Um Beijo Pra Fernanda Takai

 

As redes sociais estão fazendo burburinho sobre a reação de Fernanda Takai ao ataque empreendido por fãs do atual presidente da república. Explico: Takai participou do Festival Lula Livre, ocorrido em São Paulo, no domingo, dia 02 último. Junto com ela, vários outros cantores: Arnaldo Antunes, Emicida, Odair José, Criolo, só para mencionar alguns que lá estavam. Após tomar conhecimento que a vocalista do Pato Fu havia subido ao palco do Festival, fãs seus, simpatizantes do pessoal que está governando o país, foram em suas redes sociais deixar mensagens de despedida e, claro, como é do feitio destas pessoas, vários xingamentos e ofensas.

 

Takai declarou em seguida que agradecia a saída destas pessoas de seus perfis e acrescentou que bloquearia todos. Dito e feito. Há poucos dias, ela disparou que “é terapêutico bloquear bolsominions” e se deu ao trabalho de responder a todos – com muita elegância e bom humor – agradecendo pela partida e pela manifestação. Vejam, Fernanda é uma mulher forte, decidida, inteligente e extremamente educada. Falo porque tive a chance de entrevistá-la para o Monkeybuzz em 2014, por conta do lançamento de seu penúltimo disco solo, o ótimo “Na Medida do Impossível”. Naquela ocasião, fiz várias perguntas sobre o álbum, o processo de escolha do repertório, músicos participantes, este tipo de coisa. Mas tenho uma pauta recorrente, de uns anos pra cá. Seja qual for o artista, eu sempre pergunto qual a opinião dele sobre o atual estado de coisas, seja no Brasil, seja no mundo.

 

Fernanda respondeu estar preocupada com a situação do país, naquela época, às vésperas da reeleição de Dilma Rousseff e lidando com os protestos do ano anterior. Ela temia por algumas questões e lamentava a ditadura midiática na música nacional, que impunha ao público uma música empobrecida, desprovida de qualquer valor que não fosse o mercadológico. Falava muito em nome de sua filha, Nina, que é adolescente hoje e que cresceria num país com este tipo de mentalidade, entre o consumismo, o hedonismo e tudo mais que esteja no meio deles. Não me surpreendi. Fernanda sempre fora um exemplo de pessoa sensível e inteligente. Suas canções – e proposta – no Pato Fu dão conta disso, de gente bem humorada e inteligente, vivendo no planeta, encontrando soluções para enfrentar a sucessão de absurdos que o cotidiano vem nos propondo.

 

Lembro de ver o Pato Fu pela primeira vez nos idos da MTV. Início dos anos 1990, época de efervescência do rock nacional, com uma nova geração chegando. A canção era “O Processo de Criação Vai de 10 a 100 mil”, faixa do primeiro disco da banda, “Rotomusic de Liquidificapum”, que era uma espécie de hino informal entre nosso grupo de amigos na Uerj, especialmente pelo refrão antissistema, já naquela época, que dizia “a Unimed é que vai pagar, a Unimed é quem paga”. Dali pra frente vieram muitas outras canções queridas, de “Sobre o Tempo” a “Canção Pra Você Viver Mais”, da versão sensacional de “Twiggy Twiggy” a “Um Ponto Oito”, sem falar na iluminada ideia de fazer os dois volumes de “Música de Brinquedo”, álbuns sensacionais à sua maneira, reafirmando as marcas registradas de Fernanda e do Pato Fu: bom humor, criatividade, alternativas.

 

Seu último trabalho, “O Tom da Takai”, é um dos mais bonitos e bem acabados discos produzidos no país em 2018. Ela peneirou o repertório de Tom Jobim e interpretou estas canções mais obscuras da obra do maestro, assessorada por gente como Marcos Valle e Roberto Menescal, entre outros. Se você não ouviu, vá fazer isso. Agora.

 

Isso me faz refletir: como uma artista como Fernanda podia ter admiradores que concordam com o atual presidente? Como pessoas que pensam ser correta a discriminação de pobres, a preservação da desigualdade, a criminalização do aborto, a prevalência da religião sobre o Estado, a defesa constante do capital privado sobre o público e, acima de tudo, não se importar com um presidente que defende abertamente a tortura, a militarização, a truculência, a liberação da caça de animais silvestres, a tolerância com multas de trânsito, que chama estudantes da rede pública de ensino de “idiotas úteis”, entre outras declarações feitas nestes pouco mais de cinco meses? Imagino o alívio de Fernanda com a partida desta gente de suas redes. Sorte dela.

Fernanda Takai é um mulherão da porra. Este texto é um beijo respeitoso nela e uma oferta de apoio constante. É pouco, eu sei, mas é sincero.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Um Beijo Pra Fernanda Takai

  • 6 de junho de 2019 em 20:24
    Permalink

    Fernanda Takei….parabéns a essa mulher de personalidade….não importa a quem votamos ou não….isso é pessoal e cada um e cada um….vejamos se todos torcessem a um clube…o outro morria…isso é direito de ir e vir….gosto das músicas dela….agora o comentário dela ou o gosto dela é DELA…obrigado

    1+
    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *