Zé Manoel – Do Meu Coração Nu

 

Gênero: MPB, alternativo

Duração: 37 min
Faixas: 11
Produção: Luisão Pereira
Gravadora: Joia Moderna / ONErpm (distribuição digital) / Passa Disco

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

A arte é uma das formas mais importantes de comunicação, sobretudo por não ter fronteiras. E é isso que Zé Manoel faz na sua obra “Do Meu Corpo Nu”, ele comunica o recorte dessa história tão antiga vivida no agora. Produzido pelo músico, compositor e produtor musical baiano Luisão Pereira, o disco conta uma história calada dos negros. E quando não calada, escrita pelo homem branco dominador, onde ser negro é ser alvo.

 

 

Zé Manoel é sem dúvidas um dos nomes mais importantes da música feita aqui, com piano sofisticado e silêncios que comunicam, o álbum é composto por 11 músicas e conta com participações de Beatriz Nascimento, Grupo Bongar, Luedji Luna, Bell Puã, Gabriela Riley e Letieres Leite.

 

 

“História Antiga” abre o álbum e relata essa história que dá vontade de chorar, a história de um país genocida, os 80 tiros que tiraram a vida de um homem, marido, amigo. Preto. Respira fundo pois a faixa é pra mergulhar nessa história antiga que é tão nosso mundo atual que extermina povos indígenas e negros. Ainda somos os mesmos, diria o poeta.

 

Houve um tempo triste

Em que os olhos

Não sabiam enxergar a nossa dor

Mas viam a nossa cor

Uma história tão antiga em 2019

De uma civilização antiga

De 2019

 

O álbum canta a ancestralidade africana em um canto de quem foi calado. São estrofes de um poema que foi atingindo com sangue. O músico e compositor pernambucano consegue com todo detalhamento, encantamento e força vibrar em homenagem e memória. Rio de Lembranças nos carrega para navegar pelas águas junto à figura materna das águas doces, Oxum. A segunda faixa começa com um piano que vai crescendo e traz a participação do Grupo Bongar e da banda percussiva do terreiro Xambá.  É o despir-se dos medos, daquele pescador que não sabe remar, do medo de se perder e não ter quem vá buscar. Aqueles medos que só temos coragem de revelar às mães.

 

 

Em “Escuta Beatriz Nascimento” o piano preciso de Zé vai se elevando nos primeiros dois minutos e acompanha a fala de Beatriz extraída do documentário “Negro, Da Senzala ao Soul”, reportagem de Gabriel Priolli Netto e Armando Figueiredo Neto. Impossível não se emocionar.

 

“A história do Brasil é uma história escrita por mãos brancas. Tanto o negro quanto o índio, povos que que viveram aqui juntamente com o branco, não tem a sua história escrita, ainda. E isso é um problema muito sério, porque a gente frequenta universidade, frequenta escola e não se tem uma visão correta do passado da gente, do passado do negro. Então ela foi somente omissa, foi mais terrível ainda, porque da parte que ela não foi omissa, ela negligencia fatos muito importantes e deforma muito a história do negro.”

 

A barbárie segue tão atual e por isso discos como “Do Meu Coração Nu” são registros históricos importantes com o propósito de não deixar ruir o pouco que restou da história dos negros e também expor a crueldade de um mundo de preconceitos e violência. Síntese do álbum Notre Histoire” é uma parceria com o baterista, cantor e compositor francês Stephane San Juan, conta com a bateria de Sérgio Reze, Kassin na guitarra, Diogo Gomes no flugelhorn, Jorge Continentino no sax e flauta e arranjo de sopros de Alberto Continentino. A música afeta e brilha.

 

“Não Negue Ternura” é sobre o amor e o afeto negros. O afeto entre aqueles que sabem que o corpo guarda tanta coisa, calos, ferimentos, dores, mas sobretudo ternura. Com a composição e interpretação de Luedji Luna, a canção envolve em um suspiro de calor e amor.

 

“Prelúdio para iluminar o Rolê” conta com Bell Puã e é a narrativa daquele que sabe que tem que carregar identidade no bolso, não usar boné ou capuz. É uma benção, uma reza, para que o retorno até a casa seja macio e que a bala perdida se perca mais ainda. A faixa que segue, Para Iluminar o Rolê, é um pedido de proteção ao nossos que estão nas ruas escuras

 

Eu só queria saber

Se na Consolação

Na Brasilândia

Ou no ABC

Onde andará você

Noite fria e sem Lua

Queria ser o Sol

Te iluminar e aquecer

Só me resta pedir

Que Deus proteja o seu rolê

 

 

Toda música brasileira é afro-brasileira. “Escuta Letieres Leite” é o reconhecimento de que o Brasil é preto, mas insiste em enterrar as raízes, ou queimá-las. Zé Manoel consegue concretizar um álbum que é registro de um passado apagado e em 37 minutos sintetiza o que é ser negro na atualidade.

 

Ouça primeiro: “História Antiga”, “Pra iluminar o seu Rolê”

 

+2

Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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