Wolf Alice no topo do mundo

 

Wolf Alice – Blue Weekend

Gênero: Rock alternativo

Duração: 40 min.
Faixas: 11
Produção: Markus Dravs
Gravadora: Dirty Hit

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Como anda o rock hoje, 2021? Não falo das bandas e artistas que alimentam o gosto dos revisionistas e dos que acreditam que o estilo não entrega algo bom desde, sei lá, o Foo Fighters. Falo com os fãs do rock capazes de percebê-lo em evolução e adaptação ao mundo desde que surgiu, em meados dos anos 1950. Em algum ponto do caminho, provavelmente nos anos 1990, houve uma inversão de parâmetros: o rock deixou de modificar as coisas para se inserir no contexto, invertendo seu propósito principal. Tal movimento, seja pela predominância definitiva da grana sobre todo o resto, agravado pela digitalização do ato de ouvir música e o esvaziamento da indústria musical como a conhecíamos, deu ao planeta uma outra cara: saiu o rock e entrou o pop como estilo principal a ser considerado, não só para a produção musical, mas para ditar padrões de comportamento, tendências e tudo mais. Sendo assim, refaço a pergunta: como está o rock hoje? O rock que realmente importa, que aglutina informações artísticas e busca captar o pensamento dos jovens do mundo, pelo menos daqueles que ainda têm um pouco mais de ressonância emocional. Pois bem: talvez o rock vá pelo caminho oferecido por bandas como o Wolf Alice.

 

O terceiro disco deste quarteto londrino, “Blue Weekend”, é, não só o melhor da banda, como o mais profundo em termos de informação. Composto por Ellie Rowsell, Joff Oddie, Theo Ellis e Joel Amey, o Wolf Alice é inegavelmente moderno e tem força suficiente para pleitear um espaço no gosto de muita gente por aí. Ellie é uma boa cantora, sua voz alcança graves e agudos com versatilidade, além disso, ela é quem escreve as letras e toca guitarra, concedendo uma aura sonora/estética de formações do passado como Cocteau Twins, Fleetwood Mac e Garbage, tudo misturado, infusionado e devidamente absorvido, soando natural e bem pensado. Não dá pra notar traços dessas bandas em passagens das canções, arranjos ou algo no gênero – talvez só o Cocteau Twins seja detectado desta forma com mais facilidade. Mas as guitarras dobradas aos teclados, os agudos, as letras sobre independência de opinião e auto-afirmação, além de uma atmosfera shoegaze, concedem camadas de charme e eficiência para o álbum.

 

Os dois álbuns anteriores do Wolf Alice eram mais calcados no som alternativo roqueiro noventista. Deste passado, apenas “Play The Greatest Hits”, a faixa número sete, guarda semelhança. É uma pequena canção que traz Elastica subvertido e pitadas generosas de guitar rock, adorável. Mas o ouvinte destes dois primeiros discos talvez não esteja preparado para a densidade sonora que “Blue Weekend” oferece. Este jogo de esconde-esconde de influências e a sutileza de sua colocação ao longo do álbum talvez não agrade aos admirações do “rock sem firulas” – outro termo terrível e conservador. O disco exige atenção e recompensa largamente quem investe tempo em sua audição. Algumas canções aqui são, além de belas, verdadeiras construções de arranjos no estúdio, mostrando que o Wolf Alice quis criar climas lentos que explodem em refrãos e mudam de tom com grandiosidade sonora contrastando com dedilhados e sussurros.

 

A segunda faixa, “Delicious Things”, além de ser a melhor do álbum, é uma das melhores do ano. Até que ela tem uma estrutura mais simples, mas, logo de cara o ouvinte se vê às voltas com os vocais, teclados e guitarras arremessados ao mesmo tempo, orientados para causar beleza e evolução dentro da própria melodia. É uma canção totalmente tributária do Cocteau Twins fase “Heaven Or Las Vegas”, mas tem uma sensualidade toda própria. Assim também é com a faixa seguinte, a ótima “Lipstick On The Grass”, esta mais parecida com, digamos, o Slowdive, outra formação noventista enguitarrada, porém afeita demais às melodias e aos vocais etéreos. E “Smile”, um dos singles do álbum, poderia ser uma cruza do Garbage com vocais de Rachel Goswell. E o que dizer de “Safe From Heartbreak”, que mais parece uma canção do … Abba? Ou de “How Can I Make It OK?”, que engloba detalhes eletrônicos em meio a uma melodia que mais parece o sol saindo depois da chuva? Fechando o álbum, a trinca “The Last Man On Earth”, que é uma lindeza que vai crescendo e ficando seríssima em seus quatro minutos e vinte segundos, sucedida por “No Hard Feelings” – dois minutos e meio de doçura e capacidade de absorção de golpes das pessoas – devidamente emoldurada com instrumental mínimo e belo. E o fim, com “The Beach II”, com guitarras explodindo em meio à voz de Ellie.

 

“Blue Weekend” é um belíssimo exemplar de como o rock ainda pode soar relevante num mundo popificado. Tem estilo, tem fluência, tem esperteza e, se tudo der certo, fãs ao redor do mundo. Wolf Alice pode ser uma nova sensação quando os shows ao vivo estiverem de volta. Estas canções devem fazer muito bonito num palco. Maravilha.

 

Ouça primeiro: “Delicious Things”, “No Hard Feelings”, “How Can I Make It OK?”,
“Lipstick On The Grass”

 

+1

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

3 thoughts on “Wolf Alice no topo do mundo

  • 9 de junho de 2021 em 14:17
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    Bah!!!, mencionou Cocteau Twins, já vou correndo conferir essa banda.

    +1
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  • 9 de junho de 2021 em 13:41
    Permalink

    Opa, ainda não, mas está na fila!

    0
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  • 9 de junho de 2021 em 12:45
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    Boa Cel!!! Ótimo poder ler essa bela resenha. Tenho escutado muito essa preciosidade.
    Já ouviu o novo do Japanese Breakfast?

    +1
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