A Luta de Classes na Obra de Adoniran Barbosa
Apesar de ser um gênio, é pouco provável que, algum dia, Adoniran Barbosa tenha lido qualquer obra de Karl Marx e Friederich Engels. No entanto, poucos artistas da música popular brasileira evidenciaram tanto o conceito de “Luta de Classes” em sua obra. Desde “Saudosa Maloca”, “Mulher, Patrão e Cachaça”, “Torresmo à Milanesa” até “Trem das Onze”, “Aguenta a Mão, João”, “Abrigo de Vagabundo”, “Despejo da Favela” e “Vide Verso Meu Endereço”, são raros os compositores que abordaram tanto este tema como o saudoso João Rubinato, nome verdadeiro de Adoniran.
Quando Marx e Engels escrevem em “A Ideologia Alemã”, que “a estrutura social se limita a uma extensão da família tais como: os chefes patriarcais, e abaixo deles os membros da tribo e, por fim, os escravos”, dividindo a sociedade então em classes sociais, parece nítido que Adoniran compõe para as pessoas oprimidas pelo sistema. É preciso, porém, uma contextualização temporal. “A Ideologia Alemã” foi publicada em 1932, e seus autores estavam pensando ainda nas três formas de divisão de trabalho e de propriedade: tribal, antiga e feudal.
Vamos pegar, por exemplo, um trecho da letra de “Torresmo à Milanesa”. Trata-se de uma composição em que trabalhadores da construção civil perguntam uns aos outros o que trouxeram para o almoço. Após relatarem o que cada um trazia em sua marmita, o personagem principal faz um desabafo: “O mestre falou que hoje não tem vale não / Ele se esqueceu /Que lá em casa não sou só eu”. E arremata: “Para o mestre sempre tem”. Temos aí, mesmo que involuntariamente, o típico exemplo da divisão de trabalho, onde o mestre de obras explora seus subordinados. Quer mais?
Voltemos a Marx e Engels: “A estrutura social e o Estado decorrem constantemente do processo de vida de determinados indivíduos”. Isto se encaixa perfeitamente na história do narrador e dos amigos “Mato Grosso” e “Joca” no clássico “Saudosa Maloca”. Os três têm o barracão derrubado através de uma ordem judicial. “Mas um dia nem quero me lembrar / Veio os homens com as ferramentas / o dono mando derrubar”. Ou seja, através de uma ordem do Estado, os três amigos ficam desabrigados. E eles ainda se conformam com a situação: “Mato Grosso quis gritar /mas em cima eu falei / Os homens está com a razão / Nós arranja outro lugar”. Se “A Ideologia Alemã” foi publicada pela primeira vez em 1932, “Saudosa Maloca” foi lançada em 1955. Alguma coisa mudou? Os pobres continuam, até hoje, perdendo seus barracos no atropelamento do capitalismo em puro processo de gentrificação. No lugar dos barracos, serão construídos edifícios, muitas vezes de luxo. E a população mais carente que se dane e forme uma outra comunidade em outro lugar qualquer. De preferência, claro, bem longe dos centros mais abastados das metrópoles. Ou, recorrendo novamente a Marx e Engels, “tais indivíduos vivem em determinados limites cujas premissas e condições materiais não dependem da sua vontade”.
Um exemplo claro disso também é narrado em “Despejo na Favela”, cuja letra diz: “Quando o oficial de justiça chegou/ Lá na favela /E contra seu desejo /Entregou pra seu Narciso /Um aviso, uma ordem de despejo / Assinada, seu doutor / Assim dizia a petição /’Dentro de dez dias quero a favela vazia / E os barracos todos no chão / É uma ordem superior’”. E vamos de Marx e Engels de novo: “De modo nenhum se pode libertar os homens enquanto estes não estejam em condições de adquirir comida e bebida, habitação e vestuário na qualidade e na quantidade perfeitas”.
Em seu português propositalmente errado, Adoniran representou como ninguém essa classe periférica e abandonada pelo poder público.
O próprio Adoniran teve muita dificuldade em ser reconhecido como um artista de primeira grandeza. A intelectualidade o desprezava, tratando-o como um compositor qualquer, dono de uma obra menor e inferior.
Essa situação só mudou quando o crítico literário e sociólogo Antônio Cândido declarou publicamente ser um grande admirador de Adoniran, chamando-o de “um poeta urbano profundo”, e referindo-se a ele como “a voz da cidade de São Paulo”. Este texto foi escrito no lançamento do disco em comemoração aos 70 anos de Adoniran Barbosa, “Adoniran e Convidados”, em 1980. O texto de Cândido, escrito cinco anos antes do lançamento do álbum comemorativo, dizia, entre outras coisas: “Com os seus firmes 65 anos de magro, Adoniran é o homem da São Paulo entre as duas guerras, se prolongando na que surgiu como jiboia fuliginosa dos vales e morros para devorá-la. Lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante da sua anti-voz rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta dos outros tempos, ele é a voz da Cidade”.
Enfim, o próprio Adoniran deixou de ser um artista oprimido e periférico para ganhar a luta de classes que travava em sua própria vida com a classe dominante da intelectualidade brasileira. Vez ou outra, a classe operária, inclusive a artística, vai ao paraíso.
Fãs de Adoniran de todo o Brasil: uni-vos!

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
