Afinal, “Backrooms” vale o hype?
Caminhar por um corredor de escritório e, ao dobrar uma esquina, encontrar apenas a repetição exata do espaço anterior — o mesmo carpete úmido, o mesmo zumbido estático das lâmpadas fluorescentes — é uma boa definição física para o desconforto. Não é o inferno tradicional, carregado de elementos sobrenaturais. É mais um “limiar” da realidade composto por cenários descartados e um imenso vazio físico e existencial. Como diz um amigo meu, “o grande nada”. “Backrooms” partiu de uma imagem compartilhada em um fórum obscuro online em 2019 para se tornar um fenômeno cinematográfico justamente por sintetizar essa ansiedade: a sensação de estar preso em um lugar que parece “errado”, sem uma função clara no mundo real.
O mérito inicial da produção de Kane Parsons está numa certa subversão técnica, que funciona como um cartão de visitas do qual não podemos desviar o olhar. Ao abandonar a polidez visual das produções industriais e adotar a estética de bodycam, o filme ganha uma crueza que agarra o espectador. O terror aqui está contido numa tortura sensorial liderada pelo design de som e pela geometria monótona dos ambientes. É uma economia de meios que, nos primeiros atos, estabelece um pacto de realidade visceral: a textura da imagem, o balanço da câmera e a imperfeição digital criam uma imersão difícil de ignorar. No entanto, essa mesma escolha, que atua como um trunfo no início, revela-se uma muleta criativa conforme o filme avança. O que começa como um ensaio atmosférico promissor perde o fôlego à medida que a narrativa tenta, sem sucesso, costurar uma mitologia lógica para um conceito que, por definição, deveria permanecer ilógico.

É aqui que a execução deixa a desejar, tornando-se o calcanhar de Aquiles da obra. À medida que o terço final se aproxima, o filme tenta explicar demais o que deveria ser apenas sentido, desfazendo a aura de mistério que sustentou o espectador até então. A tentativa de dar corpo a uma trama de proporções épicas acaba soando apressada e, em muitos momentos, mal articulada, chegando num clímax que enfraquece a força do conceito inicial, ao tentar “resolver” o labirinto. Enquanto o roteiro tropeça nessa ambição de ser algo maior do que um exercício de estilo, a performance de Renate Reinsve se destaca. Ela oferece uma camada de profundidade humana e vulnerabilidade que brilha intensamente, ofuscando a atuação de Chiwetel Ejiofor. O ator surge num tom mais burocrático e contido, com dificuldade de entender e perceber urgência psicológica que o cenário exigiria, enquanto Reinsve consegue transmitir o desespero e o peso de quem encara o vazio.
Historicamente, “Backrooms” ocupa um lugar específico na linhagem do found footage. Se “A Bruxa de Blair” (1999) fez hype incrível na época e pavimentou o terreno explorando a floresta como um desconhecido ancestral e indomável, o filme de Parsons leva esse medo para o ambiente digital contemporâneo. A transição é radical: deixamos de temer o que a natureza oculta na sombra para temer a infraestrutura que nós mesmos criamos. Escritórios, shoppings e hotéis, quando despidos de movimento, deixam de ser pontos de segurança e tornam-se entidades arquitetônicas devoradoras e sem sentido. Contudo, o filme sofre morre na praia ao tentar equilibrar essa proposta procurando destrincha-la demais. E falhando ao final justo por abraçar uma narrativa mais, digamos, convencional.
No fundo, a história se sustenta sobre uma reflexão melancólica: esses espaços representam futuros que foram abandonados, transformados em um presente estagnado que, rapidamente, se converte em um passado esquecido. É nesse ponto que o vazio deixa de ser apenas uma estética e vira uma condição existencial, mostrando o desânimo de quem percebe que a linha do tempo se rompeu. A sensação de perda de noção temporal e a percepção de que não avançamos mais em direção a lugar nenhum são, talvez, os verdadeiros monstros do labirinto. Ao transformar promessas de modernidade em corredores infinitos de desuso, o filme reflete sem dó a nossa própria paralisia cultural. É quando ele acerta mais.
Ao fim, o veredito recai sobre a categoria do “é bom, mas poderia ser bem melhor”. “Backrooms” é um exercício de estilo bacana que oferece uma experiência visualmente instigante, mas que falha justamente quando precisa se sustentar como obra cinematográfica completa e “coesa”. Ele possui o mérito de capturar o zeitgeist do horror contemporâneo e oferece momentos de tensão genuína, mas é prejudicado por um terço final que desmorona sob o peso de suas próprias explicações expositivas. Como entretenimento, nota sete. Mas é um filme que você termina de assistir respeitando o que ele propõe visualmente, mas questionando por que ele precisou dizer tanto quando o silêncio do corredor já bastava.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
