Lemon Twigs em mais um disco praticamente perfeito

The Lemon Twigs – Look For Your Mind!
41′, 14 faixas
(Captured Tracks)
(5 / 5)
Os Lemon Twigs vão completar dez anos de carreira em 2026 e, com a chegada de “Look For Your Mind”, chegam ao sexto disco, em plena evolução. Neste caso, evoluir significa abraçar com mais e mais carinho a musicalidade que deriva da mistura de powerpop com o rock beatlemaníaco dos anos 1960, incluindo aí as referências criadas pelos Fab Four até, digamos, “Help”, misturando com os primeiros álbuns dos Byrds e várias pitadas de gente maravilhosa daquele tempo, como Beach Boys, Herman’s Hermits, Hollies, todos quando ainda em suas fases pré-desbunde. Isso quer dizer que a música que os irmãos Michael e Brian D’Addario fazem é, antes de tudo, inocente, doce, feliz. Poderia ser sinônimo de críticas e detações “espertas” há algum tempo, mas hoje, pleno 2026, fazer esse tipo de canção é mais uma resistência do que qualquer outra coisa. Os D’Addario compõem, cantam e arranjam como se sua vida emocional dependesse de expressar seu otimismo para com o amor, o entendimento entre as pessoas e demais instâncias da vida comum que parecem abandonadas há algum tempo. Ouvir “Look For Your Mind” é dedicar pouco mais de quarenta minutos de seu dia a este embarque sem escalas para uma existência mais simples e bacana.
Há uma novidade importantíssima neste novo trabalho. A presença de Reza Martin (bateria), Danny Ayala (baixo) e Eva Chambers (flauta) nas gravações conferiu uma sonoridade ainda mais viva e vibrante, fazendo o Lemon Twigs soar ainda mais coeso. Se antes apenas os D’Addario faziam tudo no estúdio e o trio entrava apenas nos shows, agora todo mundo está tocando junto. O mais bacana nessa abordagem que o grupo faz de um tipo de música tão previamente visto e ouvido por décadas é que ele parece descobrir alguns segredos que permaneceram ocultos de olhos e ouvidos de todos. Não dá pra passar ileso pela faixa-título, que abre os trabalhos, sem pensar que ela poderia estar num lado-B de, digamos, “Bus Stop”, o que, convenhamos, é um elogio imenso. Em todas as canções deste álbum, é possível identificar referências douradas e, ao mesmo tempo, pensar que tudo soa bastante original, dando uma sensação divertida e inquietante. “2 Or 3”, que vem depois, traz o mesmo dedilhado de guitarra Rickenbacker que imortalizou Roger McGuinn nos Byrds, mas tem uma jovialidade e espontaneidade que não são ouvidas, literalmente, há décadas. São três minutos e vinte e sete segundos perfeitos. Em “Nothin’ But You”, os sujeitos emulam a batida de “Ticket To Ride” e enveredam por uma métrica pop perfeita, com vocais maravilhosos que vêm e vão, enquanto mais guitarras de doze cordas vão compondo uma melodia perfeita.
Em “Gather Ruond”, os Lemon Twigs parecem soar como se estivessem na trilha de “Vila Sésamo” ou, talvez melhor dizendo, de algum episódio dos Monkees. Também tem DNA beatle metido nessa canção linda, alegre, puro exemplar do que se convencionou chamar “sunshine pop”. E tem mais Beatles em “I Just Can’t Get Over Losing You”, que tem uma vulnerabilidade emocional pop masculina que há muito tempo não ouvimos. O instrumental é perfeito, sincronizado, criativo, uma lindeza. É possível ouvir ecos de algumas bandas do início dos anos 1970 em “Fire And Gold”, seja no dedilhado de guitarras, seja nos vocais mixados no meio do instrumental, algo bem característico de gente que queria preservar a doçura mas já via importância em inventar novidades. E um elemento importantíssimo no cânone do Lemon Twigs chega com “Mean To Me”, que é uma pura e autêntica tributária dos primeiros momentos dos Beach Boys, com agudos que, guardadas as proporções, encostam em Carl Wilson. A melodia é linda, doce, uma lindura. “Bring You Down”, por sua vez, também é Beach Boys, mas vai pelo seu lado energético, praiano, num clima “Surfin’ Safari”, que é adorável, cheio de vocalizações estilíticas e sol portátil.
A fusão Beatls-Byrds, tão idealizada por bandas como Big Star e similaes, acontece quase espontaneamente em “Yeah I Do”, com mais pendor pelos Fab Four, com direito a ótima performance de bateria por parte de Reza Martin e vocais esganiçados que lembram os jovens John e Paul. E “I Hurt You” tem, simplesmente, uma das mais belas melodias que ouço em muito tempo. O arranjo é delicioso, cheio de violões e guitarras harmonizando atrás da voz e de belíssimos vocais de apoio, que passeiam por toda a discografia dos Beatles até “Help” sem soar derivativo, o que é espantoso. E vamos de and “You’re Still My Girl”, que pende um pouco mais para Hollie, enquanto “Joy” é outro exemplo de balada, dessa vez com tratamento totalmente acústico e baseada no binômio violão e voz, com toques discretos de cordas. Parece o jovem Paul McCartney tateando um território que dominaria como poucos mais tarde. “My Heart Is In Your Hands Tonight” também vai pelo caminho beatle, com ênfase no drama e no amor não correspondido. Fechando, “Your True Enemy” é mais uma melodia perfeita que parece ter sido composta em 1965.
A gente sempre valoriza a novidade aqui na Célula Pop. Teoricamente, o novo álbum do Lemon Twigs seria a antítese disso, mas, o vigor e a dedicação com que os sujeitos atacam essa fórmula e o êxito que têm ao compor e soar novos, é o que nos faz ter a convicção de que o Lemon Twigs é um pequeno milagre. Mais um disco perfeito.
Ouça primeiro: o disco todo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
