Maria Bethânia e “Ãmbar”: 80, 50 e 30 anos

Ao completar 50 anos em 1996, Maria Bethânia viveu um ponto de virada estratégico. O desafio não era apenas manter o sucesso popular que o projeto “As Canções que Você Fez Pra Mim” (1993) lhe garantiu — ao mergulhar no cancioneiro de Roberto e Erasmo, ela havia atingido uma comunhão absoluta com o desejo das massas —, mas reconciliar a diva de espetáculos monumentais com a curadora atenta ao tempo presente. É nesse cenário que “Âmbar” surge, não como uma tentativa de repetir o êxito anterior, mas como um gesto de independência. Ao retornar à EMI após 26 anos, ela não quis o conforto das regravações óbvias; preferiu expor uma face que soava como uma nova autonomia artística, abrindo espaço para novos e novíssimos compositores que ainda eram marginais no seu radar habitual.
O projeto, produzido por Guto Graça Mello, tem a cara de uma superprodução global, com gravações em sete estúdios internacionais e mixagens que saltaram de Londres ao Rio. Esse rigor técnico não foi luxo, mas o suporte necessário para um repertório que abraçou a geração que, na época, redesenhava a música nacional. Bethânia integrou nomes como Adriana Calcanhotto, com seu lirismo próprio; Chico César, trazendo a força de sua identidade paraibana; e a dupla Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, que injetavam uma vitalidade rítmica urgente. Longe de ser um amontoado de novidades, o álbum funcionou como uma costura fina entre o que ela já representava e essa modernidade que fervilhava nas paradas e tabelas de vendas daquele meio de década.
O disco também buscou a tradição como contraponto, com a inclusão da atemporal “Chão de Estrelas”, clássico de 1937 de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa. A escolha dessa faixa, vestida com arranjos de cordas do maestro Harvey Cohen, revelou que Bethânia via “Âmbar” como um ateliê: um espaço para acolher tanto o frescor quanto o registro histórico. Essa habilidade de habitar dois tempos distintos resultou em um equilíbrio que a crítica musical de 1996, na pressa de classificar o que não entendia, acabou por ignorar. O álbum foi relegado a uma prateleira de “segunda ou terceira classe”, um rótulo que diz muito mais sobre a miopia de quem escrevia sobre música na época do que sobre o conteúdo do disco.
A faixa “Uns Versos”, de Adriana Calcanhotto — que também assina a faixa-título —, é, sem exagero, um dos pontos mais altos da década de 1990. Interpretada com uma economia que se distancia do drama épico de trabalhos anteriores, a canção exemplifica a busca por uma estética urbana, precisa e contida. É a prova — desnecessária para quem a acompanha — de uma intérprete que, aos 50 anos, sabia que a força de uma música reside na sutileza da dicção e na inteligência harmônica. Complementando o registro, o espetáculo dirigido por Fauzi Arap e estreado no Palace, em São Paulo, resgatou o formato de recital poético-teatral que marcou a trajetória de Bethânia desde os anos 1970, costurando música com a densidade de Fernando Pessoa e seus heterônimos.
Hoje, aos 80 anos de Maria Bethânia, a importância de “Âmbar” salta aos olhos. Ele surge como o documento de uma artista que se recusou a enferrujar, preocupada em soar moderna sem precisar vestir uma fantasia. O álbum é o retrato de um momento em que ela escolheu manter o ouvido permanentemente colado no que havia de potente na criação brasileira. Bethânia permanece ativa no centro da cultura nacional não por acaso, mas por uma trajetória construída com os pés firmes na tradição que ela ajudou a forjar e a mente totalmente aberta ao novo. Trinta anos depois, “Âmbar” se mantém como um testemunho dessa vitalidade. É um registro importante, que merece ser reouvido, reavaliado e, finalmente, tirado da prateleira do “esquecimento” onde nunca deveria ter ficado.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
