Finalmente o novo e estranho disco dos Lemonheads

The Lemonheads – Love Chant
36′, 11 faixas
(Fire)
(4 / 5)
Não vou esconder: gosto dos Lemonheads. Alguma coisa neles sempre me encantou, talvez seja a dualidade entre a belezura de muitas de suas canções e a barra pesada que sempre esteve à volta do vocalista e cabeça de limão-chefe, Evan Dando. Nem todos sabem, mas as atividades do grupo iniciaram ainda nos anos 1980, num tempo em que “música alternativa” era uma atitude arriscada em termos artísticos e, especialmente, financeiros. Dependia de base de fãs, lojas de discos fora dos grandes circuitos e muita divulgação em rádios universitárias. O Lemonheads passou por tudo isso e já era uma banda sólida quando assinou contrato com a Warner na virada dos anos 1980/90. Com seu disco “It’s A Shame About Ray”, de 1992, tomou conta das paradas de sucesso com uma cover esperta de “Mrs. Robinson”, de Simon And Garfunkel. Dando, com cara de galã alternativo, foi parar nas capas de revista, como sonho de consumo do público. Os caras queriam ser ele e as meninas o queriam. Ao lado disso tudo, o problema constante com drogas, algo que foi desencadeando uma lenta decadência da banda. Ainda fizeram muito sucesso com o álbum seguinte a “Ray”, “Come On Feel The Lemonheads”, de 1993. Mas já estavam fora do grande circuito do rock alternativo americano com o subestimadíssimo “Car Button Cloth”, de 1996 e só retornaram com um álbum dez anos depois, homônimo. Entre eles, Dando lançou um trabalho solo pouco distinto da obra do grupo e, desde então, o Lemonheads lançou dois discos de covers, “Vashons” (2009) e “Varshons 2” (2019). Sendo assim, a chegada de “Love Chant” é muito aguardada pelos fãs. E o disco é intrigante.
Gravado em São Paulo, com produção de Apolo Nove, “Love Chant” marca um novo momento na vida de Evan Dando. Morando na cidade e casado com Antonia Teixeira desde fevereiro deste ano, Dando livrou-se das drogas e tem se dedicado a fazer turnês divulgando os relançamentos de “It’s A Shame About Ray” e “Come On Feel The Lemonheads”, que completaram recentemente 30 anos. Além disso, o cara se mostra um marido dedicado e gente boa, vivendo na Serra da Cantareira e trocando figurinhas com Renato Teixeira, pai de Antonia, compositor de “Romaria” e outros clássicos da música nacional. Em meio a tudo isso, Dando encontrou tempo para dar forma às canções que vinha rabiscando há anos e que compõem uma espécie de testemunho desses últimos tempos, não só de convivência com um novo amor e em um novo país, mas de poder sentir-se livre do vício que quase o matou algumas vezes. Em 2024 ele soltou duas canções, “Fear Of Living” e “Seven Out” que, à primeira vista, repetiam muito do modus operandi do grupo em sua forma mais acessível – canções folk pop rock perfeitinhas, com refrão assimilável e guitarrinhas marcantes, tudo emoldurando os vocais de Dando que soavam mais graves do que o habitual, mas nada que mudasse muito o panorama. Daí, cerca de um ano depois, chega o álbum completo, curiosamente sem estas duas canções prévias.
“Love Chant” ainda é um disco dos Lemonheads, mas certamente não é um trabalho óbvio ou que se disponha a repetir fórmulas de sucesso prévias. É muito mais um álbum que entra na via da sinceridade e vai por ela, oferecendo ao ouvinte vários testemunhos e visões que Dando sustenta em seu momento atual e, nesse meio tempo, vai mostrando variações interessantes e nada óbvias do padrão Lemonheads de canção. A primeira faixa até que emula o jangle pop acelerando que a banda popularizou nos anos 1990, mas o grave da voz de Dando e a letra – que fala de depressão e superação – já avisam que há algo de novo no front, mesmo que o ouvinte mais dedicado identifique a voz familiar de Juliana Hatfield nos vocais de apoio. “Deep End” tem um riff anguloso que vai pontuando a canção por completo e soa como se o andamento fosse manco ou algo assim. É curioso e encanta pela estranheza, o que torna “In The Margin” ainda mais instigante. O andamento é familiar, mas a letra é sobre um relacionamento que pode ser de Dando consigo mesmo, com um verso impactante: “If it’s periphery what you give//I’ll leave you in the margin”. Tem muito de rock alternativo de guitarras em “Wild Thing”, que a faz soar como uma das canções mais familiares do disco.
A estranheza vem com tudo em “Be-In”, que tem uma linha de baixo quase funkeada e vocais murmurados, que casam com um andamento de bateria com groove suficiente para se destacar do cenário. E “Cell Phone Blues”, logo em seguida, tem dinâmica psicodélica sessentista sublimada por um arranjo que anda intencionalmente em círculo perseguindo a voz de Dando, que alterna grave gravíssimo com melodia no refrão. E “Marauders”, vem com uma dinâmica quase krautrock, com guitarras em chacundum e bateria em alta velocidade, numa tentativa de fazer algo realmente novo, mas que parece uma cover de alguma canção esquecida dos anos 1970. A faixa-título recoloca o trem nos trilhos do Lemonheads padrão, mas há algo de Sonic Youth pop em algum ponto do arranjo, talvez na voz repetindo o refrão, talvez na explosão do refrão – tem refrão? – deixando o ouvinte com … orelhas em pé. “The Key Of Victory” já envereda por um dos caminhos que Dando gosta de trilhar – o country meio chapado, lento, seja no arranjo de violões e percussão, seja no timbre da voz. E “Roky”, encerrando o álbum, tem o rock psicodélico como alvo primordial em meio a guitarras e bateria errática. A grande, imensa, definitiva canção presente em “Love Chant” é, sem dúvidas, “Togetherness Is All I’m After”, que já seria sensacional só pelo título, mas que tem uma baita melodia punk country em câmera lenta e guitarras que pontuam a melodia nada óbvia com uma dinâmica belíssima. O grande acerto do álbum, sem dúvidas.
“Love Chant” é um trabalho em que Dando coloca o coração na ponta dos dedos e o oferece para o ouvinte. É intenso, diferente, anguloso e nada pop. É algo feito para quem está interessado em saber o que ele tem vivido e como tudo isso o afetou. Neste caso, ainda bem, positivamente. É um disco raro em tempos tão comerciais. Ouçam.
Ouça primeiro: “Togetherness Is All I’m After”, “In The Margin”, “58 Second Song”, “Deep End”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
