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“Domingo” – Olhando para os Titãs há 30 anos

 

 

 

Lançado em novembro de 1995, Domingo é o oitavo álbum de estúdio dos Titãs. A maioria dos fãs não lhe dá muita atenção, atitude que se repete por parte da banda. Poucas faixas sobreviveram à turnê de lançamento e quase nunca foram incluídas em coletâneas e celebrações. Pouco lembrado pelos fãs e pela banda, que razões teríamos para discutir sobre Domingo? Apelar para meu gosto (é um álbum que aprecio do começo ao fim) não é um critério relevante. Então vamos lá: Domingo nos oferece um ótimo ponto de vista para falarmos sobre essa banda que é uma das mais importantes do rock brasileiro. É também muito expressivo de algumas apostas e dilemas do rock em meados da década de 90 no Brasil.

 

 

Como nos contam Hérica Marmo e Luiz André Alzer em seu livro, muita coisa tinha acontecido entre o final da turnê de Titanomaquia em agosto de 1994 e o reencontro dos sete titãs em abril de 1995. Paulo Miklos lançou seu primeiro álbum solo, e o de Nando Reis estava a caminho. Branco Mello e Sérgio Britto inventaram a Kleiderman. Toni Bellotto escreveu um livro. Marcelo Fromer produziu o álbum do cantor romântico Tivas Miguel. E Charles Gavin esteve na Inglaterra fazendo um curso engenharia de áudio. Após quatro meses no Estúdio Nota por Nota compondo o novo repertório, a banda mudou-se em setembro para o Be Bop Sound Studios. Na companhia do produtor Jack Endino, gravaram as 14 faixas de Domingo. A mixagem foi feita em Seattle, terra de Endino, com a presença de Bellotto, Britto e Gavin.

 

Nando Reis assim descreveu o álbum, comparando-o com os dois trabalhos anteriores: “Como se fosse um domingo depois de uma escura madrugada de sábado”. A atmosfera solar foi devidamente captada na capa, com a foto de uma piscina.

“Domingo”, a música, foi o cartão de apresentação do retorno da banda. O single foi produzido (por Paulo Junqueiro) especialmente para a primeira edição do MTV Vídeo Music Brasil, ocorrido no finalzinho de agosto de 1995. Uma melodia pop embala a letra que fala de um ócio forçado (naquela época mesmo em São Paulo as opções não eram tantas…).

 

O clima pop estava bem presente em mais duas faixas. “Eu Não Vou Dizer Nada (Além Do Que Estou Dizendo)” ganhou um videoclipe tão solar quanto “Domingo”, embora enigmático nas suas mensagens. “O Caroço da Cabeça”, cantada por Nando (a única em todo o álbum), poderia estar em seu disco solo. Mas o pop de céu ensolarado e nuvens leves fica nisso. Com exceção de uma faixa, as demais que compõem Domingo soam diferente: “popcore”, nas palavras de Fromer; “uma grande banda pop pesada”, como Miklos respondeu à pergunta de outro jornalista na época. Quem folhear o encarte do CD, vai ver que a piscina da capa também tem sua cota de ferrugem…

 

A faixa de abertura, “Eu Não Aguento”, combina groove com guitarras cheias de farpas. A letra é uma crônica da violência policial. E o videoclipe é bem sombrio. Na outra ponta, fechando o álbum, temos “Uns Iguais aos Outros”, com seus versos fortes (“As mulheres são os pretos do mundo”) e riffs poderosos encorpados por bases eletrônicas. Há músicas que dialogam com o lado mais pop que existe em Titanomaquia, também produzido por Endino. É o caso de “Tudo o Que Você Quiser”, “Tudo Em Dia” e “Ridi Pagliaccio”, cantadas por Branco, além de “Vámonos”. Andamentos rápidos, praticamente punk rocks, e letras simples, nas quais os titãs meio que se assumem como ridículos ou banais.

 

O metal aparece em “Brasileiro”, que tem a participação de Andreas Kisser e Igor Cavalera. Mais trabalhados, mas não menos pesados, são os arranjos para “Qualquer Negócio” e “Turnê”, onde a bateria de Gavin (amparada pela percussão de Marcos Suzano) brilha ao lado das guitarras. “Rock Americano” traz a mesma combinação, com um toque eletrônico creditado ao sampler. Ao apresentar “Domingo”, a banda destacou a retomada da diversidade sonora que a acompanhou durante toda a década de 1980. “Não dava para continuar daquele jeito, não era o que todo mundo queria”, declarou Britto, referindo-se aos trabalhos anteriores. Miklos tempera:

“De repente, a gente pesa demais. Mas a gente começou com ‘Sonífera Ilha’. Isso mostrou de cara a nossa vocação pop. Ao mesmo tempo, sempre fomos punks no palco, até quando tocávamos a mesma ‘Sonífera Ilha’. A banda é a soma desses dois aspectos e estamos tentando retomar isso.”

 

Pela primeira vez em uma dezena de anos, os Titãs percorreram o circuito popular de TV: Raul Gil, Hebe Camargo, Silvio Santos, cujo programa é citado em “Domingo”. A nova (e ao mesmo tempo antiga) postura refletiu-se nos shows, com a inserção de músicas que não apareciam desde a turnê de Õ Blesq Blom (1989), como “Go Back”, “Comida”, “Televisão” e “Família”. Lembremos que em 1994 a banda lançou uma antologia (Titãs 84 94), aproveitando que precisava saldar uma dívida com a Warner, sua gravadora. Foram dois CDs, com 41 faixas. Isso contribuiu para um olhar retrospectivo, que foi ao encontro da tal retomada da diversidade.

 

Há marcas desse olhar em Domingo. “Eu Não Vou Dizer Nada” cita “Flores” e “Televisão” em sua letra. A prosódia de Mauro e Quitéria, que abre e fecha Õ Blesq Blom, é revisitada em “Rock Americano”. “Turnê” é sobre as rotinas de viagem dos rapazes. “Tudo em Dia”, que tem a colaboração de Arnaldo Antunes, ironiza a vida comportada que, ao menos em parte, era a dos titãs (vejam a capa da Showbizz de novembro de 1995). Em “Qualquer Negócio”, com seu inventário inspirado de lugares comuns, Arnaldo volta a aparecer, o único ileso nas tragédias noticiadas por Miklos no meio e no final da faixa.

 

Mas nem só de retomadas depende Domingo. Desde o final de 1993, os Titãs estavam envolvidos com o selo Banguela, que chegou a ter um cast maior do que o da própria Warner. A grande maioria desses artistas eram bandas novas, que representavam a vanguarda do rock naquele momento. De fato, a Banguela foi um dos canais pelo qual se expressaram os experimentos de nomes como Raimundos, Mundo Livre S/A, Little Quail and the Mad Birds e Graforreia Xilarmônica: insistir no português como idioma artístico, ir ao encontro de sonoridades e sotaques regionais e estabelecer pontes com o passado da música brasileira.

 

Em Domingo, vários sinais evidenciam o impacto desse momento sobre os Titãs. Timbres nordestinos são ouvidos nas guitarras de “Rock Americano” (remetendo ao Recife de Mauro e Quitéria) e “Uns Iguais aos Outros” (que abre espaço para um berimbau). “Um Copo de Pinga” é tomado do cancioneiro popular (adaptado por Britto) e executado como uma valsa caipira. Em “Brasileiro”, além da participação de metade do Sepultura às vésperas de Roots, temos versos diretos com imagens que, em alguns casos, atualizam o ser tupiniquim. Por exemplo, “leia o evangelho” e “faça sua cabeça” registram expressões novas ou menos visíveis da religião no Brasil – um tema, aliás, que frequenta outras letras do álbum, em uma prova de sensibilidade dos compositores para a importância social desse assunto.

 

“Eu Não Aguento” merece mais detalhes. No início da música, há a citação à melodia de “Sangue Latino”, gravada por Secos e Molhados em seu primeiro LP. A capa desse álbum também é homenageada no videoclipe. A faixa, na verdade, é uma versão de uma música da banda Tiroteio. Seu vocalista, Sergio Boneka, faz uma participação como rapper. A Tiroteio era exatamente um exemplo das misturas que marcavam o rock brasileiro naquele momento – na mesma linha da Virgulóides, um dos destaques da Excelente, uma parceria de Carlos Eduardo Miranda e três dos titãs que deu sequência ao Banguela entre 1995 e 1999. Além de cantar, Boneka empunhava um cavaquinho. A versão original de “Eu Não Aguento” era mais “brasileira”, algo que os próprios Titãs incorporam na regravação que está em Volume 2.

 

Em se tratando de brasilidades, cabe menção à relação da banda paulistana com os Paralamas do Sucesso. A relação não é apenas um exercício de imaginação: Herbert Vianna participou da composição e da gravação de “O Caroço da Cabeça” – música que seria também registrada em Nove Luas (1996). Além disso, João Barone executou uma segunda bateria em “Eu Não Vou Dizer Nada”. Há mais: as duas bandas já haviam tocado juntas no Hollywood Rock de 1992 e voltariam a fazer o mesmo em uma pequena turnê em 1999. Entre 1992 e 1995, elas compartilharam o mesmo empresário, Zé Fortes. Depois disso, os Titãs retomaram contrato com Manoel Poladian – que respondeu pelos negócios da banda durante a época de Cabeça Dinossauro (1986).

 

Em 1994, os Paralamas haviam lançado Severino, que traz uma versão de “Go Back”, dos Titãs. Do ponto de vista das brasilidades, o álbum insistia nas explorações iniciadas em Selvagem? (1986). Se o Nordeste não era uma novidade, as referências “baianas” (que predominaram na segunda metade dos anos 80) cediam lugar para as “pernambucanas”, em continuidade com o que Herbert Vianna havia cultivado em Ê, Batumaré (1992), seu primeiro álbum solo. Notemos que, alguns anos depois, os shows da banda incorporariam em seu set músicas de Chico Science e Nação Zumbi (“Manguetown”) e Raimundos (“Eu Quero Ver o Oco”).

 

Comparado aos Paralamas, os Titãs dialogavam com as brasilidades de maneira mais sutil. O trio carioca (João Fera não participou das gravações de Severino) buscava se equilibrar entre o rock, a MPB, certos regionalismos e as baladas pop. A América Latina estava no circuito de vendas e de shows. Já a aposta dos Titãs, focada no Brasil (apesar de faixas cantadas em espanhol e italiano em Domingo), se revela na provocação de Britto em resposta a um jornalista: “Não sei se os Paralamas iam conseguir gravar uma música pesada”.

 

O fato é que tanto Titãs quanto Paralamas enfrentavam desafios atrozes. Apesar da sintonia com o rock da década de 1990, seu principal patrimônio remetia à década anterior. No CD que divulgou o show conjunto de 1999 (Sempre Livre Mix), as músicas selecionadas, de ambas as bandas, eram todas dos anos 80. À medida que o final do milênio se aproximava, o cenário para o rock ia se tornando apocalíptico, por conta da preferência do grande público por outros gêneros. Um ponto forte de muitas composições da velha geração – o comentário social – tornava-se ofuscado por vozes que vinham direto das periferias, então representadas no rap.

 

Severino não emplacou hits e não foi expressivo nas lojas. Desse ponto de vista, o que redimiu os Paralamas foi Vamo Batê Lata (1995), registro ao vivo, puxado por sucessos antigos e por “Uma Brasileira”, faixa que poderia ter sido composta na década anterior. Resultado: 1 milhão de cópias vendidas. Do lado dos Titãs, em três meses, Domingo havia batido as 150 mil cópias de Tudo Ao Mesmo Tempo e de Titanomaquia. Mas a banda não ficou insistindo na sua promoção. Durante 1996 priorizou a viabilização do Acústico MTV, que foi gravado em março do ano seguinte. Resultado: um CD que vendeu 720 mil cópias em apenas dois meses e shows com um público bem mais diversificado do que aquele que os Titãs reuniam nos anos 90.

 

Embalado pelo sucesso do Acústico MTV (1997), que marca também a reaproximação com Liminha, o septeto engata um Volume 2 (1998), com algumas inéditas. Mas o principal hit é uma música de Roberto Carlos, “É Preciso Saber Viver”. Na sequência, vem o álbum de versões (As Dez Mais, 1999), que inclui “Pelados em Santos”, dos Mamonas Assassinas, outro artista campeão de vendas. A produção desses três álbuns reequilibrou as relações internas. Em Domingo, ao passo que Nando Reis só aparece em três composições, Britto está em quase todas. Os projetos individuais são adiados, até porque, comercialmente, as estreias não se revelaram promissoras. O primeiro a retomá-los é exatamente Nando (Para Quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro, 2000), que no ano seguinte deixaria a banda, após a morte de Fromer.

 

A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana, de 2001, acentuando o veio pop, aposta no caminho assumido por Domingo, se consideramos os dois pontos destacados acima: diversidade e brasilidade. Sem novidades, ao contrário do que vemos no álbum de 1995.

 

Leão Serva, na crítica que escreveu para a revista Showbizz de janeiro de 1996, palpitou: “Os Titãs estão rastreando o passado, se autoconhecendo, o que parece ser o prenúncio do fim ou de uma grande explosão criativa”. Nenhuma das duas coisas aconteceu. Domingo permanece como um tento criativo logo antes da banda mergulhar no negócio das versões (dos outros e de si mesma).

 

Nota: nas plataformas, Domingo traz versões remixadas de “Eu Não Vou Dizer Nada” e “Tudo o Que Você Quiser”, além de uma inédita: “Pela Paz”, composta em 1985 para a Rádio Cidade e regravada para a campanha “Caminhada 89 pela Paz”, da rádio 89 FM.

 

 

Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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