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Johnny Cash, Belchior e o grill do George Foreman

 

 

Um trecho de Alta Fidelidade que me arrancou um sorriso sincero quando li pela primeira vez foi aquele no qual o Rob diz que é um cara mais ou menos inteligente, que o livro favorito dele era “Cash, a autobiografia de Johnny Cash, escrita por Johnny Cash”, não pelo Johnny Cash em si, de quem eu praticamente só conhecia o cover de Hurt e o filme com o Joaquin Phoenix, mas pela construção da frase e pelo próprio argumento do personagem de Hornby.

 

Eu mesmo tive a minha cópia de Cash, a autobiografia de Johnny Cash, escrita por Johnny Cash. Ganhei de presente de uma ex-namorada em um amigo oculto entre amigos no final do ano em questão – e, até onde sei, não foi marmelada. Li o livro e adorei, não ao ponto de colocá-lo na lista dos meus favoritos, talvez no máximo na lista de boas autobiografias, mas adorei. Só não tive o direito de curtir a companhia dele por muito tempo, arrumar um espaço legal na estante, reler algum trecho aleatório quando desse vontade – como faço eventualmente com o livro de memórias do Jeff Tweedy – porque, eu juro, me roubaram o Cash durante um assalto (e é nessa hora que eu lamento escrever em português; uma piada sobre ter o Cash roubado em inglês me tiraria um pequeno sorriso).

 

A versão resumida é que eu entrei numa farmácia que já estava rendida e perdi uns documentos, uma camisa do Botafogo azul celeste e homenagem ao Loco Abreu, meu celular, a autobiografia do Cash e, caramba, um George Foreman Grill.

 

O trauma me impediu de querer comprar outro exemplar do livro – agora, mais de dez anos depois, compraria fácil caso topasse com ele num sebo. Mas o que tenho na estante, e não lembro se de antes ou depois dessa merda de assalto, é uma mini-biografia em quadrinhos do homem de preto.

 

Não sou um especialista em HQs (também não sou um especialista em literatura e mesmo assim estou aqui escrevendo a respeito, né?) mas gosto de Cash – Uma biografia, de Reinhard Kleist – importante não confundir aqui com Cash, a autobiografia de Johnny Cash, escrita por Johnny Cash. Em preto e branco, e com traços sujos e expressivos, o livro não escolhe o caminho mais fácil da narrativa linear, preferindo, em vez disso, reforçar aspectos psicológicos da dualidade do homem religioso, conservador e de família contra o viciado em anfetaminas consumido ao longo da vida pela culpa da morte de seu irmão Jack. E, claro, aborda a gravação do icônico ao vivo em Folson e o papel de June Carter na redenção do artista.

 

É boa pra caramba, e bonita. Não releio há anos, mas nunca cogitei me desfazer dela.

 

Quem eu penso que merecia uma homenagem do tipo, uma HQ em preto e branco, traço sujo, rasgado, nanquim pra tudo que é lado, é o Belchior, pelo menos recortando ali aquele começo da carreira. Ia adorar ver como alguém o representaria, cigarro entre os dedos, fios de bigode contra a boca do telefone, falando para a Elis que, sim, ele aceitaria ir até ela para mostrar algumas músicas, desde que fosse na hora do almoço, porque, afinal, ele não tinha dinheiro pra comer. Ou então aquela passagem da porradaria com o Fagner na casa da Amelinha, embora fosse preferir a versão na qual contam que alguém puxou uma faca.

 

Não temos isso, mas temos a biografia do JB Medeiros, sobre a qual eu fui tomar conhecimento quando já estava disposta no setor de lançamento da finada Livraria Cultura da Senador Dantas e que me fez chorar ali mesmo.

 

Em 2014, eu já tinha feito o meu nome no mundinho Indie tendo organizado, dois anos antes, o Jeito Felindie, um tributo de artistas independentes ao repertório do Raça Negra. O que era pra ter sido um bingo entre amigos ganhou corpo e virou pauta em jornais e revistas do país inteiro, e a cauda longa se estendeu ao ponto de levar a Letuce, banda da Letícia Novaes antes da persona Letrux, a se apresentar diante do grupo de pagode homenageado no palco do Caldeirão do Huck sei lá quanto tempo depois. Pois bem, pode parecer distante pra quem já se acostumou aos pais de samambaia que exaltam Alucinação (assumo minha parcela de culpa), mas em 2014 só se falava do Belchior fujão, o Belchior excêntrico, não do compositor de Na Hora do Almoço, Medo de Avião, Coração Selvagem e tantas mais. Aquilo me incomodava ao ponto de eu decidir que meu segundo tributo teria um pouco desse interesse em gritar “olhem para cá, olhem para os discos, ouçam as músicas! Falem das músicas! Esqueçam essa história de por onde anda!”.

 

Lançado digitalmente via Scream & Yell, Ainda Somos os Mesmos fez um sucesso mais modesto que Jeito Felindie, mas extremamente satisfatório. Nas entrevistas de divulgação, costumava dizer que, estivesse o artista onde estivesse, esperava ao menos que ele ouvisse. Se gostasse, seria um bônus.

 

Ao folhear a biografia do JB Medeiros, dei de cara com um trecho que falava sobre o tributo, e sobre a noite em que Belchior e Zeca Baleiro o ouviram e conversaram a respeito enquanto bebiam vinho.

 

Naquela tarde, chorei por um livro. Mas foi de alegria. Diferente da noite em que chorei por um livro, uma camisa do Botafogo, um celular e um George Foreman Grill.

Jorge Wagner

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.

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