ArtigosColunasDestaquinhoMúsica

Devotos celebra mais uma noite punk

 

 

Domingo, 17 de maio, 21h30min. A banda de hardcore pernambucana Realidade Encoberta, com uma carreira sólida no underground recifense desde os anos 1980, estoura os ouvidos do público do Darkside Studio, casa de shows localizada na região central de Recife cuja proposta é muito semelhante à do CBGB’s (guardadas as devidas proporções históricas, claro.). É um local pequeno, com capacidade para apenas 250 pessoas.

 

Eis que chegam Cannibal (baixo, voz e letras); Neilton (guitarras); e Celo (bateria). Passam pelo meio do público, cumprimentando amigos e fãs, e ficam por ali mesmo, esperando o show do Realidade Encoberta terminar para montar seu palco. São respeitadíssimos. Foram declarados Patrimônio Imaterial do Recife em 2024, em Projeto de Lei sugerido pela vereadora Cida Pedrosa (PcdoB), renomada escritora pernambucana. Tiveram direito até a show na Câmara Municipal de Vereadores, em apresentação que a banda fez questão de dedicar ao Presidente Lula!

 

Com 38 anos de uma sólida carreira no universo punk-hardcore brasileiro, a banda tem no currículo dez discos lançados (sendo três no formato vinil), duas turnês europeias, dezenas de documentários e uma biografia, “Devotos 20 anos”, escrita por este que vos escreve. Além, claro, de uma histórica participação no Rock in Rio de 2022, como convidados da banda mineira Black Pantera. Mas nem sempre as coisas foram assim.

 

Formada em 1988 com o nome Devotos do Ódio, passaram inúmeras dificuldades, inclusive no bairro onde moram, o então violentíssimo Alto José do Pinho. Para se ter uma ideia dos perrengues passados pela comunidade, o morro só teve acesso à água encanada em 1985, quando os integrantes da banda tinham cerca de 15 anos de idade. Como não se revoltar com tamanho descaso do poder público? Para piorar, a banda era extremamente discriminada em seu próprio bairro. Os moradores não entendiam o que queriam aqueles punks alienígenas, pois nunca haviam se deparado com tais roqueiros cada vez mais crescentes no bairro. E havia um buraco mais fundo. Como bem disse Neilton no documentário “Punk-rock-hardcore Alto José do Pinho é do caralho”, dirigido em 1995 pelo hoje consagrado diretor pernambucano Cláudio Assis, “aqui a gente corre do ladrão e corre da polícia”. Não era fácil! Mas a banda reverteu lindamente o jogo.

 

O Devotos do Ódio não é apenas uma banda, mas um fenômeno social e antropológico. Conseguiram mudar suas próprias vidas e a do Alto José do Pinho, que deixou de frequentar as páginas policiais dos jornais do Recife para os cadernos culturais das publicações. Com um sério trabalho social que incluiu a fundação de uma ONG e de uma rádio comunitária, além de oficinas profissionalizantes, o Alto José do Pinho é hoje um bairro tranquilo e fervilhante de cultura, com destaques para as bandas da cena roqueira e dos pioneiros Maracatu Estrela Brilhante e o Afoxé Ylê de Egbá. O respeito que os
punks do Alto José do Pinho conquistaram é tão grande na comunidade que hoje a população do bairro tem orgulho de dizer que mora no Alto José do Pinho. Outro fenômeno interessante, que vivenciei pessoalmente. Todo roqueiro tatuado que sobre o morro é sempre muito bem tratado pelos moradores do lugar.

 

Mesmo assim, na época, a banda passava por situações complicadas. Levaram absurdos nove anos para gravar seu disco de estreia, o hoje seminal “Agora tá valendo”, de 1997. Para piorar, por conta do nome Devotos do Ódio, foram barrados de programas como “Jô Soares Onze e Meia”, ainda no SBT, e até do “Sem Censura”! Decidiram, acertadamente, eliminar o “do ódio” no nome da banda, que passou a ser conhecida apenas como Devotos. O curioso é que, apesar disso, seu som foi ficando cada vez mais
pesado.

 

Voltando ao Darkside studio. Após o final do show do Realidade Encoberta, o Devotos começa a montar seu palco para o show. Na frente da bateria de Celo, é desfraldada uma enorme bandeira da “Ação Antifascista Brasil”, e seu tradicional banner preto no fundo do palco onde se lê “Devotos desde 1988”. E começa a catarse coletiva que costuma marcar os shows da banda. Na véspera, o Devotos havia tocado num festival punk no Cordão do Bola Preta, na Lapa, no Rio de Janeiro. A atração principal tinha sido da lendária banda punk britânica The Varukers. Se estavam cansados por emendar dois shows em dois dias, entre o Rio e o Recife, não demonstraram. Emendaram uma porrada atrás da outra, com direito a várias rodas-de-pogo, tradicionalíssimas na capital
pernambucana.

 

A sintonia ente o trio é impressionante. Neilton, que desde 2022 assumiu também as guitarras da Nação Zumbi, é um guitarrista hiper criativo. Além de ser também artista plástico e gráfico, produtor de amplificadores feitos a partir de “tecnologia morta” e fabricante de seus próprios pedais. Celo é um baterista violento e coeso, e Cannibal impressiona pelo seu carisma, visual e letras extremamente bem boladas. Abriram com “Futuro Inseguro” e fecharam com o clássico “Punk-Rock Hardcore Alto José do Pinho. No intervalo entre começo e fim, desfilaram músicas de todas as fases da banda, saciando o pequeno, porém intenso, público da noite.

 

Ainda estou com os ouvidos estourados e os joelhos doendo. E com um sorriso de orelha a orelha. É assim que uma pessoa sai de um show do Devotos. E que permaneça do mesmo jeito por muitos anos…

 

 

Set List

Futuro Inseguro
O Céu x O Inferno
Caso de Amor e Ódio
Nós Faremos Que Você Nunca Esqueça
Mas Eu Insisto
Dia Morto
Asa Preta-Luz da Salvação
De Andada
Vida de Ferreiro
Tem de Tudo
O Herói
Eu Tenho Pressa
Wlaidmir Herzog
Alien
Fé Demais
Roda Punk
Punk Rock Hardcore Alto José do Pinho

Hugo Montarroyos

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.

4 comentários sobre “Devotos celebra mais uma noite punk

  • Parabéns pela matéria. Acho que muita gente não conhece a trajetória da banda.

    Resposta
  • Conheci a banda há pouco tempo mas foi suficiente para entender o impacto que tiveram no gênero e na nossa cidade

    Resposta
  • A matéria sobre a banda Devotos ficou muito interessante! Eu não conhecia a trajetória deles, mas gostei bastante de saber mais sobre a importância da banda para a cena punk pernambucana e sobre como usam a música para abordar questões sociais. Parabéns pela excelente matéria e também ao Hugo M. pelo ótimo trabalho!

    Resposta
  • Amei a matéria sobre a banda Devotos. Chamou atenção pela influência direta dos componentes da banda na transformação social da comunidade Alto José do Pinho. Parabéns, Hugo Montarroyos!

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *