Título em branco, autor em azul
Ali pelo final dos 90 e a primeira década de 2000, todo mundo leu o mesmo livro. Ok, talvez não todo mundo, mas essa era a impressão que passava. A história de um cara cujo vasto conhecimento de música pop era inversamente proporcional à sua maturidade emocional. Muitas referências, listas, um toque de humor ácido e autodepreciativo e… sucesso! Todo mundo leu, todo mundo viu o filme, todo mundo fazia referências em textos, conversas etc.

Li num outro livro uma vez, mais ou menos nessa mesma época, uma reflexão sobre momentos-chave pelos quais todos passam, quando você decide fazer isso e não aquilo, virar à direita e não à esquerda, pedir um chá e não um café ou o que quer que seja, aqueles momentos quando você opta por uma coisa, por mais simples que seja, no lugar de outra, e essa pequena escolha desencadeia uma cascata de eventos com consequências imprevisíveis (essa reflexão está em “A Chave de Casa”, mas que Tatiana Salem Levy me desculpe, eu não lembro uma só palavra dela pra que seja capaz de citar em aspas). O dia que em que eu comprei “Alta Fidelidade” – o livro do primeiro parágrafo, caso você não tenha sido capaz de juntar as peças óbvias – foi um desses momentos pra mim. Estava em um shopping, quase comprei o “Get Ready”, do New Order, por fim levei o livro, naquela edição de 98, com a foto de uns CDs, o título em letras brancas e o nome do autor em azul na capa.
Li com sorriso no rosto, recomendei pra um monte de gente, emprestei pra pessoas que viriam a ganhar espaços de destaque na minha vida, ampliei meu repertório musical a partir de nomes citados na obra, fiz e conversei sobre listas – 5 melhores qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, a qualquer momento; talvez tenha mantido esse hábito nas décadas seguintes, se levar em conta que, ainda há pouco estava aqui listando os melhores sabores de Monster (todo mundo sabe que é o branco, com folga, mas o top 2 fica com o Ultra Peachy) – dentre outras coisas.
O ponto é que aqui estou eu, um senhor de quase 42, dando voltas pra falar de livros e que tais porque uma vez, no fim de uma manhã de março ou abril de 2006, optei pela leitura no lugar da escuta.
Penso, gosto de pensar e eventualmente me pego pensando que, para o bem ou para o mal, muitos rumos na minha vida teriam sido diferentes caso, naquela tarde, eu tivesse optado por Peter Hook e Bernard Sumner no lugar de Nick Hornby. Ou talvez não, mas não dá pra saber e na prática isso não importa, porque a vida é sempre sobre o que é e não sobre o que poderia ter sido.
Estive pensando em “Alta Fidelidade” há uns meses. Como contei no primeiro texto aqui, quando decidi que ia tirar minhas duas semanas de férias pra ler, comecei buscando autores e autoras contemporâneos que tivessem algo de Hornby. Algumas das recomendações acabaram se mostrando despropositadas, como o chá-de-camomila-que-escreve, o autor-edredom do Matt Haig. Outras, como o Jonathan Tropper, eu já havia lido e recomendado pra um monte de gente – inclusive espero escrever sobre em algum momento, preciso reler Como Falar Com Um Viúvo. E teve os tiros certos demais, como Queenie, da Candice Carty-Williams. E também a Holly Brickley com seu Lado B, que me fez escrever um texto para o Scream & Yell depois de sei lá quantos anos. Ainda volto a falar dele qualquer dia.
No fim, acabei num sebo pegando uma meia dúzia de livros do próprio Hornby que eu ainda não havia lido. E o “Alta Fidelidade”, para reler.
Vinte anos depois, no fim de uma manhã de março ou abril.
Aquela mesma edição de 1998, com a foto de uns cds na capa, o título em letras brancas e o nome do autor em azul.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.

Wagner, que bacana sua visão e lembrança sobre “Alta Fidelidade” e o quanto ele lhe impactou. Em 98, minha curta biografia de 8 anos, começava a engatinhar pros clipes matinais da MTV (não bastando ser um carinha que comia verduras de boaça, também sentia familiaridade com o rock) e alguns exemplares da Showbizz (ex Bizz), ganhados pelo meu padrasto, ampliou muito o meu conhecimento em cultura pop. Numa das edições havia uma resenha do livro e falava de como a mescla música & futebol norteavam a literatura de Nicki Hornby. Pouco depois saiu o filme, que só fui ver completo muitos anos depois no Supercine. Tudo que encontrava sobre o livro vinham dessas resenhas editoriais. Acabei lendo a tradução da Cia. das Letras, a mais atual e gostei. Mas, confesso que esta edição com “autor em branco e o título em azul” da editora Rocco é mítica, tem aquela magia do fim dos anos 90. Em 2010, Hornby retoma à música em uma nova trama, “Juliet, nua e crua”. Mas aí, já é outra conversa. Muito bacana revisitar Alta Fidelidade por impressões que não são minhas, mas tão agradáveis quanto. Abraço, man!!