Will Santt vai muito além da Bossa Nova

Will Santt – Cores do Meu Coração
43′, 11 faixas
(Alma)
(4,5 / 5)
Se a Bossa Nova, em sua gênese, foi o reflexo artístico e acústico de uma classe média urbana e solar no Rio de Janeiro do final dos anos 1950, o movimento que hoje chamam de “Bossa Novíssima” parece funcionar em uma lógica menos ensolarada e mais introspectiva. O que vemos agora passa longe do que poderia ser uma tentativa de replicar o passado. Investe mais esforço e atenção na apropriação de uma linguagem técnica — o rigor do violão, a contenção rítmica — para narrar uma realidade geográfica e existencial completamente distinta. No centro desse fenômeno está Will Santt, que, com seu álbum “Cores do Meu Coração” (2026), não busca a nostalgia de vitrine, mas tenta entender onde a delicadeza cabe num mundo que insiste em ser ruidoso.
A biografia de Santt, nascido em Guaianases, periferia de São Paulo, é o filtro pelo qual ouvimos cada acorde desse disco. O autodidatismo, forjado em 2013 em frente à tela de um computador após ser “deslocado” da bateria de sua igreja, dá ao seu violão uma lógica personalíssima, quase torta. É o som de quem aprendeu a fazer as palavras caberem em melodias por tentativa e erro, trancado em um quarto, longe de qualquer ajuda acadêmica. Essa base, forjada na força do isolamento, foi testada depois em palcos europeus, o que confere ao álbum um desamparo que soa maduro: ele sabe que a música, antes de qualquer coisa, é uma forma de sobrevivência.
“Cores do Meu Coração”, gravado nos estúdios da Red Carpet Productions, em Maiorca, marca um salto nesse processo. Se seus registros ao vivo anteriores ressaltavam a crueza da performance como um gesto de sobrevivência, este trabalho de estúdio opta por uma sutileza calculada, um refinamento que serve de adubo para a melancolia. Em temas como “Anil Divinil” e “Baiana Preta”, o violão abandona o minimalismo rígido que muitos tentam copiar de João Gilberto em favor de um balanço que flerta com a MPB setentista. É uma escolha que demonstra segurança: Santt entende que o gênero só respira se puder dialogar com a ginga urbana, e não apenas com os ecos da calmaria.
O disco evita o tom de homenagem protocolar, se baseando em composições que funcionam como crônicas de um jovem que observa o tempo passar de uma janela periférica. Faixas como “Anoitecer Verão” e “Lugar Bom” sustentam essa cadência, mas há uma vitalidade ali, um contraste entre a praia que se imagina e o concreto que se pisa. O sucesso de Santt é garantir que essa sofisticação não se torne uma barreira. Ao optar por registrar essas composições na Europa, mas mantendo a alma e os sotaques profundamente ligados à tradição brasileira, ele apresenta um estranhamento positivo: a sensação de que a música, para ser universal, precisa ser, antes de tudo, um lugar onde a gente se reconheça.
Por fim, “Cores do Meu Coração” mostra que essa nova encarnação da Bossa é uma realidade humana. Ao trazer sua vivência para a precisão do violão artesanal, Will Santt dá uma confundida nas fundações do gênero. Ele nos lembra que, em 2026, o futuro está em saber se apropriar de tradições até que elas sirvam como entendimento de angústias e amores. O disco não oferece respostas, pelo contrário, ele aponta para a beleza das coisas mais simples como tentar quem a gente é no meio de tanta pressa sem sentido.
Ouça primeiro: “Anoitecer Verão”, “Anil Divinil”, “Baiana Preta”, “Dona do Mar”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
