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Jon Spencer segue zelando pela sujeira necessária

 

 

 

 

Jon Spencer – Songs Of Personal Lost And Protest
33′, 12 faixas
(Shove Records)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

A trajetória de Jon Spencer é, por definição, uma resistência à assepsia do rock contemporâneo. Em Songs of Personal Loss and Protest, recém-lançado, ele reafirma a urgência que o norteia desde os tempos de Pussy Galore. Mais do que um novo álbum, a obra funciona como um acerto de contas com o próprio legado: aos 60 anos, Spencer questiona o peso de sua persona e a validade de continuar martelando a mesma bigorna em um mundo que parece ter perdido a capacidade de reagir ao atrito. Ao retomar a parceria com a cozinha do The Bobby Lees — Kendall Wind no baixo e Spider Bowman na bateria —, ele encontra vigor renovado para o que denomina “New New Super Heavy Rock”, entregando um disco tecnicamente impecável e profundamente fiel ao cânone que construiu ao longo de décadas.

 

A abertura com “Fanfare (Another Point of View)” estabelece o tom de intensidade máxima. Em faixas como “Vermin Attack!” e “Knock ‘Em Out”, a seção rítmica impulsiona o som a uma estratosfera de garage punk hiperdirigido, enquanto Spencer mantém seu habitual estado de ebulição. Transitando entre o crooning sexificado e o grito visceral, ele utiliza “Hangover” e “Give It Up 4 the Devil” como alicerces para suas reflexões sobre o peso do mundo atual. O uso incisivo do pedal fuzz no baixo sustenta o arranjo e reafirma que a execução física da música, baseada na tensão e no suor, permanece o pilar central de sua força criativa.

 

Contudo, ao percorrer o repertório, é inevitável notar um certo esgotamento da fórmula. Embora o conteúdo lírico — onde o lamento pessoal encontra a revolta política em “Mr. Lion” e “Orange Slice Blues” — ainda ressoe com honestidade, a paleta sonora apresenta limitações. Faixas como “Slip Away” e “Step On the Gas” recorrem à repetição rítmica como um dispositivo de transe, mas, no fim, o espectro sonoro revela-se restrito. A produção, embora límpida e robusta, mostra um artista tão apegado à própria gramática que termina por limitar seu campo de atuação, tornando o trabalho previsível para quem acompanha o método Spencer há gerações.

 

Ao chegarmos em “I’m Taking Off” e na sequência final com “Wet & Wild” (a melhor do disco) e “No More”, evidenciam-se tanto o foco da performance quanto o limite do formato. Spencer entrega o que se espera dele: zero concessões a fórmulas radiofônicas, apenas o impacto imediato da “porrada”. O encerramento com “No More” impressiona pela economia de meios e eficácia, mas reforça a sensação de que a fórmula atingiu um ápice de saturação. Embora Spencer compreenda que a dignidade está na sua veemente recusa à domesticação, a transformação do personal loss em combustível acaba soando, neste momento, como um círculo fechado, carente de janelas para o novo.

 

A importância de manter Jon Spencer em atividade, contudo, vai além da mera nostalgia. Em uma indústria que privilegia instâncias estéticas pré-fabricadas, ele permanece como um bastião da poluição moral e sonora, alguém que insiste na materialidade da guitarra. Songs of Personal Loss and Protest é, acima de tudo, um documento de sobrevivência técnica e estilística e, mesmo que não busque a expansão, possui valor. É o som de um veterano que prefere a integridade do seu estilo ao risco da mudança. O radicalismo segue pulsante e honesto, mas, em 2026, a verdadeira audácia talvez residisse em permitir que esse som ganhasse contornos mais amplos, além da barulheira calibrada que ele já domina com absoluta convicção.

 

Ouça primeiro: “Vermin Attack!”, “Mr. Lion” e “Wet & Wild”.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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