Por que raios ninguém lembra do Culture Club?
Quando a música pop dos anos 1980 ainda tentava entender as mudanças deixadas pelo punk, o Culture Club surgiu como uma novidade que desafiava todas as regras da época. No centro de tudo estava Boy George, cantor e showman de presença marcante cuja imagem andrógina causava um enorme rebuliço. Era muito comum, ao vê-lo na televisão, que as pessoas ficassem na dúvida se ele era homem ou mulher: os traços delicados, a maquiagem pesada, as tranças e as roupas diferentes criavam um mistério que deixava o público entre a curiosidade e o deslumbramento. George fazia mais que cantar; ele transformava sua imagem em um enigma, misturando o masculino e o feminino e forçando a sociedade a lidar com uma beleza que não se encaixava nos padrões tradicionais.
A trajetória do grupo ao longo daquela década é, por isso, uma das histórias mais fascinantes da música. O quarteto original era formado por George Alan O’Dowd (o Boy George) nos vocais, Roy Ernest Hay na guitarra e teclados, Michael Emile Craig no baixo e Jonathan “Jon” Moss na bateria. Em uma época dominada pelos sintetizadores e por produções mais frias, eles se destacaram ao criar um som vivo, orgânico, misturando soul, reggae e Motown. O grande segredo do grupo era, na verdade, a voz de Boy George. Colocá-lo como um dos cinco maiores cantores de pop rock da década não é nenhum exagero: ele tinha um timbre rico, muita emoção e uma capacidade única de transformar melodias simples em histórias intensas. É essa qualidade que muita gente esquece, focando demais no visual e esquecendo a excelência musical que sustentava a banda.
Não bastasse o talento de Boy, o Culture Club era uma bem azeitada unidade de composição de canções perfeitas. O início dessa jornada foi em 1982 com o disco “Kissing to Be Clever”, que mostrou ao mundo uma identidade muito própria. Ao misturar ritmos jamaicanos com a elegância do pop britânico, a banda lançou “Do You Really Want to Hurt Me”, uma música que virou um manifesto de vulnerabilidade em uma época em que não era comum ver homens expondo seus sentimentos. Mas o melhor ainda estava por vir. Também provou que sabia fazer dançar com o outro hit,”I’ll Thumble 4 Ya”. Lançado em 1983, “Colour by Numbers” é, ao mesmo tempo, o ponto alto da carreira deles, e um dos melhores álbuns de toda a década. Produzido por Steve Levine, o disco tem faixas perfeitas e cada canção brilha em arranjos caprichados e uma pegada que equilibra momentos dançantes com baladas profundas. Músicas como “Church of the Poison Mind” e “Karma Chameleon” mostram o talento da banda, mas o disco vai muito além: “It’s a Miracle” é pura Motown, com arranjo matador de metais e backin vocals numa onda divas soul, “Miss Me Blind”, cujo clipe de motivos japoneses é antológico, traz uma sofisticação pop notável e “Victims” permanece até hoje como uma das baladas mais lindas e emocionantes dos anos 80.
Com o tempo, o ambiente interno começou a esquentar. O relacionamento entre Boy George e o baterista Jon Moss, que era um segredo aberto na banda, virou um problema emocional que acabou enfraquecendo o grupo. “Waking Up with the House on Fire”, de 1984, mostrou uma tentativa de experimentar coisas novas, como no polêmico single “The War Song”, que ganhou diversos remixes para as pistas de dança. Nessa época, eles também lançaram “Love Is Love”, um sucesso global que confirmou o talento de George para criar hinos que conectavam pessoas no mundo todo, sem falar no sucesso de Mistake Number 3″, outra balada de tinturas soul pop perfeitas. Já em 1986, com “From Luxury to Heartache”, o som ficou mais refinado, flertando com o funk, enquanto o hit “Move Away” tentava manter o sucesso. Porém, o cansaço era visível, já que eles viveram quatro anos sob um holofote muito intenso. Pouco depois, as brigas internas levaram à pausa da banda e ao início da carreira solo de Boy George com o álbum “Sold” (1987), que, embora fosse bom, não alcançou a mesma força do Culture Club. A faixa-título, uma porrada na política de (des)emprego de margaret thatcher e “Everything I Own”, uma versão reggae do sucesso setentista do grupo americano Bread, foram os hits.
Depois de Sold (1987), Boy George mergulhou em uma jornada de redescoberta que, embora tenha passado por momentos de instabilidade, mostrou grande força. Nos anos 1990, ele se reinventou como DJ e produtor, tornando-se uma figura respeitada na cena dance e clubber europeia, o que lhe permitiu manter uma conexão real com a música, longe do circo midiático que o cercou na década anterior. Ele lançou diversos projetos, como a banda Jesus Loves You — que flertava com o acid house e a espiritualidade —, provando que sua voz e seu talento para a composição ainda estavam afiados, mesmo que fora dos grandes holofotes do mainstream. Enquanto isso, os outros membros do Culture Club seguiram rumos distintos. Roy Hay mudou-se para os Estados Unidos e consolidou-se como compositor de trilhas sonoras e produtor, mantendo-se mais reservado. Jon Moss continuou envolvido em projetos musicais e na gestão de carreiras, enquanto Mikey Craig buscou novas aventuras musicais e projetos de produção.
A grande reviravolta aconteceu em 1998, quando o quarteto original se reuniu para uma turnê mundial e lançou o bom álbum “Don’t Mind If I Do”. O reencontro foi um sucesso de público, reacendendo a chama e provando que, apesar das cicatrizes deixadas pelo tempo e pelos conflitos dos anos 1980, a química musical entre eles ainda era única. Desde então, a banda passou por várias idas e vindas — com momentos de harmonia intercalados por novas desavenças e batalhas judiciais, especialmente envolvendo a saída e o retorno de Jon Moss. Por exemplo, o álbum “Life”, de 2018, o último de material inédito lançado pela banda, não contou com a participação do baterista, mas é um trabalho que soa como uma reconciliação honesta com as raízes que os fizeram gigantes: o soul, o reggae e o pop ensolarado.
O fato de o Culture Club ser frequentemente esquecido nas listas de melhores dos anos 80 parece vir dessa confusão entre a imagem chamativa da banda e a sua qualidade musical. O jeito de ser de Boy George — que desafiou preconceitos e trouxe a diversidade para o centro da cultura pop — acabou sendo o foco de uma crítica mais conservadora, que preferiu dar atenção ao sensacionalismo e às brigas do que reconhecer a complexidade das músicas do grupo. Olhando para trás sem preconceito, percebemos que o Culture Club foi um dos pilares de um novo jeito de fazer pop: uma música que, sem pedir desculpas pela extravagância, abraçava a humanidade e a diversidade como suas maiores marcas. Resgatar esses discos hoje é reconhecer que eles foram pioneiros de uma liberdade que hoje parece normal, provando que a alma, quando cantada com tanta verdade, é o que faz uma obra ser eterna.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
