1996 – Ou o futuro ancestral do rock
Logo depois que Odelay foi lançado em junho de 1996, a revista Rolling Stone indagou: “Poderia o futuro do rock ser um moleque mimado e desleixado com um corte de cabelo horrível, uma coleção de discos absurdamente eclética, dois toca-discos e um microfone?” Meses adiante, em sua escolha dos melhores do ano, os primeiros lugares iriam para o artista e o álbum em questão.

De fato, Beck precisava provar que era a mesma pessoa que havia despontado em 1993 com “Loser”. A canção se tornara um hit puxado por execuções em rádios alternativas. Mas também fixou no jovem de 23 anos a pecha de “folgado”. E aí Beck precisava provar também que poderia ser outra pessoa.
O veredito da Rolling Stone foi repetido em revistas de outro lado do Atlântico. A New Music Express concordou que Odelay havia sido o melhor álbum do ano. A Melody Maker premiou Beck como o melhor artista solo. Álbum e artista voltaram a se destacar no Grammy e no BRIT Awards. Odelay é até hoje o álbum de maior sucesso do artista, com cerca de 3 milhões de cópias vendidas.
E a carreira de Beck não é curta. São 14 álbuns de estúdio, o último deles lançado em 2019. Em 2026, uma compilação de versões, Everybody’s Gotta Learn Sometime, atesta a vitalidade do compositor, produtor e multi-instrumentista, que acumula colaborações com muitos artistas.
Nessa carreira, houve muitas mudanças de direção, às vezes de um álbum para o outro, como mostra o contraponto de Odelay com seus sucessores imediatos: Mutations (1998), Midnite Vultures (1999) e Sea Change (2002). Tais mudanças levantam mais perguntas: seria Beck um gênio camaleônico comparável a um Bowie, demiurgo de novos mundos para o rock? Ou seria um vampiro incapaz de assumir um estilo, uma identidade, animado por um pacto demoníaco que lhe garante eternamente a aparência juvenil?
Ponto alto de seu trajeto, Odelay pode ser tomado como o foco que alimenta essas perguntas, além daquela contida na estupefação do crítico da Rolling Stone. Nos seus trinta anos, ousemos confabular sobre o enigma cheio de camadas lançado por Beck em 1996. Para as informações, nosso principal guia é o livro de Rob Jovanovic.
Melhor morto do que vivo
A história musical de Beck começa a ser construída na paixão que o então adolescente de Los Angeles desenvolve pelo folk, pelo blues e pelo country tradicionais. Ela tem continuidade com a mudança mochileira para Nova York, onde se junta à cena “anti-folk” (que apesar do nome tinha como objetivo recuperar as raízes do gênero), acompanha os desdobramentos do punk e se aproxima do hip hop. Foi nessa época que conheceu Jon Spencer, que participa e co-produz a última das faixas de Odelay.
Beck retorna a Los Angeles em 1980 e se torna um frequentador de circuitos alternativos, aperfeiçoando sua verve acompanhado apenas de um violão e uma gaita. Alguns contatos levam à gravação de “Loser”. E a repercussão do single leva ao contrato com a Geffen, no qual Beck negociou que poderia lançar composições “não comerciais” por meio de outros selos.
Assim, 1994 não foi apenas o ano do lançamento de Mellow Gold, o antecessor de Odelay pela Geffen. Vieram também a público Stereopathetic Soul Manure (Flipside Records), One Foot In The Grave (K Records) e A Western Harvest Field By Moonlight (Fingerpaint Records). O conjunto das gravações expressava, de modo pouco organizado, as encruzilhadas atravessadas por Beck em todos aqueles anos de formação.
Odelay, a princípio, não apontava para grandes mudanças. No entanto, a experiência de ter uma banda na turnê de Mellow Gold provocava o jovem a ir além. Decisivo mesmo foi o encontro, em janeiro de 1995, com os Dust Brothers, como era conhecida a dupla Michael Simpson e John King.
Simpson e King começaram a trabalhar juntos em 1985 em um programa de rádio sobre hip hop na Califórnia. A colaboração adentrou a esfera da composição e da produção, culminando com a colaboração com os Beastie Boys em seu segundo álbum, o aclamado Paul’s Boutique (1989). Antes de cruzarem os caminhos de Beck, os Dust Brothers produziram uma faixa para a They Might Be Giants (no álbum Back to Skull, 1994). Na sequência, celebrizaram-se com remixes de faixas de Ben Harper (1994), Filter (1995), Korn (1995) e White Zombie (1996) e com a trilha sonora de O Clube da Luta (1999). O trio voltaria a se encontrar em Guero (2005).
O estúdio dos Dust Brothers ficava na casa onde moravam em Los Angeles, não muito longe de onde vivia Beck. As sessões de gravação e mixagem se distribuíram ao longo do ano, revezando-se com os shows. Naquele 1995, Beck apresentou-se em festivais europeus e participou do Lollapalloza, então ainda em sua edição itinerante pelos Estados Unidos.
Em 14 faixas, Odelay coloca lado a lado músicas com riffs rockeiros (“Devil’s Haircut”, “Novacane” e “The New Pollution”) e outras que são celebrações do hip hop oitentista (“Where It’s At”, “High 5” e “Diskobox”). O country, o folk e o blues estão bem presentes (“Hotwax”, “Lord Only Knows” e “Sissyneck”), as raízes desses gêneros ainda reconhecíveis na roupagem moderna resultante da produção. Os climas oscilam, em seus extremos, do quase punk de “Minus” para o quase acústico de “Ramshackle” e “Jack-Ass”, deixando ainda lugar para o quase industrial (“Derelict”) e o quase experimental (“Readymade”).
Mas essa enumeração está longe de fazer justiça ao que escutamos em Odelay. Pois a maior parte das faixas contém samples retirados da tal “coleção de discos absurdamente eclética” mencionada pela Rolling Stone. Juntando vinis dos acervos de Beck, Simpson e King, a garimpagem rendia achados cirurgicamente enxertados. O trabalho no estúdio permitiu combinar elementos de noise rock com delicados instrumentos orientais, música clássica com drumbeats de muitas origens…
O mosaico é praticamente infinito, se nos dedicarmos a comentar as colagens e seus resultados ou se percorrermos as citações a que remetem cada sample (que vão bem além daqueles creditados no encarte). Façamos um exercício com as cinco faixas que foram lançadas como singles, entre 1996 e 1997.
“Where It’s At” começa com um clima retrô sugerido pelo órgão, mas que é logo temperado por uma batida hip hop. Beck canta um quase rap e no refrão rola a celebração hip hop. A frase “dois toca-discos e um microfone” vem diretamente dos anos 80. Antes da música chegar na metade, entra uma dupla de metais. Até o final, os vários ingredientes vão disputando espaço com scratchs, ruídos, microfonias, uma guitarra ensandecida e vozes com efeitos – e muitos outros samples. O videoclipe mistura dança country com citações a Captain Beefheart.
“Devils Haircut” é embalada pelo riff de um garage rock sessentista, “I Can Only Give You Everything”. Beck canta rapeando as estrofes, em contraste com o refrão, bem pop. Outros samples marcam algumas paradas, com destaque para o trecho de “Soul Drums”, de Bernard Purdie (1967). A música aproxima-se do final com o acréscimo de uma gaita blues. Mas só termina mesmo com vocais guturais e microfonias. No videoclipe, Beck caminha por cenários nova-iorquinos vestido como cowboy e carregando um 2em1 que é marca registrada do hip hop.
“The New Pollution” surrupia sua batida de “Hallelujah, Alright, Amen”, de Gus Poole (1970). Antes dela entrar, há um coro que, no videoclipe, remete a hinos religiosos protestantes. O clima é de novo retrô, com uma guitarra discreta porém essencial. O vídeo homenageia o rock sessentista, com a banda da turnê como protagonista. Outro sample vem de “Venus”, de Joe Thomas (1976), uma frase de sax que acrescenta outro clima à música, acompanhando-a até o final meio futurista.
“Sissyneck” começa com o assobio sampleado de uma música instrumental de Dick Hyman e segue com um riff funky emprestado de outra música dos anos 60. O country dá o tom geral, inclusive na presença de um pedal steel. Há ainda elementos eletrônicos, que estão dispersos pelo álbum, mas ganham o protagonismo no final de “Novacane” e em “High 5”.
Já em “Jack-ass”, apesar do videoclipe fazer uma homenagem a Willie Nelson, ídolo do country, a referência é o folk. O clima é intimista, o que não impede que zurros invadam a música quando está terminando. O violão contracena com um sample dos teclados usados pela Them na sua versão para o clássico de Bob Dylan, “It’s All Over Now, Baby Blue”. Aliás, há quem faça aproximações entre Beck e Dylan, e os dois estiveram efetivamente juntos em um show de 1997. No ano anterior, Beck pode ser visto, com seu violão e sua gaita, abrindo para apresentações da Sonic Youth.
O encarte de Odelay é preenchido de colagens tão inusitadas quanto um encontro entre Dylan e Sonic Youth. Há citações ao trabalho do avô de Beck, Al Hansen (falecido em meio às composições para o álbum), e também um retrato do artista com motivos psicodélicos. Mas o que domina são recortes das pinturas macabras e intensas do filipino Manuel Ocampo. Ocampo viveu em Los Angeles em um período durante o qual pode ter cruzado com Beck.
Entre as ilustrações, há a palavra “órale”, que os mexicanos conhecem bem – incluindo Beck, pois sua mãe teve um segundo casamento com um chicano. Com um mal-entendido, acabou virando o nome do álbum, cuja capa traz uma foto retirada de uma revista de cinofilia (sim, é um cachorro pulando o obstáculo!). Mas o “órale” aparece em “Lord Only Knows”. O refrão de “Hotwax” também recorre ao espanhol, como já havia acontecido em “Loser”.
As letras de Beck em Odelay são parte de seu enigma. Artista verborrágico, ele está pouco interessado em ser claro ou direto. Mesmo assim, é possível perceber um diálogo com os estilos musicais presentes nas sonoridades, em especial o hip hop, o blues e o country. Beck é um inventor de frases de efeito, flertando com o surrealismo – o que dá sentido à colaboração com Michel Gondry em um videoclipe de 1997.
Para a turnê de Odelay (meados de 1996 a inícios de 1998), Beck esteve acompanhado de quatro músicos – adiante, um DJ se juntou à trupe. Era uma banda nova, com exceção de Joey Waronker, baterista que esteve na turnê anterior e colaborou em cinco faixas de Odelay. O repertório incluía frequentemente “Beercan”, a faixa de Mellow Gold que mais prenuncia seu sucessor. Nela participou Mike Boito, multi-instrumentista que tocou em três faixas de Odelay. Mas a maior parte das execuções na gravação do álbum coube mesmo a Beck.
Impressiona o desembaraço da banda para verter as criações do estúdio para o palco. Nos shows mais longos, Beck incluía um set acústico, com músicas de seu material “não comercial”. No restante, divertia-se em coreografias com a banda e em mudanças de figurino, inspiradas umas e outras em filmes de Hong Kong e programas de TV mexicana. Outra referência é a do pregador religioso (ocupação do avô paterno de Beck), esbanjada na antológica apresentação da banda para uma série de shows da TV estadunidense.
Quando Beck desembarcou no Brasil pela primeira vez, para participar do Rock in Rio em 2001, já acumulava mais dois álbuns. Contudo, mais da metade do set do show veio de Odelay. A passagem não teve muita repercussão. Foi sintomático o incidente no aeroporto, quando Beck foi confundido com Axl Rose…. Até hoje o público brasileiro que o segue é limitado.
A recíproca não é verdadeira, pois Beck aprecia bastante a música brasileira, como ficou escancarado em “Tropicália”, um dos destaques de Mutations. Antes, a bossa nova já aparecera em “Deadweight”, contribuição para a trilha sonora de Uma Vida Menos Ordinária (1997). E mesmo em Odelay, com os samples de “Desafinado” (na versão de Laurindo Almeida and The Bossa Nova All Stars) em “Readymade”. Podemos também colocar na conta das relações com o Brasil as colaborações com Mario Caldato Jr. (que co-produziu “Minus” e remixou “Where It’s At” e “The New Pollution”), renovadas no mais recente lançamento de Seu Jorge (The Other Side).
Como explicar a pouca atenção do público brasileiro ao trabalho de Beck, mesmo no seu ponto mais alto? Talvez em meados da década de 1990 estivéssemos nós mesmos entretidos com sermos protagonistas de misturas musicais. Tais protagonistas garimpavam por matérias primas, contornando outros processadores. É curioso constatar que “A Minha Menina”, dos Mutantes, foi sampleada tanto por Beck (em “Deadweight” e “Nicotine & Gravy”), quanto por Chico Science & Nação Zumbi (em “Macô”).
De todo modo, a sensibilidade para as misturas aponta para algo compartilhado – e é preciso acrescentar ao quadro as explorações do pessoal do trip-hop britânico! Nos três casos, ou seja, nas vertentes mais inovadoras e mais interessantes de cenas musicais nos Estados Unidos, no Brasil e na Grã-Bretanha, o desafio era reinventar o formato canção considerando ou mesmo partindo da lógica criativa do hip hop, com suas colagens e releituras, e reverenciando gêneros musicais do passado, quase sempre negros.
Em se tratando de Beck, o tema da autenticidade vem à pauta. Odelay desponta como uma recusa ao culto pós-grunge e pós-britpop de “bandas de verdade”. O lance é criar com dois toca-discos e um microfone! Por outro lado, as condições da criação não são uma questão superada. É a trajetória pessoal e musical de Beck que lhe permitiu acessar e manejar os elementos que suas composições processam.
Além de soar muito bem aos ouvidos, Odelay nos convida a uma reflexão sobre o tempo. Em mais de uma faixa escutamos o chiado da agulha sobre um vinil, como a nos lembrar que ali os instrumentos não são os protagonistas. A criação vem de outro lugar e exige outras competências. Em certo sentido, Odelay é um dos sinais do fim do rock as we knew it. Depois de 1996, o futuro só poderia ser ancestral.
Nota: a edição Deluxe de Odelay traz muito material extra. Destaque para “Inferno” e “Gold Chains”, que saíram das mesmas sessões com os Dust Brothers; para “Thunder Peel”, que prova que Beck, se quisesse, poderia soar como Kurt Cobain; e para “Burro”, uma versão mariachi em espanhol de “Jack-ass”.

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).
