Greg Freeman é o futuro do country alternativo

Greg Freeman – Burnover
45′, 10 faixas
(Canvasback Music)
(5 / 5)
Dentre os cinquenta estados americanos, Vermont é um dos menos badalados. Faz fronteira com o Canadá ao norte e se situa na vizinhança de Nova York, New Hampshire e Massachusetts, no nordeste do país. É minúsculo, pouco maior que Sergipe, e não ultrapassa a marca dos 650 mil habitantes. Dito isso, é um pequeno oásis progressista que privilegia as artes plásticas e a música. Tem no senador Bernie Sanders um dos seus representantes no combalido Legislativo ianque e perigava manter-se na descrição total se não fosse a chegada de Greg Freeman a Burlington, maior cidade do estado, há poucos anos. Vindo de Maryland, um pouco abaixo no mapa, Freeman é, sem exagero, o nome mais instigante surgido no que costumávamos chamar de alt.country em décadas. Com 27 anos e lançando agora seu segundo álbum, “Burnover”, trata-se de um talento discreto como o lugar em que vive. Sua música é impressionante, não só pela capacidade de honrar influências pregressas como soar absurdamente nova, fresca e confiável. Ouvindo as dez faixas viciantes de “Burnover”, me peguei confiando no que Freeman cantava, nos arranjos, na ideia de desolação nervosa que saía dos fones. Quando me dei conta, já era a quarta audição seguida do disco. E ainda era pouco.
Como uma obra de seu tempo, “Burnover” não cabe mais em limites muito formais. Ele é um disco de country alternativo mas não da mesma forma que obras feitas há quinze, vinte anos, por Ryan Adams, Jayhawks ou similares. Tem muito de vivência pessoal, influências indie, difundidas na velocidade da luz, um monte de detalhes que vão longe. Mas, ainda que tudo isso seja admirável, há um classicismo muito bem-vindo, colocado de maneira nada óbvia, em referências discretas, mas sendo especialmente bacana quando a voz de Greg soa praticamente idêntica ao registro de Neil Young. Isso é um trunfo e escapa por milhas de distância da cópia ou citação, soa mais como se Young fosse muito mais jovem e habitasse esse mundo mais rápido como um artista angustiado que nem chegou aos trinta anos. E mais: “Burnover” é um disco jovem, cheio de vida, questionamentos, inquietações, é uma porrada muito bem dada e vai além do que estamos acostumados a ouvir, mesmo nos nichos mais interessantes e alternativos.
Greg Freeman já havia chamado a atenção da mídia especializada (e alternativa) americana quando lançou, há dois anos, seu primeiro disco, “I Looked Out”. É outra lindeza, mais crua e ainda vacilante em alguns momentos. “Burnover” é, ao contrário, uma caminhada resoluta em direção ao abraço quente daqueles mitos que ainda são importantes – estrada, amor partido, incompreensão e solidão. Quando ouvimos Freeman iniciando o disco com “Point And Shoot”, chegando nas fronteiras da desafinação, percebemos que estamos diante de algo terrivelmente verdadeiro e único. A levada enguitarrada, o andamento em midtempo e detalhes maravilhosos de gaita e bateria me deram um prazer semelhante a quando ouvi Jayhawks pela primeira vez, há mais de vinte anos. A beleza aqui, no entanto, soa como uma resultante inevitável da expressão, ao contrário do que era com os J-Hawks, que eram – e ainda são – estetas da música, uma espécie de Wings do alt.country. Greg é pura espontaneidade e ele ainda vai quase desafinando até o fim da primeira canção de “Burnover”. Em “Salesman”, logo após, ele vai num andamento mais próximo de um pop oitentista musculoso, mas o registro à la Neil Young confundem as referências e nos fazem prestar atenção na letra, nas guitarras e tudo mais.
A partir da terceira faixa, “Rome, New York”, Freeman inicia uma sequência de canções que parecem clássicos perdidos de alguma época vivida num metaverso qualquer. Tudo é sublime, arranjos, letras, vocais. Os pianos fantasmagóricos surgem vindos de lugares que nem havíamos notado e emolduram a melodia clássica. “Gallic Shrug” é pura perfeição country rock atemporal, cheia de guitarras elegantes, enquanto a faixa-título aposta numa levada eletroacústica cuja letra fala sobre dia dos namorados, manhãs geladas e solidão incompreendida e incompreensível. “Gulch” eleva o tom e aumenta o volume dos instrumentos, soando como se Greg e seus músicos fossem um misto de banda de bar e aspirantes à nova E Street Band. “Curtain” é mais formal e adornada por pianos gorduchos, que dão um ar de álbum de fotografias à letra, que vai listando paisagens cotidianas em nível personalíssimo e emocional. No fim, a melodia bonitinha vai sendo engolfada por metais fora de tom, surpresas mil. “Gone (Can Mean A Lot Of Things)” é outra belezura de almanaque, cheia de gaitas e guitarras harmoniosas, abrindo caminho para a contemplação triste de “Sawmill”, cujos vocais parecem gravados no fundo de uma câmara de eco. “Wolf Pine”, quase silenciosa e soturna em pianos e sons esparsos, fecha o percurso sonoro.
“Burnover” é perfeito até quando não atinge a perfeição. Suas dez faixas são um convite a adentrarmos num novo mundo para conhecermos um artista novo e brilhante. Aquilo que mencionamos acima, sobre “confiar” em quem canta, faz toda a diferença e é uma sensação que não experimentava há muito, muito tempo. Este álbum parece colorido em meio a uma imensidão preto-e-branca. Ouça e ame. Você não tem escolha.
Ouça primeiro: o disco todo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Obrigado pela recomendação, discaço! Já é um dos meus preferidos do ano.