Will Butler – Generations

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 44 min
Faixas: 10
Produção: Will Butler
Gravadora: Merge
4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Will Butler é o guitarrista do Arcade Fire e muitos pensam que ele está à sombra de seu irmão, Win, o vocalista, em termos de importância. Não que seja necessário aclarar as coisas, mas um trabalho como “Generations”, o segundo solo de Will, mostra o quanto o sujeito tem talento e responsabilidade na elaboração da sonoridade de seu grupo original. Mais que isso: Will mostra em dez faixas diversas, o quanto é capaz de unir estilos e propor alternativas para este tal de pop-rock alternativo, um rótulo meio paradoxal, que pode significar acertos no alvo e erros abissais de interpretação.

 

Ao longo de “Generations”, ele vai passeando pelos terrenos oitentistas, responsáveis por grande parte do pavimento na via em que o próprio Arcade transita, além de apontar novas e simpáticas surpresas estéticas aqui e ali. E tudo isso com uma sonoridade que passa espontaneidade, diversão e talento, mercadorias em falta separadamente e quase impossíveis de serem encontradas em conjunção. E há um passatempo inevitável oferecido por “Generations”: identificar quais canções poderiam estar em álbuns do Arcade Fire e o resultado é bem satisfatório. É possível dizer que Will tem grande responsabilidade pela sonoridade original do grupo, especialmente até “The Suburbs”, o terceiro e sensacional álbum que o Arcade lançou esmiuçando a juventude dos Butlers. A mistura equilibradíssima de rock oitentista com o espírito do tempo de dez anos atrás – time files, boys – mostra essa capacidade de ir e voltar na cronologia, algo que Will também mostra aqui.

 

A primeira faixa é misteriosa no início, mas é uma verdadeira explosão falada. É nela que Will fala sobre o deixar ir o que cansa, o que gera sofrimento e aquela dor no meio do estômago, mas não se engane, a energia vai aumentando, os sintetizadores vão dar o ritmo e é bem possível que vocês queiram dançar. Uma dança de saída, de fechar portas, de expurgar o que já não digerimos. Sintetizadores e uma bateria bem marcada, é um início de disco dançante que abre caminhos para uma faixa como “Bethlehem”, a segunda, que tem uma pegada guitarreira alternativa moderna e intencionalmente caótica, dá espaço para uma faixa que poderia ser uma revisita a padrões mais clássicos do pop criado pela Motown, lá em meados dos anos 1960. Há teclados, programações eletrônicas, baixo sintetizado e uma linha melódica absolutamente bela, que conduzem a canção para um campo de lindezas harmônicas. O pré refrão já prepara para o caos organizado, das pequenas mortes necessárias para o ressurgimento de novas perspectivas.

“Oh, la la la la la la la la
Let me lose my head
Let me cover my eyes in the ashes and blood
Let me lie down and join the dead
‘Cause the best have no position
And the worst are full of
Passion and belief”

 

É uma faixa que nos coloca em alerta, de olhos bem abertos, com um impulso, um sopro de tensão. Terceira faixa “Close my eyes” convida a cantar junto os versos de que brincam entre a vontade de potência e a inércia do conforto de ficar no estado inicial. Abrir os olhos parece simples como piscar, mas pode ser um exercício complexo de reconhecimento. Contudo, fechar os olhos e “dever” aquilo que está marcado em nossas memórias e experiências, pode ser atormentador. Will novamente equilibra os elementos do pop com a pegada cheia de brilho em um refrão contagiante:

“Close my eyes, close my eyes, close my eyes
And it’s almost alright
If you can understand then come in close and hold me tighter
In my mind, in my mind, in my mind
I want to choose the right
But you know it’s hard enough to breathe

 

E tal sensação se desfaz porque, logo após, “I Don’t Know What I Don’t Know”, já oferece um balanço noturno, obsessivo, em primeira pessoa, derretendo qualquer bom mocismo que a gente pensou que havia por aqui. Mesmo com tonalidades diferentes, Will não abre mão da fluência pop, atestando sua excelência como compositor e pensador sonoro. E assim o disco vai brincando de derreter impressões conquistadas canção após canção. “Surrender”, por exemplo, é outra canção que se vale de inspiração surpreendente, dessa vez pegando algo que poderia ser o escombro de um coral gospel de canto e resposta,para conduzir uma melodia perfeitinha e impulsionada por palmas e uma guitarra constante a princípio, que é substituída por um piano de salão. A faixa é acompanhada de um vídeo que já começa com palmas e flores, impossível não sorrir. Letra simples, e as coisas simples importam. É como a reflexão que o refrão provoca. O cansaço de estar onde não cabemos sabendo da necessidade de mudar.

 

E logo após, outra rendição ao pop mais clássico, com “Hide It Away”, brincando de esconde-esconde com timbres mais eletrônicos e pesados, que surgem aqui e ali, atiçando o ouvinte. “Hard Times” é outra faixa noturna, sintética, com instrumental não-humano, cheia de vocais e efeitos que vêm e vão, mostrando mais dessa faceta de quem se olha dançando no espelho e pensando na vida. É uma melodia envolvente e intimista com uma letra que poderíamos aplicar ao contexto atual em que sabemos que o fogo que brilha é o mesmo que queima. “Promised” também vai na onda dançante, mas lembra algo que o INXS poderia fazer hoje em dia, caso continuasse a existir. A faixa carrega um modernidade na mistura de elementos e climas. Um convite ao passeio, use bons fones para disfrutar de todas camadas e preparando para o refrão questionador

“But you promised me, you promised me
That you wouldn’t run and hide
And in the evenings sometimes
When I’m sad and half asleep
I wonder if you should have tried”

 

E “Not Gonna Die”, penúltima etapa no percurso musical, é outra faixa que tem instrumental oitentista, no sentido mais pop possível. Ela vai enumerando várias possibilidades de morte,refutadas pelo cantor, como morrer num hospital, num porão, por conta de um ataque cardíaco,atingido por uma bala, mostrando, em reverso, o quanto a vida tem valor. E por mais terríveis que os tons da realidade possam se apresentar, sempre há um forma de tingi-la com cores diferentes de uma paleta que escolhemos. Novamente o clima gospel surge na temática e se espalha para vocais de apoio e metais, que surgem sem avisar.

 

Fechando o caminho, vem o épico do álbum, “Fine”, leva o ouvinte para passear por alamedas jazzísticas, falando sobre George Washington, contradições, origens, escravos, desigualdade,falta de humanismo e um verso matador: “quando vejo você andando pelos paralelepípedos,de salto alto, falando no celular, com uma taça de vinho, e seus belos amigos, eu só posso torcer e rezar para que o mundo acabe”. É forte, é irônico e praticamente genial.

 

Will Butler entrega um disco cheio de brilho, climas, com letras e sonoridades que se complementam, se entrelaçam em um trabalho que ao mesmo tempo é delicado e vibrante

 

 

  • colaborou Ariana de Oliveira
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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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