Lô Borges + Zeca Baleiro = faz todo o sentido

Lô Borges convida Zeca Baleiro – Céu de Giz
35′, 10 faixas
(Deck)
(4 / 5)
Se alguém se dispusesse a conduzir um estudo visando apontar artistas com alta taxa de produtividade recente, Lô Borges e Zeca Baleiro certamente estariam entre os mais destacados. São discos de estúdio, discos de shows, espetáculos, colaborações, parcerias, Zeca e Lô não param e agora vêm com “Céu de Giz”, um disco em que apresentam dez canções inéditas, feitas a quatro mãos. As obras de ambos habitam universos comuns e, de certa forma, compartilhados – visões urbanas e contemplativas da vida, de amores, saudade e, talvez mais que tudo, percepção da existência com uma certa dose de lirismo. No terreno musical, ainda que Zeca faça incursões por estilos mais diversos, é no folk rock mineiro de Lô que está a sonoridade de “Céu de Giz”. Isso coloca o trabalho nesta linha descendente de obras feitas a partir da sonoridade forjada nos anos 1970 a partir do mitológico “Disco do Tênis”. O álbum pode ser inserido com tranquilidade na fileira de trabalhos feitos por Lô anualmente, desde 2019. Assim como nos outros, aqui Lô abre espaço para um letrista que completa suas melodias. E Zeca, dono de uma verve própria e fluida, cumpre a função com louros.
Zeca também canta com Lô em cinco faixas, inclusive em “Antes do Fim”, que foi escolhida como single para anunciar o álbum. O arranjo tem aquela pegada híbrida de folk mineiro com acenos beatle, tão típica da arquitetura sonora de Lô. “Antes que a vida seja só caos e desolação//Eu sigo cantando e creio na força da canção” diz a letra, que abraça essa característica humanista que a música de Lô possui, conferindo a unidade estética que é tão importante em seu trabalho. Outro momento em que Baleiro se insere com perfeição neste imaginário musical é em “Santa Tereza”, bela canção em que a letra vai falando de um passeio pelo bairro de Belo Horizonte, tão familiar ao percurso urbano do Clube da Esquina. É um olhar com carinho para um passado que está totalmente assimilado e não esbarra na nostalgia fácil. Em “Ao Sair do Avião”, é Lô que canta sozinho: “Ao sair do avião lembrei//Lembrei de nós” e mostra como a pena de Zeca adentra esse terreno quase frágil de um ato tão simples como uma lembrança que parece casual. A melodia, bela, compõe a paisagem.
Na faixa-título, novamente cantando junta, a dupla vem adornada por um arranjo que tem guitarras mais fortes. “Você pode até dizer que é feliz//Mas eu sei que não, pois ninguém é//A felicidade é o céu de giz//Onde se desenha o que quiser” é um verso que mostra um tom mais crítico diante da vida, num movimento raro dentro dessa perspectiva humanista que permeia a obra de gente como Lô, Beto Guedes e do próprio Milton Nascimento. Da pra sentir a presença de Baleiro justamente nessas intervenções, que respeitam a sutileza, mas dão mais foco e nitidez a esta visão. “Zumbis” é outro momento em que isso acontece, seja em meio às guitarras mais desenhadas e fortes, seja em versos como “Zumbis vagando na rua//Desaprendendo a viver”, que surgem como uma crítica às multidões recentes que surgem no país e no mundo, reivindicando por absurdos. “Onde vai dar essa vida louca//Como é que eu devo viver” pergunta a letra mais adiante. É isso.
Na última faixa, “Donos do Mundo”, mais elementos interessantes: um rock mais clássico em que a letra brada: “Quem dera//Quimera//Mundo sem escravidão”, critica os oligarcas digitais do nosso presente chega a evocar uma certa aura à la Raul Seixas, caso ele estivesse vivo e produzindo nos dias de hoje, certamente, cortesia de Zeca Baleiro, que, em certos aspectos, já demonstrou alguma influência do velho Raulzito.
“Céu de Giz” não chega a ser uma reinvenção, nem para um, nem para o outro. Mas certamente é uma refrescante prova de que dois artistas podem coexistir num espaço criativo, abrindo espaços e permitindo que sejam modificados pela presença do outro. O que emerge do álbum soa novo e aguçado, mostrando que Zeca e Lô, além de muito produtivos, vivem ótima fase.
Ouça primeiro: “Zumbis”, “Céu de Giz”, “Santa Tereza”, “Ao Sair do Avião”, “Donos do Mundo”
Seis perguntas para Lô Borges e Zeca Baleiro:
– Como surgiu essa parceria? É inédita mas faz todo sentido!
Zeca: A parceria é inédita e surgiu de uma forma bem inusitada. Em setembro ou outubro do ano passado, eu estava no aeroporto de Uberlândia voltando para casa quando recebi uma
chamada, uma mensagem de WhatsApp de texto, do Lô, dizendo que tinha pego meu
telefone com um amigo em comum, o guitarrista Rogério Delayon, porque tinha feito uma
melodia e pensado em mim. Aí eu fiquei felizão, falamos, eu liguei pra ele… a gente já tinha se encontrado algumas vezes em aeroportos, num show em que a gente dividiu o palco
uma vez, no Memorial da América Latina, e cantamos juntos “Um Girassol da Cor do Seu
Cabelo”… Sempre fui um grande fã da turma toda do Clube da Esquina, mas muito
especialmente do Lô, do jeito dele cantar, de compor, de fazer melodias, harmonias. E fiquei muito feliz, muito honrado. Falei, vamo embora. Ele falou, vamos fazer um disco inteiro, tem outras melodias aqui. De repente eu tinha 10 melodias inéditas do Lô e em um mês a gente tinha um disco pronto, foi assim que nasceu.
Lô: Acho que faz todo o sentido. Faz todo o sentido. Eu ouvi há poucas horas o disco e achei que está perfeito. A interação entre música e letra, as nossas vozes funcionando superbem. Achei que fez todo o sentido mesmo. A parceria surgiu de uma forma que nem eu, nem Zeca estávamos esperando. Eu sempre fui muito fã do Zeca, da atuação dele na música brasileira desde o começo da carreira dele. Fiz o meu processo de composição, com o violão, e penso num letrista. Daí convido o letrista! Se ele topa, mais três, quatro dias, já tenho a gênese da composição toda pronta. Depois vem o processo de arranjos e tudo mais, que dura três meses. Compor com o Zeca foi maravilhoso, inesperado pra mim e pra ele, uma grande honra. Eu só queria falar uma coisa – estou fazendo disco desde 2019, sequencial, sempre com um letrista com quem eu nunca tinha trabalhado antes. Nelson Angelo, Makely Ká, Márcio Borges, que é um capítulo à parte, meu irmão, um clássico do Clube da Esquina. E fiz com Patricia Maez, Cesar Mauricio, Manuela Costa, eu fui diversificando os parceiros. Mas essa coisa de diversificação já aconteceu na minha carreira, mas não tão radical, de um letrista fazer as dez faixas de um disco meu. Em vários momentos da minha carreira artistas muito importantes fizeram letras pra mim – Tom Zé, Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Bituca, Chico Amaral, é muito boa a minha trajetória de parceiros, acho que eu dei sorte, sempre fui muito bem servido.
– Como funcionou o processo criativo? Qual a inspiração?
Zeca: Eu já respondi um pouquinho a segunda pergunta, porque foi assim, ele me mandou e eu
fui fazendo as letras, e a gente foi arredondando juntos e tal… Ele está fazendo cerca de um disco por ano, com parceiros diversos, já tem um prontinho para o ano que vem, para os 80 anos do Márcio Borges, irmão dele, principal parceiro, além do Milton. E aí a gente foi
ajustando, tinha uma lá que eu mandei uma letra e ele não gostou do tema, ele preferia que
eu falasse sobre uma coisa mais atual sobre as big techs, sobre esse domínio tecnológico
no mundo… achei bacana também porque me levou a falar desse tema, tentar fazer uma
abordagem poética, mas com uma certa virulência verbal, foi bacana. A inspiração são as
próprias melodias dele, porque o Lô transborda musicalidade, então as melodias já vêm
prontinhas, com uma métrica pronta. É muito fácil pôr letras nas músicas dele.
Lô: Eu peguei o violão, não toco em casa, o tempo todo. A gênese das composições dura dez dias, mas eu já fiz dez músicas em três dias. Daí a inspiração é sempre o letrista. Eu sempre faço música pensando em quem vai escrever a letra! A ideia é fazer com que ele cante comigo também.
– Vocês têm vivido uma fase de muita criatividade, fazendo muitos discos e projetos colaborativos. A que vocês devem isso?
Zeca: Sim, acho que, apesar de gerações diferentes, idades diferentes, estamos vivendo um
momento bem criativo, fazendo vários discos em colaboração. Fiz com Chico César, estou
fazendo esse com Lô, fiz com Wado, fiz com Vinícius Cantuária. Para o ano que vem tem
um com Vicente Barreto – a gente compôs muito desde a pandemia. É isso, hoje o mercado
funciona assim, infelizmente por um lado, infelizmente por outro, na base do volume, quanto
mais você produzir, mais as pessoas sabem que você está em evidência, se não matam a
gente rs. Sabem que você está produzindo ainda, que você ainda compõe, que você tem
músicas novas a mostrar, além dos velhos sucessos. Tem essa importância também, né?
Lô: O Zeca faz mil coisas o tempo todo. É um cara exemplar na música brasileira, um xamã. Ele lança pessoas novas, resgata pessoas de outras gerações mais antigas, trabalha os estilos, a própria composição dele – tem rock, tem forró, tem xote. Os parceiros dele são maravilhosos, trabalha com o pessoal do rock, o pessoal do Nordeste. Eu acho muito bonita a trajetória do Zeca, tô falando só do Zeca! Nos últimos anos eu tenho me voltado mais pros meus projetos pessoais, eu não sou tão ativo quanto o Zeca, apesar de eu adorar show, estrada e tudo mais. Pretendo fazer com o Zeca, inclusive!
– Hoje em dia, pleno 2025, o que mais atrai vocês na música? Fazer, lançar, ouvir, descobrir…
Zeca: Hoje tudo é consumido com muita voracidade, muita rapidez. Mas eu acho que, por
exemplo, o Lô, que é de uma outra geração, ele já está eternizado. Eu talvez ainda esteja
construindo essa obra pra ficar na memória das pessoas, mas ele é de um outro tempo, em
que as coisas eram mais permanentes, um disco durava dois anos, a música tocava na
rádio por seis meses, um ano… hoje é tudo muito fugaz, muito rápido, muito volátil.
Lô: Pra mim, fazer, lançar, ouvir, descobrir, é sempre bom. Apesar de eu ter uma atração maior pela composição. Me considero mais compositor do que as outras facetas aí, da minha música. Adoro o palco, adoro cantar em público. Lançar faz parte do processo, ouvir é muito importante, os arranjos começam a ficar pronto, tudo tem a ver com a audição, saber de vai ficar do jeito que você quer, com a sonoridade que você quer, então ouvir também é muito importante.
– Como lidar com a rapidez da percepção do tempo hoje em dia? Pergunto isso para saber se vocês se preocupam com a permanência da parceria ao longo do tempo.
Zeca: Acho que todo autor se preocupa com a permanência da obra, a gente sempre imagina que daqui a cem anos alguém vai estar ouvindo a gente. Mas pode ser que não, porque o mundo
também está numa transformação muito veloz… mas a gente sempre espera que sim, que
dure… É uma vaidade legítima de quem cria e também um desejo sincero, honesto de ser
lembrado post-mortem.
Lô: Lidar com isso, no meu caso, me causa estranheza. O mundo quer tudo pra ontem, quer tudo urgente. Parece que o ato de ouvir um disco entedia parte do mundo de hoje. As pessoas querem ouvir, no máximo, um single, um EP. Ninguém tem paciência para ouvir um álbum inteiro. Acho que isso um dia irá mudar. Não sei quando, mas vai. O mundo dá voltas. Eu não me preocupo com nada, mas a permanência da parceria vai ser maravilhosa, conciliar as agendas, especialmente a do Zeca, que é bem mais intensa que a minha, ele é bem mais jovem, tem que trabalhar mais que eu nesse momento (risos). Mas fazer música com ele, fazer disco com ele outra vez, vai ser super honra, super orgulho. Acho que nossa parceria indica que nós temos mais coisa pra fazer.
– Lô, qual seu disco preferido do Zeca? Zeca, qual seu disco preferido do Lô?
Zeca: O meu disco predileto do Lô são vários, mas o que eu mais gosto mesmo é “A Via-Láctea”, de 1979.
Lô: Olha, é difícil dizer. Eu não sei o que ele vai dizer, mas no caso dele, eu gosto de todos os que ouvi. Eu gosto muito das canções dele. Um dia desses, a gente conversou por telefone, e falei – “Cara, quais músicas que você gostaria que eu cantasse com você no nosso show de lançamento do disco?”. Ele me mandou uma playlist com cinco músicas, eu conhecia todas, gostava de todas. Eu respondi: “Bicho, isso aí tá maravilhoso”. É muito fácil escolher música do Zeca pra cantar em show, pra dizer quais que eu gosto. Eu gosto do trabalho do Zeca como um todo.

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
