“What’s Going On” 55 – Atemporal e perfeito

Dizer que What’s Going On é uma obra-prima é chover no molhado da crítica musical. Para mim, a relação é muito mais íntima, daquelas que moldaram o caráter e a própria forma de escutar o mundo. Se eu precisasse montar uma lista curtíssima, daquelas de levar para uma ilha deserta com os cinco discos mais queridos da minha vida inteira, o manifesto de Marvin Gaye, lançado há exatos 55 anos, brigaria diretamente pelo primeiro lugar, sem muito esforço. É uma paixão antiga, que se consolidou no início dos anos 1990, quando comprei meu primeiro exemplar em CD na saudosa Satisfaction Discos, junto com o primeiro do Doors e “Selling England By The Pound”, do Genesis, e passei dias e noites hipnotizado por aquela parede de som contínua, onde as faixas se emendam umas nas outras como um rio de melancolia e groove correndo para o inevitável mar.
Minha história com esse disco, porém, começou um pouco antes, na base do mito e do desejo. Lembro perfeitamente de ouvir falar dele pela primeira vez através de uma nota na clássica revista Bizz, que repercutia a bombástica eleição do semanário britânico NME (New Musical Express) em 1985, elegendo What’s Going On como o melhor álbum de todos os tempos. Para um jovem fissurado em música, aquela informação grudou na mente. Quando finalmente o CD chegou às minhas mãos anos depois, a promessa daquela nota de revista não apenas se cumpriu, mas explodiu qualquer expectativa.
Para entender o impacto do disco, é preciso olhar para a capa — e ela diz tudo. Marvin Gaye aparece na foto sério, melancólico, sob uma chuva fina, com o olhar perdido no horizonte. Para a época, aquilo era uma revolução visual e mercadológica perigosa. A Motown Records, comandada com mão de ferro por Berry Gordy, vendia seus artistas negros como sinônimo de sorrisos perfeitos, ternos alinhados, coreografias impecáveis e escapismo pop para a América branca dançar. Marvin rasgou esse roteiro. Ele se recusou a ser o galã sorridente do soul para se colocar como um cronista de terno e barba, triste e chocado com o colapso do seu próprio país. Dito e feito.
O contexto social de 1971 era de terra arrasada. Os Estados Unidos sangravam com a Guerra do Vietnã — da qual o irmão de Marvin, Frankie, acabara de voltar traumatizado —, os guetos negros ferviam com a violência policial, a pobreza extrema e o racismo estrutural, enquanto as discussões ecológicas engatinhavam sob o peso da fumaça industrial. Diante desse cenário, Marvin peitou a Motown de forma hercúlea. Berry Gordy odiou a faixa-título, chamou-a de “a pior coisa que já tinha ouvido na vida” e se recusou a lançá-la, temendo perder o apelo comercial. Marvin fincou o pé: ou o disco saía do jeito que ele queria, ou ele nunca mais gravaria uma única nota para a gravadora. Venceu o artista, para a sorte eterna da humanidade.
Musicalmente, o álbum é uma sinfonia rítmica onde os Funk Brothers (a lendária banda de apoio da Motown) fazem um dos maiores trabalhos de suas vidas, guiados pelas linhas de baixo viscerais de James Jamerson e pela genialidade arranjadora do próprio Marvin. A trinca de ferro do disco é de um brilhantismo que beira o inacreditável. A faixa-título, “What’s Going On”, abre o trabalho como uma prece coletiva, transformando o jazz e o soul em um abraço pacificador, na qual a letra pergunta, perplexa, “como diabos chegamos aqui”?. Logo depois, “Mercy Mercy Me (The Ecology)” traz uma doçura melódica e dolorosa para falar da destruição da natureza, um tema que hoje, em 2026, soa assustadoramente profético.
Mas é em “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)” que o disco atinge o seu clímax definitivo. É uma das construções mais poderosas da história da música preta. Aquele groove arrastado, minimalista e soturno traduz perfeitamente a sensação de sufoco econômico e social do cidadão comum. A letra até fala da polícia despreparada das grandes cidades americanas, usando o termo “trigger happy”, ou seja, aquela que atira por atirar, sem se importar com o que está fazendo. Quando Marvin canta que a situação o faz “querer gritar”, a gente grita junto.
A atemporalidade de “What’s Going On” é, ao mesmo tempo, sua maior glória e sua maior tragédia. Cinquenta e cinco anos depois, as perguntas que Marvin Gaye fez continuam ecoando sem resposta nas esquinas de qualquer metrópole. O mundo mudou de século, as plataformas de audição se transformaram, mas a crueza, a sofisticação e a humanidade desse álbum permanecem intactas, como um farol aceso no meio da nossa própria escuridão.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
