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Novos e belos álbuns de folk rock ensolarado

 

 

 

Great Lake Swimmers – Caught Light

40′, 10 faixas

(Harbour Songs)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

The Autumn Defense – Here And Nowhere

49′, 11 faixas

(Yep Roc)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Como estamos bastante defasados em relação ao ritmo frenético de lançamentos fonográficos neste ano de 2025, estamos fazendo algumas resenhas duplas para agrupar discos que são muito legais e não podem passar batidos. Aqui, por exemplo, vamos falar dos novos e belíssimos trabalhos de Great Lake Swimmers e The Autumn Defense, que orbitam o sol tépido e gentil do folk rock setentista americano e teimam em encarar o tempo como algo que melhora as coisas e as pessoas. O Great Lake Swimmers, discreta e sensacional banda folk-rock conduzida pelo guitarrista, vocalista e cérebro, Tony Dekker, chega a 2025 com a celebração de mais de duas décadas de uma discografia que nunca renegou a beleza da precisão. Longe dos holofotes, o grupo canadense sempre trilhou um caminho de indie-folk de límpida e calorosa execução. Com “Caught Light”, seu nono álbum de estúdio, a banda não apenas adiciona um novo capítulo, mas atinge um pico criativo, trazendo talvez o trabalho mais direto e coeso em anos.  A sensação é que Dekker trocou qualquer vestígio de hesitação por uma bem-vinda espontaneidade. O disco, surpreendentemente, foi capturado em apenas três dias no estúdio Ganaraska Forest, em Ontário, sob a batuta de Darcy Yates (ex-baixista do Swimmers e parceiro do Bahamas). Essa agilidade de gravação evoca a alma mais pop e reflexiva do folk dos anos 1970 – imagine o calor harmônico de Crosby, Stills And Nash em diálogo com a introspecção de Gordon Lightfoot – mas com uma energia absolutamente contemporânea. O propósito de “capturar a luz” (a essência da vida em momentos inesperados) foi plenamente alcançado.

 

A abertura com “One More Dance Around the Sun” e “Wrong, Wrong, Wrong” é de tirar o fôlego, não à toa, os primeiros singles lançados. A primeira é o perfeito “hino de estrada” para o entardecer, uma celebração agridoce da familiaridade e do prazer simples no ciclo das coisas. É a melancolia doce que se aninha na memória e que, diria eu, a gente gosta de sentir. Logo em seguida, “Wrong, Wrong, Wrong” exibe a sutileza típica de Dekker: transformar fragilidades emocionais em um pop country direto e reto, sem abrir mão da beleza e das manhas de melodias e arranjos clássicos. Os vocais cristalinos e o pedal steel estelar de Jimmy Bowskill (também engenheiro de som do álbum) injetam uma dose terapêutica de empatia na faixa. A reflexão sobre o tempo e a busca incessante por conexão costuram o trabalho. A envolvente “Youth Not Wasted” é diálogo terno com o passado, uma carta ao eu mais jovem que reconhece o valor do vivido, fugindo do clichê da juventude desperdiçada. É uma das canções mais afáveis e melódicas do disco e uma das mais verdadeiras também. Já a atmosférica “For You To Come Around” mergulha na solidão e no anseio, embalada por uma sonoridade mais intimista, uma marca registrada de Tony Dekker, o “fotógrafo da vida selvagem” que capta a natureza humana. A faixa-título, “Caught Light”, é o epicentro emocional e sonoro. Com guitarras à la George Harrison, ela sintetiza a ideia de um evento inesperado que nos desvia do curso, um súbito momento de clareza – ou de necessidade inesperada. É um número que equilibra a vivacidade do arranjo com a habitual poesia melancólica da banda.

 

 

Já o sensacional The Autumn Defense retorna ao disco após onze anos. Formado por Pat Sansone e John Stirratt — a dupla de multi-instrumentistas que passa a maior parte do tempo na espinha dorsal do Wilco — o grupo lança o belo “Here and Nowhere”, seu sexto trabalho. O nome, por si só, já é um manifesto de melancolia e reflexão: estamos aqui, presentes, mas todos os sons que nos envolvem remetem a um lugar quase esquecido, a uma era de ouro do rock de câmara e do pop setentista da Costa Oeste americana. Desde o primeiro acorde, o álbum estabelece seu território. Longe do experimentalismo que muitas vezes caracteriza o som do Wilco, o The Autumn Defense sempre soou como um descanso desse compromisso vanguardista e pendeu para o lado de bandas como The Byrds e Beach Boys pós-“Pet Sounds”, além de Eagles e Poco. “Here and Nowhere” pega esse DNA e o aprimora, soando familiar e audacioso ao mesmo tempo. O single de abertura, “The Ones”, é certeiro. Com seus mais de seis minutos, a coisa vai acontecendo a partir de uma base rítmica despretensiosa, na qual vão entrando, gradualmente, pianos, guitarras de 12 cordas em dedilhado clássico e as marcantes harmonias vocais de Sansone e Stirratt. É um pop quase etéreo, com uma veia de psicodelia sutil que teima em fazer canções que atravessem o tempo.

 

A produção (assinada pela própria dupla, com a ajuda de Mikael Jorgensen, outro “wilco”) é um show à parte. Cada instrumento tem seu espaço, é ouvido e notado em meio aos arranjos. Em “I’ll Take You Out Of Your Mind”, a fluidez de cordas e metais, mesmo discretos, eleva a melodia a algo digno de um arranjo de Van Dyke Parks. A canção é leve, mas complexa e cheia de surpresas, feita sob medida para fones de ouvido. O disco segue sem pressa, mas nunca arrastado. “Old Hearts” e “Hearts Arrive” são baladas de beleza cristalina, onde a dupla explora temas de passagem do tempo, memória e a inevitável mudança. As letras são introspectivas e poéticas, fugindo do óbvio. É um álbum que lida com a nostalgia não como um fardo, mas como um fator de criação. No meio do caminho, “Underneath The Rollers” injeta um toque de estranheza bem-vinda, com uma melodia sinuosa e uma base rítmica mais hipnótica, provando que o lado mais rock e, por vezes, um pouco mais sombrio da banda não foi completamente abandonado. Em contraste, “Love Lives” é uma explosão de pop ensolarado, quase um hino de uma década de 1970 que jamais existiu, equilibrando doçura e sofisticação.

 

Tanto “Caught Light” quanto “Here And Nowhere” devem passar ao largo das listas imediatistas de hoje, que privilegiam o pop eletrônico atual. Tudo bem. A gente teima em fazer nossa própria relação de álbuns dignos de nota alta e lembrança. Estes dois não reinventam a roda e querem. Não abrem mão de oferecer belas harmonias sonoras, vocais e punhados de canções que têm vida própria. São duas belezuras ao por do sol. Ouçam e constatem.

 

 

Ouça primeiro:

 

“Caught Light”: “One More Dance Around the Sun”, “Wrong, Wrong, Wrong”, “Caught Light”

 

 

“Here And Nowhere”: “The Ones”, “Love Lives”, “I’ll Take You Out Of Your Mind”

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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