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The Smiths morreu! Viva The Smiths!

 

 

Um dos grandes lançamentos de 1986 foi The Queen Is Dead. Penúltimo álbum no trajeto do quarteto britânico, teve também muito impacto no Brasil, então no auge do BRock. O que há para comentar 40 anos depois?

The Smiths se formou em 1982, após o mítico encontro entre Steven Morrissey e Johnny Marr em Manchester. Ambos vinham de famílias irlandesas com raízes na classe trabalhadora. Ambos tinham passado por escolas católicas que lhes tiraram a vontade de investir em um futuro universitário. Ambos eram fãs de cantoras dos anos 1960, mas também de algo tão distante delas quanto a New York Dolls e Patti Smith.

 

A química entre as letras de Morrissey e os acordes de Marr foi poderosíssima. As composições começaram a brotar rápido e, depois de algumas tentativas com outros músicos, a escalação da banda se fixou com Andy Rourke no baixo e Mike Joyce na bateria. Rourke era amigo de longa data de Marr e já haviam tocado juntos. Joyce tinha um breve currículo em bandas punk.

 

O ano de 1983 foi generoso com a banda. Assinaram um contrato de longa duração com a Rough Trade, a principal gravadora independente do pós-punk. Lançaram seus primeiros singles (“Hand in Glove” e “This Charming Man”), prenunciando o LP que viria no começo do ano seguinte. Firmaram a fama com boas performances no palco, frequentemente invadido por fãs que disputavam as flores trazidas pelo vocalista.

 

Em 1985 foi a vez de Meat Is Murder manter apreciáveis índices de público e crítica. A voracidade com que a banda produzia singles levou a Rough Trade a lançar, ainda em 1984, Hatful of Hollow, compilação que também reunia apresentações em programas de rádio. Mais do que os álbuns, essa coletânea evidenciava a ampla paleta de resultados das composições, indo desde a acústica “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want” até a pulsante “How Soon Is Now?”.

 

A carreira da The Smiths se construía com um enorme apreço pelo controle de sua obra. Morrissey assumia o projeto visual de álbuns e singles. A banda preferiu se autoempresariar, evitando festivais, turnês longas e videoclipes. Também preferiu se autoproduzir (leia-se Marr e Morrissey), alternando parcerias em diversos estúdios.

 

Para The Queen Is Dead, o quarteto trabalhou com Stephen Street como engenheiro de som. Em agosto de 1985, as gravações começaram em Manchester (Drone Studios) e prosseguiram em Londres e arredores (RAK e Jacob’s Studios). Algumas músicas vieram dos ensaios na temporada de shows no primeiro semestre. O álbum estava finalizado em dezembro, mas só foi lançado em junho de 1986. A Rough Trade foi à justiça para garantir seus direitos depois que a banda assinou um contrato com a EMI.

 

Nessas condições, o single com “The Boy with the Thorn on his Side” chegou com grande antecedência, em setembro de 1985 – a versão do álbum é levemente distinta. A letra “espeta” a indústria fonográfica, mas está aberta a outras interpretações. É um ótimo exemplo do que Morrissey e Marr conseguiam fazer com voz e guitarra entoando uma melodia simples e envolvente.

 

Há outras duas canções em The Queen Is Dead que aparecem na lista de melhores de qualquer fã. Destacada por outro single, “Bigmouth Strikes Again” tem um riff que presta tributo a Rolling Stones da fase “Jumping Jack Flash”. Rápida e ácida, ela desfila versos non sense e cheios de (auto)ironia alvejando a imprensa musical.

 

“There is a Light that Never Goes Out” talvez seja a mais sublime das músicas da The Smiths. Você já se imaginou em um carro, fugindo de casa com alguém ao seu lado, covarde demais para confessar um desejo, mas audaz o bastante para flertar com a morte? A introdução e o refrão servem-se de Rolling Stones (sua versão para “Hitchhike” de Marvin Gaye) e de Velvet Underground (“There She Goes Again”). O arranjo de cordas, executado em um teclado, sustenta a melodia.

 

A faixa título também merece destaque. Introduzida por uma antiga canção patriótica, mantém sua energia ao longo de mais de seis minutos. Joyce prova que sabia surrar os tambores. Sua agressividade sonora é perfeita para acompanhar a letra que fustiga a monarquia inglesa. A solidão como parceira de uma rainha que insiste em viver… No entanto, a capa de The Queen Is Dead não faz qualquer referência a esses temas, preferindo ostentar o frame de um filme dos anos 60 (e é preciso recorrer ao créditos para sabermos que se trata de Alain Delon).

 

“Cemetery Gates” tem uma levada folk. Morrissey está especialmente inspirado em seu registro vocal e também na letra em que explicita sua admiração por Oscar Wilde. Espécie de batalha com palavras sobre o quão original qualquer criação pretende ser, é também uma memória de seus passeios em um cemitério de Manchester.

 

“Frankly, Mr. Shankly” e “Vicar in a Tutu” compõem o lado mais retrô do repertório de The Queen Is Dead. São parecidas também em suas ironias. A primeira volta a tecer lamentos sobre a indústria da música, ao passo que a segunda delicia-se imaginando o sacerdote cristão em uma roupa de balé.

 

Há também duas vigorosas e intensas baladas, um gênero que já aparecera em faixas de Meat Is Murder. As letras dão razão a quem associa a escrita de Morrissey a uma celebração do “infelicismo”. “Never Had No One Ever” menciona o “sonho ruim” que durou “20 anos, 7 meses e 27 dias”. “I Know It’s Over” fabula uma conversa com uma mãe impiedosa: “O amor é natural e real / mas não para você, meu amor / não esta noite, meu amor”.

 

A morte aparece não poucas vezes nas letras de Morrissey. Talvez a escrita tenha sido uma forma de sublimar tendências suicidas, como as que ficam escancaradas em “Asleep”, uma das faixas que acompanham o single com “The Boy with the Thorn is his Side”.

 

De todo modo, havia sempre a ironia. É ela que domina a última música em The Queen Is Dead. Além de mostrar sua capacidade de citar Cleópatra (e vamos concordar que em inglês é ainda mais difícil), Morrissey confessa seu desconcerto com a anatomia feminina. A guitarra de Marr brilha ao lado do baixo de Rourke.

 

No início de 1986, um dos primeiros shows após a finalização do álbum ocorreu como parte do Red Wedge, uma iniciativa liderada por Billy Bragg em apoio ao Partido Trabalhista e, sobretudo, em protesto às políticas do governo de Margaret Thatcher. A Dama de Ferro estava no segundo dos seus três mandatos como primeira-ministra e líder do Partido Conservador. O saldo para operários e minorias era terrível. Note-se que o álbum da The Smiths começou a ser produzido com o nome de “Margaret on the Guillotine”…

 

Pouco depois, percalços de Rourke com drogas levaram à integração de Craig Gannon, que havia tocado com a Aztec Camera. A princípio, ele substituiria o baixista, mas, com a permanência de Rourke, Gannon assumiu uma segunda guitarra. Sua participação durou até outubro daquele ano. Por alguns meses, a The Smiths foi um quinteto.

 

Outro episódio memorável na divulgação de The Queen Is Dead foi um evento em Manchester para celebrar o aniversário de 10 anos do show da Sex Pistols na cidade. O concerto principal teve, entre outras atrações, The Fall, New Order e The Smiths. A programação contou com as estreias europeias de Pretty in Pink (que tinha uma música dos Silvas na trilha sonora) e Sid and Nancy (sobre o baixista dos Pistols).

 

Em cinemas britânicos, a exibição de Sid and Nancy era precedida por um curta do cineasta e ativista gay Derek Jarman em que figuravam três músicas: “The Queen is Dead”, “There Is a Light That Never Goes Out” e “Panic”, single lançado em julho de 1986. Longe de ser uma produção voltada para a MTV, o filme de Jarman dialogava, por meio de uma edição caleidoscópica, com temas e imagens que percorriam The Queen Is Dead.

 

Mas o ano de 1986 foi também o último em que o quarteto foi visto junto em um palco… O trabalho em estúdio ainda renderia mais um álbum, Strangeways, Here We Come (1987), lançado em meio a um fim amargo. Para entender como isso aconteceu, fica a sugestão da leitura da narrativa detalhada de Tony Fletcher, que indica as tensões que se acumularam ao longo do tempo.

 

É dele essa síntese sobre o álbum mais memorável da The Smiths: “Oferecia todos os estados de espírito musicais disponíveis, todos os tons de luz e todas as texturas. The Queen Is Dead era, em partes suficientes para torná-lo conceitual, um tributo extravagantemente espirituoso a um império que desmoronava”.

 

Ficava evidente a distância em relação aos primeiros hits, quando o rockabilly ainda era uma influência forte. As mais interessantes das 10 faixas do álbum de 1986 apresentavam uma sofisticação (paradoxalmente travestida de simplicidade) que é parte do cenário do rock internacional de meados dos anos 80. A geração seguinte se revoltaria contra essa sofisticação, mas isso é outra história.

 

Ouvidos brasileiros

 

Por aqui, para a maioria das pessoas, o contato com The Smiths ocorreu no final de 1985, por meio da divulgação, pela WEA, do single com “The Boy with the Thorn is his Side”. Se minha memória não me trai, antes mesmo disso, as rádios FMs incluíram “This Charming Man” em suas programações. 1986 acavalou os lançamentos de Hatful of Hollow (fevereiro), Meat Is Murder (junho) e The Queen Is Dead (agosto). O ano não terminara e as rádios já tocavam “Panic” e “Ask”. Uma overdose…

 

O tom geral da recepção da banda britânica era celebratório, tal qual a capa da revista Bizz de outubro de 1986 estampando o rosto de Morrissey. Ainda em fevereiro de 1985, em artigo no Jornal do Brasil, o crítico Luiz Antonio Mello fazia uma previsão, antecipando o lançamento dos álbuns de estreia de várias bandas brasileiras. “Esses grupos não vêm com letras doces ou metidas a engraçadinhas. Seguindo quase fielmente o formato do rock inglês de hoje, feito por grandes nomes como The Cure, Echo and the Bunnymen, The Alarm, The Smiths, The Cult, Killing Joke e muitos outros representantes do chamado rock fora de moda ou ‘caos-rock’, os novos grupos brasileiros estão a fim de colocar, nos palcos e nos discos, apenas realidade. Do tédio de Brasília à frieza industrial de São Paulo”.

 

Podemos incluir essa peça entre os questionamentos ao “rock de bermudas”, como se qualificava a música feita por artistas cariocas. Outro ponto é a diversidade das bandas citadas no texto de Mello. No que se refere a The Smiths, sua singularidade era notável, embora fossem pertinentes aproximações com um nome fora da lista, por ser dos EUA – a  R.E.M.. Ambos os quartetos apostaram em gravadoras independentes, evitavam firulas sonoras e tinham letristas formidáveis.

 

Quando Hatful of Hollow foi lançado no Brasil, Mello voltou a se pronunciar elogiosamente, cabendo a posição contrária a Hermano Vianna, em textos publicados no Jornal do Brasil em março de 1986. Um dos mentores do novo som da Paralamas do Sucesso, Vianna disparou: “Só que o ‘purismo’ dos Smiths parece ter consequências perniciosas: o esquecimento do pulso rítmico, negro, do rock em favor da acentuação da linearidade da melodia, um vício de que a música europeia (popular ou erudita, tanto faz) custa a se livrar”.

 

Podemos dizer que a música da The Smiths, em sua recepção no Brasil, serviu para dar fôlego ao culto do “rock inglês”, mas também para fornecer munição aos seus críticos. As declarações de Morrissey com reprovações ao reggae pareciam dar razão a Vianna. Mas também é defensável afirmarmos que a produção do quarteto britânico, por conta de seu ecletismo, inspirou trabalhos que eram multifacetados, a exemplo de Dois (1986), da Legião Urbana, e de A Revolta dos Dândis (1987), dos Engenheiros do Hawaii.

 

Vianna vai além, analisando as letras de Morrissey: “narcisismo equívoco” e “poética nostálgica”. O infelicismo, continua o crítico, “já teve seu charme”. Mas agora, certamente citando uma das baladas de Meat Is Murder, “Morrissey é assunto para piada. Uma piada melancólica. Sem graça”. Novamente o texto é certeiro ao prenunciar o conservadorismo dos posicionamentos de Moz, que se tornaram comuns no atual milênio.

 

Felizmente, temos alternativas, e espero que sejam elas que inspiram os jovens que hoje vestem camisetas com o nome da banda. Quando escuto The Queen Is Dead, prefiro lembrar do Morrissey anti-thatcherista, que se esmerava em (auto)ironias e em críticas a hipocrisias sociais, que usava os óculos e os aparelhos auditivos do sistema público de saúde, que levantava o debate sobre o consumo de carne, enfim, o homem inspirado pela literatura feminista cujas letras e estéticas confrontavam a norma heterossexual. Por conta desses elementos e das criações sonoras, a música da The Smiths merece ser inesquecível.

 

 

Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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