabemos que nem todas as pessoas que têm afinidade com pautas conservadoras são, necessariamente, raivosas e mal educadas. Como você vê o surgimento dessas pessoas extremadas nos últimos tempos no país?

Uma constatação dolorosa porque também vi gente muito próxima a mim: amigos, parentes, colegas… é tão difícil acreditar que há pessoas que realmente não se importam com o outro, não querem inclusão, nem multiplicar o bem-estar. Uma desumanidade.

 

 

– Passando para a música, você ainda está fazendo shows com o repertório do Tom da Takai ou já está se preparando para um novo disco solo?

Eu costumo ficar pelo menos uns 3 anos na estrada com um disco, e como o Pato Fu também está na ativa, temos espetáculos diferentes sempre. Além das incursões especiais que acabo fazendo aqui e ali, na música e na literatura.

 

 

– Como é estar em contato com um repertório que tem canções do Tom Jobim, dos tempos em que o Brasil parecia tão promissor e sintonizado com o futuro e vê-lo hoje, indo em direção tão oposta?

Nossa… dá uma saudade daquele bom gosto e modernidade. Mas acho que as artes pontuaram isso bem e são referência até hoje para nós e para o mundo. É muito bacana cantar um repertório com tanta qualidade lírica, melódica e harmônica. O que tentamos é atualizar a estética, trazendo para a minha especialidade que é a música pop.

 

 

– Os discos “Música de Brinquedo” com o Pato Fu são absolutamente sensacionais. Como vocês escolhem o repertório deles e como é o contato com o público infantil?

A gente faz listas de músicas muito conhecidas e com arranjos emblemáticos. Não podem ter letras muito complicadas para a intervenção das crianças no estúdio. Não sei quem gosta mais do projeto, se os adultos ou os pequenos. A plateia é uma alegria só! Ao vivo, com a participação do Giramundo, ganhamos uma outra dimensão, acessamos a linguagem dos bonecos que tem um alcance incrível.

 

 

– Há cerca de cinco anos eu te entrevistei e, entre as perguntas, você se dizia preocupada com a popularização de uma música popularesca empobrecida, muito pautada pela grande mídia. Alguma coisa mudou desde então?

Acho que isso é tendência desses tempos de pressa, de volatilidade de talentos, de obsolescência. E esse descuido com o conteúdo infelizmente está em toda a parte. Da alimentação às artes.

 

 

– Qual o conselho que você poderia dar para que as pessoas pudessem se informar sobre música, conhecer artistas, ouvir novas canções?

Eu gosto muito do app Rádio Vozes. A Patrícia Palumbo tem reunido pessoas bem legais que falam sobre música, mas também educação, meio ambiente, viagens. Tudo está interligado. Ir a festivais alternativos também é bacana pois sempre tem uma programação variada, palcos diferentes, rodas de conversas. No mundo atual a gente tem que saber procurar, se ficarmos só clicando nas mais lidas, mais ouvidas etc, estaremos muito limitados.

 

 

– Quem você está ouvindo atualmente?

Conheci umas cantoras ótimas no último SXSW: Nicole Atkins e Leyla McCalla.

 

 

– Vamos conseguir sair desta? Você é otimista em relação ao futuro?

Usando mais do que nunca minha camiseta do Ronaldo Fraga: otimista só de raiva. É um ciclo muito ruim, gente completamente despreparada e retrógrada, mas vamos resistir!

 

Foto: Beto Staino

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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