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Os Garotin repetem o brilho do primeiro disco

 

 

 

 

Os Garotin – Força da Juventude
41′, 13 faixas
(Labrights)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

A música preta brasileira tem uma árvore genealógica imensa e cheia de ramificações. Quando Os Garotin — Léo Guima, Anchietx e Cupertino — resolveram se juntar, sabiam onde estavam pisando. O som deles não é um raio em céu azul; vem daquela linhagem que começou nos bailes black do Rio dos anos 1970, da audição de discos sensacionais de Tim Maia, Jorge Ben e Cassiano, passou pela força de Carlos Dafé, Gerson King Combo e avançou com Sandra de Sá nos anos 1980. Daí, passou pelo preciosismo de Ed Motta e pelos hits de rádio de Claudio Zoli. É o mesmo caminho que, nos anos 2000, Max de Castro e Wilson Simoninha tentaram atualizar para as pistas. A diferença é que Os Garotin jogam essa bagagem para dentro da realidade atual de São Gonçalo, sem aquela pose de quem está apenas imitando o passado para parecer “cult”. E o novo momento chama-se “Força da Juventude”.

 

O grande acerto deste segundo disco deles, lançado agora, é justamente não querer inventar a roda. Em vez de lançar mão de fórmulas mirabolantes para “avançar” com a carreira, os caras mantiveram os pés no chão, seguraram o produtor Julio Raposo no comando e deram sequência direta à sonoridade do primeiro trabalho. O álbum soa muito parecido com a ótima estreia, e isso é um ganho real: é a consolidação de uma identidade clara, coisa rara hoje em dia. Os metais continuam no mesmo lugar e o baixo segue bem gordo, mostrando a segurança de três vocalistas que sabem como encaixar as harmonias sem que um atropele o outro.

 

O repertório é curto e direto, sem aquela pressa de tentar agradar o algoritmo a cada três segundos. O mais interessante do disco é notar como as participações especiais foram distribuídas dentro desse universo que o trio já domina, com cada convidado entregando o que faz de melhor. Tem Marina Sena e BK adicionando profundidade e cor à luminosa “Se Joga”, cheia de guitarrinhas em chacundum. Temos a ótima presença de Malia em “Deixa Eu Te Encontrar”, que lembra muito (até em excesso), a bela “Groovin’ In The Midnight”, sucesso noventista de Maxi Priest. E um interessante encontro com Lenine, que participa de “Soul Brasileiro”, na qual insere a métrica e a levada de sua “Jack Soul Brasileiro”, numa boa sacada do álbum. Além dele, Hamilton de Holanda também engrossa a engrenagem dessa faixa. Outro bom momento é “Falador”, com participação do rapper niteroiense 2ZDinizz, que funciona bem dentro do contexto do álbum.

 

A ótima voz de Liniker também adiciona cores e nuances profundas em “Simples Assim”, que voa alto nas boas harmonias e na ótima produção. E ainda há espaço e ocasião para as cordas e a presença do veterano Arthur Verocai, que colocou suas famosas linhas de cordas cinemáticas em uma das composições mais bonitas do álbum, “Uma Noite Só”, deixando a faixa espaçosa e elegante. O trio ainda estendeu o projeto para além das plataformas de áudio, organizando uma exposição rápida no Rio com artistas visuais como Elian Almeida e Renata Leoa pintando telas baseadas nas letras das novas músicas. É uma sacada bacana que tira um pouco o foco do celular e joga o trabalho para o mundo real.

 

No meio de tantos convidados de peso, o que realmente segura o rojão do disco é a dinâmica fina entre os três cantores. Léo Guima, Anchietx e Cupertino cantam por telepatia. É bom ver como eles dividem o microfone sem vaidade de quem quer gritar mais alto. Enquanto um solta um falsete macio no fundo, o outro chega com um vocal mais encorpado na frente, criando um revezamento natural que dá uma dinâmica natural para o álbum. É essa química de bastidores e de estrada que faz o disco soar coeso, provando que a tal força da juventude deles está justamente na parceria e na inteligência de saber fazer o coletivo brilhar mais que as individualidades.

 

No fim das contas, “Força da Juventude” agrada justamente por respeitar a própria essência. Não precisa de rótulo gourmetizado para se sustentar. É só a música preta carioca fazendo o que sempre soube fazer: groove, honestidade e o pé na calçada.

 

Ouça primeiro: “Uma Noite Só”, “Simples Assim”, “Soul Brasileiro”, “Deixa Eu Te Encontrar”, “Se Joga”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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