Morreu Lô Borges. Morreu o Clube da Esquina.
Manhã de segunda-feira, dia 3 de novembro. Morreu Lô Borges. Estava internado em Belo Horizonte, com problemas decorrentes de infecção e com respiração assistida mecânica, na UTI. Há cerca de um mês, recebi respostas via áudio de uma entrevista que fiz com ele e Zeca Baleiro sobre o álbum “Céu de Giz”, em agosto deste ano. Rapaz, que tristeza saber que Lô não está fisicamente entre nós e, certamente, ele é um dos artistas mais presentes na Célula Pop. Veja aqui o que já temos publicado, entre resenhas e entrevistas.
Porque Lô, a meu ver, era a alma do “Clube da Esquina”. Sem desmerecer seus parceiros e companheiro de disco e de vida, mas ele, aos 18 anos, talentoso que só, recebeu uma chance dourada e não a desperdiçou. Milton já era um músico consagrado quando propôs que Lô assinasse o álbum duplo de 1972 com ele. E Lô, além de cantar, tocar e compor, ainda lançou seu primeiro trabalho solo, o “disco do tênis”, no mesmo ano. Dali pra frente, Salomão Borges tornou-se uma referência de talento daquele folk rock brasileiro pós-hippie, meio progressivo, meio Beatles, meio moda de viola, que veio dos integrantes desse coletivo mineiro urbano. Gente como Beto Guedes, Novelli, Wagner Tiso, Toninho Horta, o próprio Milton, enfim, uma linhagem nobre e muito brasileira que marcou a década de 1970 e o início dos anos 1980. Nesse período, Lô gravou discos decisivos como “A Via Láctea” (1979) e “Nuvem Cigana” (1982), nos quais solidificou seu modo de canção humanista, criando melodias perfeitas para letristas inspiradíssimos colocarem palavras de amor, esperança, força e resistência.
Discreto e econômico naqueles tempos, Lô lançou poucos discos até os anos 2000. Entre 1970 e 1996, ele gravou cinco discos, sendo “Sonho Real” (1984) e “Meu Filme” (1996) os últimos deste período. Em compensação, a partir de 2003, Lô experimentou um renascimento criativo. Ele já havia colaborado com os conterrâneos do Skank em 1996 quando coassinou “Te Ver”, com Samuel Rosa e agra, “Dois Rios”, nova parceria entre os dois, ganhava o sucesso nacional. A partir daí, ele engatou um período extremamente fértil, no qual lançou nada menos que quinze álbuns, entre trabalhos solo, colaborações e registros ao vivo. Viu sua carreira ganhar fôlego inédito e seu trabalho sendo apresentado a novas e novíssimas gerações. De 2019 para cá, Lô colocou na praça um disco por ano. E todos bons.
Sua partida é muito triste e contraria o espírito ensolarado e otimista de suas canções. Nelas, a vida parece mais simples, questão de valorizar o próximo, ter consideração e empatia por ele e, a partir daí, deixar o amor e a amizade tomarem conta. Tempo de poder contemplar amanheceres, ventanias, saudades e amores da juventude, tudo num espaço de três minutos que parece eterno.
Lô, que você assuma logo seu papel na Grande Banda Celestial e siga olhando por nós. Saudades desde já. Desde sempre.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
