Rock In Rio 2019 – Pink e Orquestra Funk

 

No dia 05/10, não estivemos na Cidade do Rock. Como a Célula Pop ainda é pequena – apesar de estar crescendo rapidamente – não deu pra conseguir credenciamento para todos os dias. Escolhemos então 28 de setembro, 3 e 6 de outubro para presenciar os shows in loco e fazer uma cobertura especial, que vocês estão lendo e curtindo, tenho certeza. Tenho acompanhado, via televisão e internet, o restante do festival e notado detalhes bem interessantes que me fazem pensar num exercício constante na crítica musical: nunca devemos escrever apenas sobre o que gostamos. Por exemplo, a Pink. Eu acho que sua carreira é vazia de valor estético, faz música pop absolutamente genérica, na esteira de gente mais talentosa, num hall de influências que vai de Blondie a Madonna e Cyndi Lauper, chegando em Gwen Stefani e seu No Doubt. Mas isso sou eu. A julgar pelo show da cantora americana, encerrando o dia 05 de outubro, Pink tem uma legião de admiradores e isso faz um total sentido.

 

A apresentação começou com Pink suspensa por elásticos, dando a impressão que estava pendurada num lustre cenográfico. Enquanto ia e vinha, a banda executava uma de suas canções mais familiares, “Get The Party Started, que é de autoria de Linda Perry, cantora daquela banda 4 Non Blondes, que fez sucesso avassalador com a terrível “What’s Up”, em 1993. Na guitarra, um cabeludo genérico. No baixo, uma moça magérrima com visual dark. Duas vocalistas de apoio negras. Um baterista louro platinado de óculos escuros, além de tecladistas ocultos e vários bailarinos. “A voz da moça não vai durar cinco músicas” pensei e postei no Facebook.

 

Mas não. Ainda que as canções da Pink sejam, de fato, genéricas e derivativas, fui percebendo, na minha condição de não-fã da cantora, que elas despertavam uma reação intensa nos fãs presentes ao show. Logo vi, pelas letras que consegui pescar à medida em que as canções se sucediam, que Pink fala diretamente aos públicos feminino e LGBTQ+, além de uma legião de pessoas com problemas de aceitação diversos. Logo, uma artista assim, fechando uma noite de Rock In Rio, tornou-se imediatamente necessária e bem-vinda. Aos poucos, Pink foi demonstrando que estava muito feliz por estar ali, diante das pessoas. Desceu do palco, pegou os mimos que os fãs levaram para ela, parecendo, de fato, muito simpática e acessível. Lembrei de Anitta, presente no mesmo Palco Mundo horas antes, agradecendo a si mesma por estar ali. Um abismo separa artistas como Pink de artistas como Anitta.

 

Pink continuou dando tudo, a voz não acabou até o fim do show. Ela dançou, pulou, fez set acústico e, num momento que lembrou o Cirque de Soleil, voou por sobre o público numa engenhoca de elásticos e impulsos, que ficou belamente oculta na noite, dando a impressão que a cantora estava, de fato, rodopiando livre sobre os presentes. Antes disso, Pink já havia dado o microfone para um jovem perto da grade, que pediu seu namorado em casamento diante do público, com as bênçãos da cantora. Vejam, em 2019, sob o governo mais conservador e lamentável da história do Brasil, atos como este são absolutamente corajosos e importantes.

 

Pink não me despertou vontade de ouvir seus discos – já conhecia alguns, especialmente o badalado ‘M!ssundaztood”, de 2001 e o “Try This”, de 2003, mas o show da moça não tem a ver com a música, mas com a atitude. Certamente foi uma das apresentações mais legais e bem feitas desta edição do Rock In Rio.

 

Falando em show necessário, a meu ver, a melhor apresentação de ontem se deu no Palco Sunset, com a impressionante Orquestra Funk. Durante cerca de uma hora, um grupo de músicos, dois DJ’s e convidados como Buchecha, Fernanda Abreu e Ludmila, desfilaram uma sucessão de medleys de sucessos dos bailes, marcando o 30º aniversário do funk carioca, levando-se em conta o lançamento da primeira coletânea do estilo em vinil, pelas mãos do DJ Marlboro, em 1989.

 

Se estamos louvando a representatividade do show da Pink, esta apresentação da Orquestra Funk consegue aliar um levantamento histórico de vários sucessos dos bailes, de “Rap da Estrada da Posse” a “Onda Diferente”, de “Rap da Felicidade” a “Bonde do Tigrão”, num senso de pertencimento estético que faz jus a uma linha cronológica marcada por muita batalha e trabalho de artistas, radialistas, divulgadores e poucos – porém tenazes – jornalistas.

 

Vejam o funk carioca é algo absolutamente autêntico e popular. Nasceu nas comunidades do Rio, no improviso, na batalha constante, sem apoio e sem dinheiro. Cresceu pelas mãos de seu público e foi constantemente atacado de todas as formas pelo sistemão. Nada mais justo que vê-lo lembrado numa tarde de Rock In Rio, com uma multidão de milhares de pessoas cantando e dançando sob o sol. Num tempo em que as autoridades só enxergam as favelas como alvo de sua fuzilaria, mostrar como o funk é arraigado culturalmente no Rio e região, só mostra o quanto seria sensacional se estes governos, em vez de metralhar as populações, destinassem recursos para fortalecer a cultura e dar aos jovens mais oportunidades de emprego e realização pessoal. China, na cobertura do Multishow, disse o mesmo, emocionado, admitindo não ser uma pessoa do funk, mas que reconhecia a importância do momento.

 

As apresentações de Orquestra Funk e Pink também suscitaram – além de Anitta e Black Eyed Peas – vários coros de “ei, bolsonaro, vai tomar no c…”, mostrando que os públicos desses artistas consideram importante a questão política atual, ao contrário das plateias do rock pesado e do rock alternativo, emudecidas e ensimesmadas, certamente horrorizadas com um dia inteiro dedicado a artistas pop, como foi o dia 05 de outubro. Pois foram os artistas pop, do alto de suas posições de protagonismo na música atual, que levaram adante, com orgulho, a tradição de cutucar o sistema. E isso TEM que ser feito.

 

Parabéns para Pink, Orquestra Funk, Projota – que fez um belo show – e todos os presentes.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Rock In Rio 2019 – Pink e Orquestra Funk

  • 6 de outubro de 2019 em 16:26
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    Bem, de onde estive, tanto no Anthrax quanto no Maiden, teve “vai tomar no cu” para o chefe do Executivo. Mas como indagou, lá, meu cabeludo primo; professor de Geografia da rede pública: “Agora!? Há 30 anos que esse cara taí … tomamos todos nós! “

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