Galvão Bueno, Ator

 

Ontem, dia de Brasil x Argentina, ligamos a TV aqui em casa para ver o jogo. Eu e meu enteado-filho, Gabriel Estrella, tínhamos duas opções: a narração do SporTV, com Luiz Carlos Jr e Lédio Carmona e a Globo, com Galvão Bueno, Casagrande, Maestro Júnior e a equipe de repóteres de campo, com Tino Marcos e similares. Por um momento, pensamos: queremos realidade ou ficção? “Ah, vamos ver o Galvão que deve estar louco”, disse Gabriel. E então optamos. Vejam, é algo muito raro vermos qualquer coisa na Rede Globo, por várias razões, mas o motivo do texto não é debater sobre isso. A ideia aqui é refletir sobre o que se tornaram as narrações do Galvão Bueno, que já foi jornalista e excelente narrador, mas que hoje faz um misto de drama, ficção e, pena, comete erros impressionantes, sem falar que, num plano ainda mais sutil, coloca sua experiência e – por que não? – excelência a serviço de um propósito que passa longe do esporte.

 

Quem acompanha a cobertura esportiva da Globo, já sabe. O que importa menos é a fidelidade dos fatos, ou, melhor dizendo, a apresentação de várias perspectivas sobre os fatos mostrados. A emissora se notabilizou em assumir um ponto de vista em vários assuntos além do esporte e, neste âmbito, faz o mesmo. Em termos de CBF, significa um apoio irrestrito ao que demanda sua diretoria – que foi, em tempo recente, notabilizada pela corrupção e pelos escândalos. Se você quiser fidelidade aos fatos sobre este tema, precisará pesquisar em outras fontes. Galvão é o mais eficaz agente desta linha editorial e talvez seja o principal agente de sua divulgação no país. Para muitos brasileiros em muitos lugares do território pátrio, assim como o Jornal Nacional, Galvão Bueno só fala a verdade. O que ele disser, corresponderá à realidade. E ponto final.

 

Sabemos que não é assim, certo? Galvão é um profissional tarimbadíssimo. Lembro de vê-lo na Globo pela primeira vez, lá nos anos 1980, substituindo Luciano do Vale, tanto no futebol quanto na cobertura da Fórmula 1. Aos poucos ele foi torcendo escandalosamente por Ayrton Senna e isso foi permitido por seus superiores, o que tornou-se uma marca registrada das manhãs de domingo. Depois do trágico acidente com o piloto, Galvão torceu loucamente por Barrichelo, Cristian Fittipaldi, Felipe Massa e demais brasileiros com cada vez menos prestígio. Hoje, sem brasileiros correndo, Galvão deve achar tudo isso um saco e participa menos das transmissões. Com o futebol acontece o mesmo: ele torce abertamente pela seleção brasileira. Ora, é óbvio pensar que locutores, repórteres, editores, todos os envolvidos numa transmissão de eventos esportivos nos quais o Brasil esteja representado, estarão torcendo, mas, sinceramente, Galvão chegou a um ponto de abrir mão do jornalismo em favor de uma variação estranha e híbrida.

 

Isso não é novidade, certo? Quem acompanha as narrações esportivas e esbarra no monopólio da comunicação no país, tem poucas opções. Em eventos internacionais, cujos direitos de transmissão são exorbitantes, é impossível escapar da Globo e dos seus canais adjacentes, entre eles, o próprio SporTV e a cobertura pay-per-view. A linha editorial é a mesma, gerando, aos poucos, a solidificação de uma abordagem única, caracterizada pelo chapa-branquismo e tolerância com vários temas que mereciam maior investigação. Galvão, há muito tempo um milionário, tornou-se a referência máxima desta cobertura esportiva, uma espécie de totem, comandando tudo e todos.

 

É esta linha editoral que permite, no caso do jogo de ontem, entre outras coisas, ao longo da transmissão, anúncios de atrações globais de forma indiscriminada, veiculação da imagem do atual presidente do país e de Neymar, vibrando com a vitória brasileira. O tratamento que a emissora dispensa ao controverso jogador do PSG esbarra no constrangimento. Sua tolerância para com ele é infinita. Sua anuência com o técnico Tite também é irrestrita. Sua complacência para com a forma com que a CBF conduz o futebol profissional no país é também total. Essas escolhas sobre como falar e abordar os fatos, ao fim e ao cabo, se traduzem no histrionismo de Galvão ao torcer durante a transmissão.

 

É como se víssemos alguém nos dizendo constantemente que tudo está bem. Que é isso mesmo. Que temos que torcer também, acreditar, afinal de contas, somos brasileiros, não desistimos nunca, com muito orgulho, com muito amor, o gigante acordou e coisa e tal. Tudo isso está embutido no ato de narrar empreendido por Galvão. A certo momento do jogo de ontem, ele não mencionava o argentino Messi, referindo-se a ele como “o cara”. Em vários momentos, deu conselhos para os jogadores brasileiros “isso, toca pro fulano, gasta o tempo, joga pra direita” e, como tem acontecido há alguns anos, vem errando os nomes dos jogadores e demonstrando fragilidade em sua voz. O volante Casemiro, por exemplo, ontem foi chamado de Cícero, isso sem falar na sua forma peculiar de pronunciar os nomes dos estrangeiros, algo que ele faz com peculiar dedicação quando se trata de seleções e times hispânicos. Carrega nos acentos, é engraçado.

 

Aliás, este é o ponto. Galvão se tornou engraçado com o tempo. Traduzindo: é alguém para não se levar mais a sério. Já se sabe que sua narração será parcial, que ele lerá os nomes carregando no sotaque espanhol, que ele vai errar, que ele poderá mandar um “olha o que ele fez, olha o que ele fez!!!” em algum lance do jogo. Mas há uma diferença entre criar/utilizar bordões e torcer. O locutor Rômulo Mendonça, da ESPN Brasil, é um mestre da narração da atualidade. Seus bordões “aqui não, queridinha” e “com licença….pra matar”, entre outros, mostram que ele compreende o poder da transmissão esportiva como um veículo para demonstrar talento de forma individual, mas faz sem que isso comprometa o resultado jornalístico da coisa. Não por acaso, Rômulo disse ontem, no Bate-Bola Debate, que “Galvão faz algo próximo do drama, com a permissão de seus superiores, um privilégio do qual poucos – ou nenhum – profissionais desfrutam no país”. É uma declaração sóbria e equilibrada, convenhamos.

 

Ao fim do jogo, Brasil vencedor e classificado para a final da Copa América, viramos, Gabriel e eu, para a ESPN Brasil, para vermos, de fato, a análise jornalística da partida. Na mesa, Juca Kfouri, Leonardo Bertozzi, Arnaldo Ribeiro e Mauro César Pereira que, aí sim, falaram sobre o que realmente aconteceu no jogo. Sei bem que há espaço para tudo na TV, mas há tempos, há décadas, Galvão Bueno é um ator. E talvez o mais importante ator do país, para o bem e para o … não tão bem.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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