Olivia Rodrigo brilha intensamente em novo disco

Olivia Rodrigo – You Seem Pretty Sad For A Girl So In Love
51′, 13 faixas
(Geffen)
(4,5 / 5)
A ideia de que o amor traz tristeza não é de hoje; poetas e escritores sempre se debruçaram sobre esse paradoxo. Camões descrevia o amar como um “contentamento descontente”, uma dor que desatina sem doer, enquanto Fernando Pessoa, por meio de seus heterônimos, via o sofrimento como um destino inevitável para quem se entrega. Vinicius de Moraes, mesmo sendo o “poetinha” do amor, sabia que a coisa mais triste que existe é o amor quando acaba, e Cecília Meireles capturou como ninguém a melancolia de ver alguém que o sentimento deixou profundamente triste. Já Haruki Murakami sugere que a paixão é, no fundo, uma tentativa infrutífera de recuperar partes perdidas de nós mesmos, o que gera uma tristeza que parece não ter fim. É dentro desse turbilhão de reflexões que Olivia Rodrigo mergulha em “you seem pretty sad for a girl so in love”. O título, que soa como um diagnóstico irônico lançado por alguém de fora, serve como chave de leitura para sua trajetória: se antes sua música focava na explosão emocional da descoberta e no choque do primeiro término, neste terceiro disco, a cantora explora uma tristeza mais madura, tentando entender por que, mesmo quando a vida amorosa parece caminhar com estabilidade, aquele aperto inexplicável no peito insiste em permanecer.
Musicalmente, este álbum dá um passo lateral, evitando a repetição da fórmula que consagrou os antecessores. A produção, assinada novamente por Dan Nigro, deixa de lado o rock de estádio para investir em texturas mais densas e menos polidas. Em faixas como “Drop Dead” e “U + Me = <3”, a instrumentação abandona o ar de crueza radiofônica para abraçar timbres introspectivos e, por vezes, arranjos minimalistas que priorizam o peso do texto. O disco não busca o impacto imediato dos refrões catárticos, preferindo construir uma atmosfera de vulnerabilidade que se sustenta ao longo das quatorze faixas, testando a paciência de um ouvinte que talvez ainda esperasse por outro “good 4 u”. O álbum também introduz elementos eletrônicos discretos, com sintetizadores analógicos que remetem à sonoridade de trilhas independentes dos anos 80, reforçando a ideia de que o sofrimento amoroso, nesta fase da vida da artista, é algo mais contido e menos performático do que o desespero adolescente de outrora.
O momento de maior destaque técnico é a colaboração com Robert Smith, do The Cure, na faixa “what’s wrong with me”. Longe de ser apenas um movimento de marketing para atrair o público alternativo, a guitarra e a voz de Smith conferem à composição uma estética sombria e atmosférica que dialoga diretamente com o amadurecimento que Rodrigo tenta imprimir ao álbum. A voz da cantora, que aqui aparece mais contida e técnica, encontra na melancolia gótica de Smith um cenário compatível. A parceria faz sentido dentro da narrativa de alguém que tenta processar o peso de um relacionamento adulto, onde as sombras do passado e as incertezas do presente ocupam mais espaço do que o brilho do pop. É um encontro que valida a influência do rock alternativo na construção estética da artista, situando-a em uma linhagem que valoriza a angústia como matéria-prima legítima. Sem falar que, Smith também é homenageado em outra canção, o segundo single, “The Cure”, que tem uma estrutura curiosa e pouco convencional, com um ótimo resultado.
Na faixa “Public Eye”, ela se mostra particularmente ácida ao lidar com as expectativas impostas sobre mulheres jovens sob o olhar do público, questionando a exigência constante de felicidade, gratidão e silêncio. Não se trata apenas de uma queixa sobre a exposição da fama, mas de um exercício rigoroso de autoconsciência. Essa recusa em ceder à obrigação de vender uma imagem impecável confere ao disco uma credibilidade que falta a tantos lançamentos contemporâneos, tornando-o um documento, antes de tudo, sobre a dificuldade de manter a integridade pessoal diante do julgamento alheio. A composição mostra uma Olivia mais atenta à estrutura de poder da indústria, tratando o estrelato não como um pedestal, mas como uma gaiola que precisa ser constantemente questionada.
Uma olhada para o cenário pop atual mostra que Olivia Rodrigo e Billie Eilish seguem como os nomes mais singulares desta geração, só que por caminhos estéticos opostos. Enquanto Billie prefere o minimalismo desconcertante e uma introspecção quase sussurrada, que desestabiliza pelo vazio, Olivia abraça o confronto direto e a exposição detalhada dos conflitos internos, transformando o “eu” em um personagem complexo. Ambas compartilham, porém, uma resistência notável em se tornarem apenas produtos descartáveis de entretenimento. Olivia, especificamente neste trabalho, utiliza sua posição de destaque para desconstruir a imagem da “garota que deu certo”, admitindo abertamente que a estabilidade emocional raramente acompanha o sucesso financeiro ou a fama. É uma postura que a retira do lugar comum das estrelas pop, posicionando-a como uma cronista que entende que a autenticidade, hoje, é uma ferramenta de sobrevivência diante de uma indústria que exige perfeição constante.
No final das contas, “you seem pretty sad for a girl so in love” não dá a resposta final para o paradoxo do amor, mas demonstra que Olivia tem interesse em fazer as perguntas certas. Ela não está escrevendo apenas sobre o conflito do término, o que seria um clichê. O que parece interessar a moça aqui é a percepçã de que, mesmo em uma relação estável, o vazio pessoal não se preenche sozinho. É um álbum que, embora flerte com as estruturas do pop, exige uma escuta atenta, funcionando mais como um diário de reflexões do que como um conjunto de singles destinados às paradas de sucesso — e é justamente nessa recusa ao óbvio que ela se reafirma como uma das cronistas mais interessantes de sua geração.
Ouça primeiro: “what’s wrong with me”, “Public Eye”, “Drop Dead”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
