Whitney – Candid

 

 

 

Gênero: Rock

Duração: 33 min.
Faixas: 10
Produção: Julien Ehrlich e Max Kakacek
Gravadora: Secretly Canadian

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

O Whitney é uma dupla – Julien Ehrlich e Max Kakacek – que tem um fraco por melodias que passam aquela sensação que os americanos relacionam com o verão. Gente feliz, andando a céu aberto, corada nas bochechas e desejando o amor ao próximo, assim, como se não houvesse outro jeito de ser. Como tal, seus discos refletem esse sentimento, literalmente “that summer feeling”, o que é algo bem legal e necessário num mundo sombrio como o nosso. Dessa vez a dupla oferece aos fãs um compêndio de dez covers, procurando driblar as arapucas que surgem no caminho quando este tipo de álbum é lançado, especialmente por um artista novo. E aqui já aviso que não há qualquer sintoma de falta de criatividade por parte da dupla, pelo contrário. “Candid” é um trabalho de amor, com canções nada óbvias, gravadas ao vivo no estúdio com a configuração de palco que a dupla leva para seus shows, ou seja, com mais dois guitarristas e tecladista, fornecendo um revestimento sonoro bem encorpado, mas que não desafina em relação aos lançamentos anteriores.

 

Se Ehrlich e Kakacek já haviam soltado uma emocionante versão para “Southern Nights”, de Allen Toussaint, as covers de “Candid” vão pelo mesmo caminho de lindeza e leveza. Não há qualquer momento que engate uma levada que destoe dos caminhos do soft rock setentista revisitado ou do r&b ultra-light em doses muito bem pensadas. É um disco para encantar os fãs já existentes – e são muitos. Tudo se calca na aparente fragilidade que a música da dupla suscita, mas não abre mão de conferir às versões a autenticidade necessária. Sendo assim, até quando Whitney revê uma canção de Brian Eno e David Byrne, caso de “Strange Overtones”, o primeiro single, tem como intenção se apropriar do original, seguindo o mandamento principal do Grande Manual de Covers, nunca lançado oficialmente, mas lido pelos bons artistas do ramo.

 

Nenhuma releitura supera o original e nem parece ser a ideia da dupla ao gravá-las. Mas, ao contrário do recente álbum de covers do Weezer, o Whitney leva em conta a crocância de revelar aos fãs algumas canções realmente desconhecidas e, quando não é o caso, surpreendê-los. Por exemplo, a faixa mais conhecida é um sucesso de John Denver, “Take Me Home, Country Roads”, que surge num dueto com Katie Crutchfield, a própria Waxahatchee em pessoa. O resultado é belo e simpático, oferecendo uma fragilidade nova para o original do velho cantor folk. “A.M.AM”, de Damien Jurado enxuga a psicodelia e investe numa variação mais orgânica e com os pés no chão do campo dos sonhos. “High On A Rocky Ledge”, a princípio uma balada esparsa de piano e voz, gravada por Moondog, virou uma faixa que poderia estar em “Comes A Time”, de Neil Young.

 

 

Há dois momentos em que a dupla se arrisca em reler originais de r&b contemporâneo e se sai bem: “Rain”, do grupo vocal SWV, gravada em 1997, vem com boa performance vocal e um arranjo que não se arrisca em alternativas ousadas, se limitando a pontuar a melodia com ênfase no piano elétrico e guitarras. “Bank Head”, de Kelela, a princípio um quase rap com arranjo totalmente eletrônico e cadenciado, ressurge como um exemplo do que o Whitney pode fazer quando se trata se acentuar ainda mais a sua capacidade de ser sutil. O resultado é ótimo. E, falando em “ótimo”, o momento iluminado fica na apropriação de “Crying, Laughing, Loving, Lying,”, do trovador folk britânico Labi Siffre.

 

Tudo em “Candid” visa oferecer ao ouvinte uma perspectiva calma, serena e que dá ensejo à comunhão. Não que seja um álbum ecumênico ou algo no gênero, mas sua opção pela sutileza e pela doçura nas escolhas, arranjos e resultados quase nos deixa sem escolha a não ser desejar o bem, não importando a quem. Ouça.

 

Ouça primeiro: “Crying, Laughing, Loving, Lying”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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