E o “disco sofisticado” do Seu Jorge?

Seu Jorge – The Other Side
50′, 11 faixas
(Black Service/Amor In Sound)
(2,5 / 5)
Segundo a mídia hegemônica, este “The Other Side” é o “disco sofisticado” de Seu Jorge. Tal afirmação, posta do jeito que está, enseja duas interpretações: os outros álbuns lançados por ele em 25 anos de carreira, seriam “não-sofisticados” ou, na melhor das hipóteses, seriam “diferentes”. Na verdade, a figura de Seu Jorge dá ensejo a essa confusão. Ele pode ser a pessoa sofisticada, praticamente genial, dona de carisma e interpretações marcantes, como pode ser o cantor mais identificado com o povo, com a ideia de ser malandro, leve, de sorriso aberto diante de toda e qualquer adversidade. Os próprios lançamentos da carreira de Jorge mostram isso – ele é o porta-voz de um samba-rock leve e ensolarado – meio de proveta – em “Burguesinha” ou “Mina do Condomínio”, como também é o que dá um certo verniz a essa gênero, em “Carolina” ou “Tive Razão”. É o sujeito que soa “genial” por verter David Bowie para um português constrangedor e, mesmo assim, ser incensado por fãs do exótico no ultramar, incluindo aí o próprio Bowie. Certamente é o cara que, ao lado de Ana Carolina, gravou um sério concorrente a pior disco nacional de todos os tempos, “Ana e Jorge”, em 2005. Pode também ser aquele que iniciou a carreira no Farofa Carioca, modernizando uma música popular de inconsciente coletivo. E, veja você, ainda pode ser ator bissexto, aparecendo aqui e ali em filmes. Confesso que, de todos os Jorges possíveis, prefiro o do Farofa, que cantava “Bebel” ou “Moro no Brasil” no fim do século passado. Ou, vá lá, aquele que aparece em “Marighella”. O Jorge sofisticado, definitivamente, não me desce e este disco, por mais que seja bem produzido, tem problemas sérios.
Em primeiro lugar, as virtudes. Há duas faixas interessantes em “The Other Side”, as duas primeiras da lista. “Crença”, de Marcio Borges e Milton Nascimento, gravada por Bituca em 1967, em seu disco “Travessia”, é uma canção superlativa, com interpretação praticamente sagrada daquele Milton jovem e olhando para a estrada. Jorge não faz feio, tem boa voz e sabe cantar, se beneficiando do bom arranjo orquestral de Miguel Atwood-Ferguson, que confere a solenidade necessária. E “Vento de Maio”, de Lô e Telo Borges, é outra lindeza atemporal, que já ganhou interpretação definitiva logo na raiz, com o próprio Lô e a irmã dos dois, Solange, em 1979, no álbum “A Via Láctea”. Elis Regina também jogou o sarrafo nas alturas com sua leitura, de 1980, em “Elis”, lançado naquele ano. Sendo assim, fica complicado para Jorge e Maria Rita chegarem no mesmo nível dessas duas interpretações, mas eles não fazem feio, pelo contrário. Novamente é Miguel Atwood-Ferguson que dá ao todo um contorno bem bonito com suas cordas, mas, ao contrário de “Crença”, há um certo exagero mirabolante em busca dessa tal sofisticação que soa mais como uma nota de rodapé do que algo realmente diferente.
A produção de “The Other Side” ficou a cargo de Mario Caldato Jr, um cara versátil e capaz de lidar bem com vários artistas. Certamente ele consegue manter esse tom reverente ao longo das outras faixas, mas, seja por falta de contexto, seja por confusão no entendimento do que cada canção significa, a coisa resvala para um exercício de estilo. Tudo bem tocado, arranjos complexos, boas passagens sonoras, certamente “The Other Side” está a milhas de distância da pantanosa realidade dos discos feitos no Brasil por artistas “populares”, mas “sofisticação” não é tudo. Pelo menos não desse jeito. “Caboclo”, de Arthur Verocai e Vitor Martins, gravada no mítico álbum de 1972, que colocou Verocai no mapa de talentos esquecidos da MPB, ainda tem mais virtudes que deméritos, com Jorge já exagerando na interpretação e o arranjo ultrapassando a fronteira do bom gosto, mas ainda se salvando. Depois disso, dá pra dizer que o disco começa a derrapar. Jorge declarou em entrevistas que “estava entre João Gilberto e Frank Sinatra” ao longo das faixas de “The Other Side”, algo que, na pior das hipóteses, mostra uma terrível falta de noção. E talvez esse tom gilbertiano, que ele se atribui, esteja em “Luz Na Escuridão”, uma bossa nova inofensiva com scat singing e roupagem mais tradicional. Não.
“Flor de Laranjeira”, canção de Capinam e Cesar Mendes, que faz parte do repertório de … Emanuelle Araújo, é outra canção plácida, acústica, com letra delicada e essa aura bossa, mas que a interpretação de Jorge parece soar fora de contexto. “Far From The Sea”, com a congolesa Zap Mama, é outro momento em que o arranjo soa melhor que a interpretação, novamente por conta das cordas, mas, a esta altura do disco, já estamos cansados desse modelo, sem falar que a interpretação de Bebel Gilberto para a canção, feita em 2009, é bem melhor. Mesmo sendo um artista internacional, a pronúncia inglesa de Jorge é incômoda, algo que fica evidente aqui, em “Girl You Move” (canção do grupo Can And Able) e, sobretudo, na imperdoável leitura de “River Man”, de Nick Drake, gravada em dueto com Beck. O original, gravado por Drake aos 20 anos, orquestrado magistralmente por Joe Boyd, se transforma num semi-karaokê chique, com Jorge levando seu registro – já grave – para o tom mais cavernoso e baixo possível, estragando toda a sutileza-melancolia do original. “Quando Chego”, outro dueto, com Marisa Monte, é samba asséptico e pasteurizado, enquanto “Beleza, Bárbara”, canção de Pedro Dom, é obscura até a gente achar uma interpretação melhor, de um certo Fabiano Bianco, gravada em 2024.
“The Other Side” é “sofisticado” até a página 2. É disco com bom gosto e complexidade de arranjos, mas que se beneficia de uma escassez tremenda pela qual passa a produção nacional. Tem um certo truque, uma certa malícia, um oportunismo. Tudo isso soa desconfortável nessa empreitada.
Ouça primeiro: “Crença”, “Vento de Maio”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
