Veredito: “Bom dia, Verônica”

 

 

Desde o dia 1º de outubro, está na Netflix uma ótima opção de série nacional: “Bom dia, Verônica”. É sempre bom ver uma produção nacional que foge ao parâmetro global de série, algo que a gente já percebe nos primeiros segundos. Se há alguma inspiração que “Verônica” tem é de modernas histórias policiais gringas, criando uma personagem que tem carisma suficiente para levar adiante mais temporadas em seu nome, mostrando sua perspectiva diante do enfrentamento da justiça e do crime num mundo em que interesses corporativos e obscuros ditam as normas de conduta. É uma produção do próprio serviço de streaming, com elenco liderado por Tainá Muller, Camila Morgado e Du Moscovis.

 

São oito capítulos redondíssimos, bem feitos, ambientados na São Paulo dos nossos tempos, mostrando diferentes modalidades e situações de violência contra a mulher. José Henrique Fonseca, Izabel Jaguaribe e Rog de Souza dirigem e a série tem inspiração direta no livro homônimo, escrito por Ilana Casoy e Raphael Montes, que também participam da equipe de roteiristas. Essa galera vai construindo um painel tenso e cinzento do ambiente da Delegacia de Homicídios da capital paulista, instância da Polícia Civil. Os personagens centrais, no caso, Verônica (Tainá Muller), Carvana (Antônio Grassi) e Anita (Elisa Volpatto), são policiais, sendo que a primeira é escrivã e os outros são delegados. O cotidiano deles muda a partir de um suicídio ocorrido nos primeiros instantes do episódio de estreia, que desencadeia uma série de eventos que apontam para uma investigação de um crime de abuso sexual. Ainda que haja a oposição mais ou menos esperada entre a jovem idealista e o sistema judicial/policial, pragmático e de eficiência questionável, a série não perde fôlego, justo porque tem a manha de oferecer várias tramas paralelas.

 

Ou seja, além deste caso inicial, temos outras duas narrativas presentes. A primeira é sobre o próprio passado de Verônica, cujo pai, ex-delegado, tem um passado misterioso que influi na própria vida da jovem, que é casada e tem dois filhos. A outra história é sobre o relacionamento de um casal, formado por Claudio (Moscovis) e Janete (Camila Morgado), o qual logo percebemos viver numa relação completamente estranha e abusiva, com desdobramentos terríveis. Enquanto as histórias vão se desenvolvendo e se entrelaçando, temos oportunidade para ver a preocupação da série com a violência contra a mulher, além de dar força e visibilidade para personagens femininos. Caso claro é o embate constante entre Verônica e Anita no trabalho, mostrando o quanto ambas são competitivas no que fazem, chegando a ofuscar a presença dos homens da delegacia. A conduta de Janete também é digna de nota, especialmente pela capacidade de resistência e reinvenção quando percebe que está vivendo um relacionamento abusivo.

 

Além da boa história, “Bom dia, Verônica” oferece as melhores performances das carreiras de Camila Morgado e Du Moscovis. Se ambos são atores acostumados com papéis em que interpretam heróis e figuras boazinhas em geral, aqui eles estão no pântano humano das relações distorcidas. São pessoas inacreditáveis, terríveis, cada um a seu jeito, sendo que a vida que levam não parece ter qualquer possibilidade de escapatória, sendo que o espectador não é privado da opressão que Claudio impõe a Janete em seu cotidiano inacreditável. Enquanto isso, Tainá Muller oferece uma atuação regular para sua Verônica. Ainda que a atriz gaúcha ofereça bons momentos, o próprio personagem termina a série de forma ambígua e tomando decisões que fazem com que a trama flerte com muitos clichês do gênero policial, especialmente nas produções nacionais recentes, glorificando a figura do justiceiro individual e guiado por motivações subjetivas, em vez de alguém que se disponha a fazer o sistema funcionar de fato.

 

Tal escolha quase fere de morte a própria série, mas poucas pessoas se importarão com isso. “Bom dia, Verônica” é entretenimento de qualidade, mostrando o quanto de profissionais de valor existem em atuação no campo do audiovisual nacional, gente abnegada que enfrenta com força e firmeza tempos em que a cultura brasileira é prejudicada de todas as formas por políticas de descaso. Vejam e prestigiem.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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