“Sérgio, não vai dar para disfarçar: “Odelay” é o melhor disco do ano.”

BECK – Odelay – Geffen/MCA
Fax para Sérgio (SHOWBIZZ)
De: Zeca Camargo
Assunto: Deus
Sérgio, não vai dar para disfarçar: Odelay é o melhor disco do ano. Claro que eu não usei essa frase na resenha, como você pode conferir. Mas nothing compares to DIS! Listen: E um dia chegou Beck e acabou com tudo. Com essa bobajada de rock alternativo, com essa corja de bandinhas de nomes espertos, com essa chatice de guitarras que não querem dizer nada e com a inútil avalanche de vocais roucos e pseudônimos. Completamente moderno, Beck acabou com tudo isso com uma manobra tão simples, mas tão simples, que não dá para acreditar como tantos artistas se esqueceram disso: ser original. Odelay não se parece com nada que foi lançado nos últimos anos, nem mesmo com o anterior de Beck, Mellow Gold. Por isso mesmo, o disco tem uma importância tão grande na quebra de barreiras quanto Achtung Baby, do U2, ou 3 Feet High And Rising, do De La Soul. Seria difícil resistir à tentação de não evocar Sgt. Peppers, não fosse pelo fato de que Beck não ligasse para uma comparação desse nível. Então, dane-se. Vamos nos concentrar em algumas das tantas razões que tornam Odelay uma obra-prima. Que tal dez para começar?
1 – O refrão de “Devils Haircut”;
2 – O clima bossa-nova de “Readymade”, confirmado em seguida por alguns acord de “Desafinado”;
3 – O sambinha (com direito à cuíca) misturado com eletrofunk (início dos anos 80) de “High 5”;
4 – O potencial hipnótico de “Where Its At”;
5 – A levada fofa de “Jack-Ass”;
6 – O clima oriental de “Delerict”;
7 – A bizarra combinação de blues com soft dance e até com uma sanfona (será de baião?) e mais umas distorçõezinhas em “Hotwax”;
8 – A introdução de “Novocane”;
9 – A retrô new wave de “Minus”;
10 – “The New Polution” (inteirinha, sem especificações);
Como Já foi sugerido, essas são só as dez primeiras razões. Outras virão.

Quando Zeca Camargo enviou esse fax com a resenha de “Odelay”, álbum de Beck, para Sergio Martins, seu editor na Revista Showbizz em 1996, ele queria relatar um desabamento. Ler esse texto na época foi libertador e nos deixava afoitos para adquirir o álbum imediatamente. Hoje, trinta anos depois, a sensação é de folhear um documento arqueológico que descreve o momento exato em que o chão da música pop trepidou. Zeca, um dos grandes conhecedores de música pop da nossa combalida crítica musical, tinha razão em sua urgência: o que Beck Hansen trouxe com “Odelay” foi uma desintegração controlada de tudo o que a indústria chamava de “alternativo” na época. A resenha é tão bacana e importante que este texto busca fazer jus a ela e homenageá-la junto com seu objeto de análise. Não posso pensar em nada mais elogioso.
Existe uma angústia peculiar em dividir a cronologia de Beck. Nascemos para habitar um mundo que, ao fim, não se concretizou — um futuro que nos foi prometido como uma evolução tecnológica e social clara, mas que se desfez em incertezas e escolhas erradas. Esse descompasso entre a expectativa da infância e a realidade do que vivemos hoje gera uma necessidade visceral de buscar a modernidade em tudo, quase como se estivéssemos tentando, através da arte, materializar o mundo que nos foi negado. Valorizamos o novo como uma busca desesperada para preencher esse vazio. “Odelay” foi, para a nossa geração, o mapa desse lugar que nunca existiu: ele soava como um grande disco em 1996, mas também como um tipo de roteiro de sobrevivência para quem precisava inventar sua própria realidade.
É preciso entender que o álbum não habitava um vácuo. Em 1996, o conceito de “modernidade” era um campo de batalha. De um lado, a cena techno e a cultura dos clubes europeus desenhavam um futuro baseado na repetição sintética. Do outro, o rock vivia o efeito de sua última grande transformação, com as bandas de Seattle e o Britpop. Também estava no horizonte a promessa de sua nova grande reinvenção: o Radiohead, que no ano seguinte nos entregaria “OK Computer”, já trabalhava na construção de um monumento à ansiedade digital. Mas Beck… Beck era o elemento imprevisível. Enquanto o Radiohead usava a tecnologia para retratar o medo, Beck a usava para celebrar o caos. Ele não queria entender o futuro; ele queria saqueá-lo.
O risco de “Odelay” residia na sua desumanização proposital da canção. Beck desmembrou a estrutura do pop vigente. Enquanto a cena techno buscava a pureza estética pelos beats e pela dança e o Radiohead queria a grandiosidade de uma ópera de ficção científica distópica, Beck preferiu o a bagunça. Ele pegou o som das ruas de Nova York e o chocou contra o blues pantanoso, criando uma sonoridade que parecia ter sido montada em um quarto sujo, onde havia um laboratório de precisão científica. Na época, misturar uma cuíca com um sample de guitarra obscuro era um ato de rebeldia: era a recusa veemente em pertencer a qualquer tribo que a indústria tentasse ditar.
A modernidade que Beck propôs ali era o “fim da história”, ou melhor, era o fim daquela história do pop. Ele sugeriu que tudo o que já tinha sido gravado — do folk de Woody Guthrie aos discos de vinil de 78 rotações, do funk visceral de James Brown às distorções lo-fi — era apenas matéria-prima descartável, que podia e devia ser reprocessada. Ele era o anti-autor: antes dele, a música “séria” exigia uma aura de autenticidade; Beck, então o “cara de Loser”, era apenas um colecionador de sucatas que não pedia desculpas por ser um slacker.
A carreira que se seguiu foi um labirinto deliberado. Ele logo nos entregaria o belíssimo “Mutations”, da canção “Tropicalia”, mas que era mais um retorno ao folk elétrico, que serviu como uma pausa necessária no caos, antes de mergulhar na melancolia de “Sea Change” e na sofisticação funkeada de “Midnite Vultures”. Ele nunca mais foi tão explosivo quanto em 1996, porque ali ele tinha o trunfo da surpresa absoluta. Zeca, lá no fundo, sabia que aquele fax não era apenas sobre um álbum; era sobre a revelação de um idioma.
Trinta anos depois, “Odelay” continua soando como uma ameaça. Ele é um lembrete de que a música não precisa fazer sentido acadêmico para ser transformadora; ela precisa, antes de tudo, ser livre. Enquanto a crítica daquele ano tentava desesperadamente encontrar um rótulo para situá-lo no mapa, ele se divertia com a própria liberdade. O disco permanece como um testamento de que a modernidade fala muito mais que a tecnologia que você usa. Ela diz muito sobre a audácia de quebrar as fronteiras que todos juravam ser intransponíveis. E, francamente, pouca gente teve a coragem de ser tão moderno quanto ele foi naquele 1996. Foi, talvez, a última vez que um disco conseguiu prever o futuro sem precisar de um manual de instruções. E, fica a pergunta: para onde foi o futuro? E vem a resposta: está no passado. É estranho, mas é verdade.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
