Pequena Crônica Sobre Discos de Vinil
Eu não gosto de discos de vinil. Na minha escala pessoal de valores no campo da audição particular de música, ele só fica à frente da fita cassete. Prefiro ouvir as músicas em streaming, num perfil pago, com boa qualidade de som, que me permita acessar os conteúdos sem comerciais ou qualquer outra perturbação. Acho prático, acessível e portátil, situações importantes para meu cotidiano. Em termos profissionais, é absolutamente imprescindível ter um acesso desses, do contrário, perde-se a quase totalidade de lançamentos do mercado nacional e internacional. Antes do advento dessas plataformas, eu preferia o CD. Ao longo dos anos, montei uma coleção com mais de 5 mil títulos, com um monte de álbuns importantes para mim. Entendo que, quando a gente materializa a experiência de ouvir e ter uma obra de arte, no caso específico, musical, acrescentamos a ela camadas que envolvem experiências pessoais e memória afetiva, daí elas se tornam um pedaço da nossa vida, algo que o streaming, com suas características, não pode conceder.
Também teve o tempo dos mp3, quando a gente baixava de sites como o Kazaa ou o Soulseek, este, até hoje uma espécie de backup “físico” de arquivos digitais. Quando comecei a ouvir música mais seriamente, as opções eram bem poucas – Rádio, TV, LP e fita cassete. Esta condição durou até meados da década de 1980, quando os CDs surgiram no mercado. Fui ter um CD Player na virada dos anos 1980/90, com os primeiros títulos sendo “Dois”, da Legião Urbana; “O Passo do Lui”, dos Paralamas do Sucesso e “Songs From The Big Chair”, do Tears For Fears, comprados na filial Figueiredo Magalhães das Lojas Americanas, antes mesmo de ter o player. Àquela altura eu já tinha algumas poucas centenas de LP’s e fitas cassete, que eu mesmo gravava do rádio ou dos próprios discos.
À medida que o CD foi se popularizando, com os argumentos irrefutáveis de maior durabilidade e reprodução mais límpida, sem falar na questão do armazenamento mais prático, os LPs foram perdendo espaço e saindo de cena. O advento do CD também fez algo revolucionário na indústria musical – proporcionou o relançamento de vários títulos e sua remasterização para o novo formato, numa lógica que envolvia a inclusão de faixas extras, livretos informativos e edições especiais. Tal movimento popularizou a escuta de álbuns esquecidos e/ou fora de catálogo por longo tempo, meio que renovando a escuta de públicos que chegavam àquela época ao mercado. Ao mesmo tempo, o CD e a ascensão de selos independentes, especialmente a partir da segunda metade dos anos 1980, terminaria por democratizar a oferta de oportunidades para novos artistas. À medida que ficava mais fácil gravar e divulgar, mais bandas surgiam. Este processo de digitalização dos meios de audição e divulgação evoluiu para a Internet e os arquivos mp3, cuja troca recebeu impulso gigantesco a partir da virada do milênio, com a entrada no ar de sites como o Napster.
Esse momento causou a ruptura com o modelo de negócio vigente na indústria musical, que se ancorava na venda de discos em CD. Com a digitalização obrigando o surgimento de novas ideias, houve um movimento de mão dupla. Enquanto a compra de álbuns e de música passava por um processo de perda de “palpabilidade”, com o consumo de CDs caindo por conta dos arquivos mp3 gratuitos, comercializados informalmente, na mão oposta surgiu uma tendência que buscava “rematerializar” a música através do consumo de formatos que privilegiavam – supostamente – a qualidade sonora e a obra em si. Sob esta alegação, feita desde os tempos da chegada do CD, voltou então o LP de vinil, lá por 2006/2007, em meio a movimentos como o Record Store Day e iniciativas parecidas. E aqui começa a nossa reflexão sobre o tema.
“Como se ouve música hoje? A primeira forma, mais prática, rápida e portátil, é pelas plataformas de streaming. Nelas é possível acessar desde os clássicos de todos os tempos até a enxurrada de lançamentos que chegam a todo instante. Além delas, restam poucos espaços na mídia convencional — rádio e TV, em declínio contínuo — capazes de pautar o ouvinte mais superficial. Se no fim dos anos 1980 tínhamos uma população de 140 milhões de pessoas, hoje temos quase 220 milhões. Ou seja, mais de 50% a mais. O problema não é o Brasil ter crescido, nem as pessoas mais simples terem passado a ter acesso às coisas — isso é conquista e inclusão legítimas. O nó da questão é a forma como os aplicativos de música e os algoritmos transformaram a escuta numa linha de montagem. Como o mercado é dominado por poucas empresas que só querem prender a nossa atenção o mais rápido possível, a música acaba virando um produto industrial pasteurizado, feito para agradar todo mundo do jeito mais raso. No fim das contas, esse ritmo louco de lançamentos acaba anestesiando a nossa escuta crítica e premiando o que é passageiro, não importa quem esteja do outro lado ouvindo.
Para combater esse cenário, que só fez crescer nos últimos anos, veio então o abraço ao disco de vinil como a solução. Mas há uma grande contradição. Por mais que o LP traga uma materialidade importante e uma sensação de resgate histórico, ele acabou virando o epicentro de um desvio tão grave quanto o algoritmo: em vez de aproximar a pessoa da música, ele muitas vezes afasta e vira um empecilho para a audição de verdade. O problema do formato do LP hoje em dia é que ele foi sequestrado por uma lógica de ostentação. O disco de 180 gramas, a capa colorida e a edição limitada viraram troféus de estante. Enquanto o colecionador gasta horas pesquisando prensagens, limpando sulcos, exibindo o acervo na Internet ou guardando o disco lacrado como investimento, o tempo real de escuta se perde. Cria-se uma inversão bizarra: o formato passa a importar muito mais do que a obra. A música deixa de ser uma experiência do tempo — para ser sentida e absorvida — e vira um fetiche espacial, um pedaço de plástico caro acumulando pó na prateleira. O vinil, do jeito que virou moda, acabou se tornando o maior disfarce para quem quer colecionar status, mas acabou esquecendo como se sentar e simplesmente ouvir um som.
A boa notícia é que a salvação da lavoura não passa por se render ao plástico caro nem por aceitar passivamente a lavagem cerebral dos algoritmos. A saída real mora naquilo que a tecnologia e a história já nos deram de presente, desde que a gente recupere o controle da escuta através de uma curadoria de verdade. O velho e bom CD, por exemplo, continua sendo um aliado formidável e injustiçado nessa história. Ele traz uma fidelidade sonora impecável, não sofre com o desgaste físico do vinil, cabe em qualquer canto e custa uma fração do preço das edições gourmetizadas de hoje. Ter uma boa prateleira de CDs é abraçar a materialidade e a permanência da obra sem cair na pegadinha de gastar o aluguel em uma prensagem “pesada” só para ganhar curtida na rede social.
Do outro lado, o streaming pago — longe de ser o vilão que anestesia a mente — pode virar a maior ferramenta de liberdade que já tivemos para consumir arte, desde que usado com critério. Quando trocamos a passividade de aceitar o cardápio empurrado pelas grandes plataformas por uma busca ativa, o mar de opções deixa de ser lixo sonoro e vira um oceano de descobertas. É a chance de ouro para garimpar discos raros da MPB dos anos 1970, mergulhar na discografia inteira de um artista obscuro, cruzar fronteiras geográficas e acessar uma quantidade absurda de informação histórica e jornalística que antes exigia meses de caçada em sebos.
Difundir informação musical qualificada, ler resenhas, trocar figurinha com quem entende e montar as próprias playlists como quem desenha uma obra de arte própria são atitudes que devolvem o sentido à escuta. No fim das contas, a solução não está em colecionar caixas de papelão nem em virar refém de robô de aplicativo. O segredo é simples: usar a tecnologia a nosso favor, valorizar o som acima do rótulo e lembrar que a música é feita para ocupar o tempo da nossa vida, e não apenas o espaço da nossa estante.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
