Entrevista – Luisa Maita

“Não adianta fingir que não existe musica pop” – Luisa Maita

Luisa Maita é dessas moças paulistanas que te chamam alegremente de “mano”. É um sotaque adorável, que anuncia um grande talento brasileiro, ainda com muito espaço pra conquistar. Sua carreira conta com dois álbuns, “Lero-Lero” e “Fio da Memória”, que ela enxerga como dois lados de uma moeda e já apresentaram seu nome lá fora. Especialmente com o segundo, mais eletrônico e cosmopolita, Luisa excursionou no exterior e ganhou elogios dos colegas da imprensa internacional.

Agora, num período de criação e assimilação das realidades da vida política brasileira, batemos um papo com tempo para falar de vários assuntos.

 

– Pra começar: como é resistir como artista independente num país como o Brasil?

Como vim de uma família de músicos, sabia o que vinha pela frente antes de iniciar minha profissão de cantora. Vi muitas pessoas próximas com dificuldade de viver de música. Quando tinha mais ou menos 19 anos tentei fazer cursinho umas 3 vezes e trabalhava em gravadoras independentes e quando entrava em algum trabalho como cantora paralelamente (que já rolava nessa época), me vinha um desespero e uma vontade de sair correndo pra música. Realmente não tinha outro jeito, me sentia sufocada num trabalho em escritório ou numa sala de aula. Tinha essa imagem de querer transcender na música. A espiritualidade sempre esteve presente na música pra mim, ouvia muito Milton Nascimento e Elis Regina, samba. Então o palco e a música eram lugares espirituais pra mim.

É dificil viver da música desenvolvendo um caminho artístico. Somos oprimidos de várias maneiras. Pela música americana, por essa forma de transformar música em produto e qualquer coisa valer, jabás e o fato de que a maior parte do povo brasileiro mora no interior e não tem ideia dessa música que faço.

Por outro lado, além da música brasileira, gosto muito desse conceito de cultura de massa, gosto muito dessa estética moderna, da urbanidade. Gosto dessa expressão extasiante da música pop-O ser-humano na sua mais alta potência. Adoro isso. E nesse sentido acabo sendo inspirada por esse universo que tem um lado comercial e que tem um caminho no mundo hoje. Mas não é fácil.

– Sua estreia foi em 2010, com “Lero-Lero”. Como foi lançar esse disco? O que você estava ouvindo na época?

Desde muito nova tenho uma relação muito próxima com o samba. Nasci entre o Grajaú e o Bixiga. No Grajaú, morava num sítio lindo, “meio roots” na extrema zona sul de SP e o sítio em volta era rodeado de favela. Até os 12 anos de idade, saia do sitio e via a Igreja Universal, chão de terra, as escolas públicas, enfim a periferia e ia pra uma escola judaica super elitista no centro de SP. Minha cabeça se formou aí. Foi muito louco pra mim, pois eram pontos de vista muito opostos.

“Lero-Lero” é um disco sobre o meu amor pela periferia de São Paulo e pela cultura negra ocidental. O disco traz esse lado feminino e masculino do brasileiro. Então esse álbum é o resultado dessas reflexões que tenho desde sempre.

– Seu segundo álbum, “Fio da Memória”, veio em 2016 e muito mais eletrônico e experimental. O que te motivou a avançar nesses terrenos?

Fio da Memória é um outro lado meu. Quis mergulhar nas minhas paixões mais estéticas, falar um pouco dessa música mais eletrônica, dessa era “internetica”. Procurei entender do meu jeito qual é a nossa identidade, o que somos nós brasileiros nesse momento? Entrar um pouco nessa conversa contemporânea sendo brasileira. E quis atender todos os meus desejos de produção musical. Cada música foi feita de um jeito: uma só com banda, outra tem só sons eletrônicos, outras tem sons acústicos com filtros. Foi incrível e bem trabalhoso. Tejo Damasceno, Zé Nigro e Luiz Cavalcanti foram muito importantes e entraram nessa aventura comigo, sou muito grata a eles. E amo o resultado. Foi muito realizador saber que fomos capazes de chegar nesse resultado sonoro. Uma psicodelia urbana brasileira.

– Ambos os discos foram muito bem recebidos lá fora e te levaram para grandes festivais e palcos do exterior. Conta como isso aconteceu e de que lugar você mais gostou.

Eu acho que o disco tem uma identidade brasileira forte, que é a minha principal formação. Ao mesmo tempo converso com o tipo de música que eles fazem. Então eles conseguem entender onde estou, do que se trata e percebem a diferença sendo brasileira, o tipo de melodia, um ritmo próprio, etc.

O que eu mais amo nas turnês é entrar em forma pra fazer shows, você cria um ritmo, vira seu dia-a-dia. Amaria viver essa rotina aqui.

– Quando a gente vê a apreciação da imprensa estrangeira sobre discos de artistas como você, e nos deparamos com o que é apresentado pela mídia nacional como “música brasileira de qualidade”, temos a certeza que estamos falando de países diferentes, não? Como você vê esse bloqueio que vigora aqui dentro?

Acho que esse movimento mais indie da música brasileira tem um espaço na imprensa escrita ainda. Mas não há espaço nas rádios ou TVS, fora exceções. Tenho críticas sobre as escolhas dos jornalistas, claro, tenho o meu ponto de vista e etc. mas procuro focar no que depende de mim, que é fazer o melhor trabalho possível. Não acho que ainda tenho total domínio de todas as áreas da minha profissão, porque é realmente difícil. Então estou empenhada em melhorar meu trabalho.

– Como foi o relançamento do álbum do seu pai, Amado Maita, pela recém-fundada Patuá Discos? Você participou do processo?

Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Recebi umas 10 propostas de relançamento desse disco (um número meio inacreditável), mas dei prioridade para a Patuá por ser um selo brasileiro. Foi o único selo que propôs licenciar o disco legalmente, pagando os direitos. E fora isso, Ramiro e Paulão, são realmente apaixonados por esse trabalho. Esse disco é significativo pra muitas pessoas. É muito especial esse relançamento pra mim, porque é uma desfecho da vida do meu pai muito feliz e significativo. Diferente da imagem que eu tinha em 2005 quando ele faleceu.

Meu pai era um cara muito inspirado e talentoso, tinha um carisma e um magnetismo. Muito apaixonado por música. Era um cara que sacava o espírito do seu tempo e o que fazia sentido artisticamente na sua época. Sacou joão Gilberto antes de todo mundo da turma dele.

No último ano de sua vida, tentei armar um disco com as músicas inéditas incríveis que ele tinha. Não conseguia ter uma reunião com ele de tantos amigos que iam visitá-lo no estacionamento no Bixiga. Ele foi das pessoas mais amadas que conheci.

– Falando nisso, quais suas influências como cantora/compositora?

Minha música de ninar foi João Donato, João Gilberto, Moacir Santos e aquele disco da Gal “Cantar” e sempre a música do meu pai, meu tio Daniel Taubkin, minha mãe que cantava muito, o piano solo do meu tio Benjamim, a voz da minha tia Rita França, Fernando Falcão e a escola de samba da Vai-Vai. Aos 5 anos ganhei os discos Thriller e Bad do Michael Jackson e sou louca por ele desde então. Aos 10 anos ouvia aquele disco da Sade “Love Deluxe” o dia inteiro, foi uma época muito forte e emotiva, até hoje quando ouço “Pearls” me emociono.

Aos 12 anos entrei de cabeça na era MTV Nirvana, Pearl Jam, Guns, etc. Com 14 anos mais ou menos, mudei pra Minas Gerais, minhas maiores paixões eram sons mais profundos: Milton Nascimento, Nana Caymmi, Elis, Luiz Gonzaga, Alceu Valença. Aos 16 ouvia TLC, Blackstreet, todo o rap dos anos 90, D’Angelo, Bjork. Nessa idade também ganhei o disco “Lady In Satin”, da Billie Holiday, que me marcou profundamente.

Sou mais apaixonada por vozes sujas, roucas, com ar. Nunca fui muito fan de Ella ou Frank Sinatra, é claro que admiro e entendo o valor, mas achava muito certinho, curtia mais uma coisa rebelde, emocional, pirava mais em Nina Simone, por exemplo.

Gostava muito também da Marisa Monte, gosto muito dos quatro primeiros discos dela, o Rosa e Carvão é muito marcante pra mim. Na minha adolescência viajava muito entre Minas e SP, eram 6 horas de viagem e lembro de embarcar musicalmente em todos esses álbuns.

– Você pertence a uma geração de ótimas cantoras, Céu, Mariana Aydar, Juliana Kehl, todas muito cientes da música brasileira, mas antenadas com o que acontece lá fora. Como você vê essas ligações da música tradicional com linguagens atuais e vindas de fora? Como lidar com os puristas?

Acho complicado essa coisa purista que olha muito essa questão de gênero musical. Você pode ouvir um cara cantando João Gilberto num bar e ser muito ruim, frio, vazio e ouvir uma música pop e ser realmente boa, com uma sacada incrível e etc.

Eu entendo que o gênero musical pega muito na questão da identidade de uma geração, de um povo e nessa questão política, de como aquele som se formou, o contexto de vida, etc. Difícil pra quem passou toda a questão da guerra fria e lutou contra esse capitalismo louco, aceitar o que virou a indústria musical, as gravadoras e esse mercado.

Mas eu nasci no capitalismo consolidado e você acaba se afeiçoando a ele de várias maneiras. É a vida que eu levo, não conheço outra e preciso expressa-la com verdade. Não adianta eu fingir que não existe musica pop. Ela está acontecendo, está no inconsciente coletivo influenciando, espelhando o mundo muito fortemente e não aceitar isso é por um lado criar um mundo de mentira, fazer uma música que não condiz com a sua realidade.
Ao mesmo tempo é muito triste ver como a música americana é opressora e exploradora.

Tento ir pelo caminho do meio que é me deixar influenciar, mas não querer ser algo que não sou. Não negar a minha origem, o que eu ouvi. Não ter esse complexo de inferioridade que é muito triste e comum. Música é algo muito subjetivo, mas se eu for pegar um denominador comum de tudo o que eu gosto, pra mim a coisa mais importante é a libido, isto é, a inspiração, o tesão de fazer e cantar aquela canção.

– O que você tem ouvido atualmente?

O que mais gosto na atualidade é o Stromae. EDM é uma música bem mecânica, cansativa, fria, sem dinâmica e achei que o Stromae conseguiu tornar artístico esse tipo de música, empolgante e expressivo. Acho ele realmente genial.

Do Brasil gosto muito da Patrícia Bastos, do Lucas Santanna, do Beto Villares, do Rodrigo Campos, da Céu, das novas Luiza Lian e Maria Beraldo. To adorando o Hungria, que faz uma espécie de trap brasileiro, ele é emotivo, irreverente e nostálgico, tem uma linguagem jovem, atual, mas traz coisas diferentes pra esse discurso do hip-hop. Ficou também no repeat a música da Cardi B “I like it”, muito foda.

E nos últimos dias do ano me liguei novamente no Bill Evans que é pra mim quase uma expressão budista, meditativa musical.

– Já existe algum movimento para um terceiro álbum de inéditas? Você não tem pressa para compor e lançar, o que é bom…

Tenho pressa sim, rsrsrs! Não quero mais esperar tanto tempo pra lançar. Estou com 3 músicas encaminhadas e varias ideias na cabeça. Tô bem inspirada e feliz com isso. Quero lançar o quanto antes.

– Como você está vendo o cenário atual do país?

Nâo consigo entender como existem no mundo pessoas como esses políticos brasileiros. Não conheço ninguém que lembre esse tipo de gente. Acho que todos nós temos lados ruins e dificeis, mas nesse nível é pra mim sempre surpreendente. É um genocídio no Brasil todo o ano, precisa ter muito sangue frio e ser muito escroto. E esse Bolsonaro consegue ser o pior de todos e foi eleito por grande parte do povo brasileiro. Estou perplexa até agora com as eleições e não consigo ler todas as notícias porque não tenho estômago. Fiz o que pude pra impedir que isso acontecesse.

E por um lado mais subjetivo, acho que não estamos lidando bem com nosso lado sombrio. Esse momento do politicamente correto é muito legal, mas todo mundo está colocando a sombra pra baixo do tapete, reprimindo em si esses lados que não estão sendo aceitos na sociedade. Não acho isso saudável. Quando você reprime algo, isso volta muito maior. Acho que o Bolsonaro é também fruto desse desequilíbrio.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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