O pós-punk inesgotável de The Beaches e The Beths


The Beaches – No Hard Feelings
34′, 11 faixas
(AWAL)
(4,5 / 5)

The Beths – Straight Line Was A Lie
44′, 10 faixas
(Anti)
(4,5 / 5)
Não sei se quando o pós-punk surgiu, ali na virada dos anos 1970/80, alguém pensou que seria um estilo musical que duraria décadas. O fato é que a sonoridade perpetrada inicialmente por gente como The Cure, Echo And The Bunnymen e Joy Division à frente de um monte de bandas, em vários cantos do mundo, atravessou o tempo e segue firme como uma poderosa fonte de inspiração. Os anos vêm e vão e notamos as mesmas guitarras dedilhadas, teclados com timbres característicos, os tons soturnos e os andamentos de baixo e bateria, tudo isso a emoldurar novas criações de gente que não era nascida quando “Inbetween Days” estava nas paradas de sucesso. Claro que, com o passar do tempo, outras referências foram surgindo e se incorporando, a ponto de ser quase impossível destrinchar totalmente o que uma ou outra banda fazem. No caso de The Beths e The Beaches, duas formações que lançam novos álbuns quase ao mesmo tempo, a sombra do pós-punk é imensa e decisiva. Tanto “No Hard Feelings” quanto “Straight Line Was A Lie” oferecem festança e belezura para os fãs novos e velhos do pós-punk.
Começando com as canadenses das Beaches. Direto de Toronto, Jordan Miller (baixo e vocal) e Kylie Miller (guitarras) são irmãs e contam com Leandra Earl (guitarras e teclados) e Enman McDaniel (bateria). Juntas as quatro conseguem oferecer uma sonoridade que parece feita em 1987, com destaque para os vocais graves e pouco comuns de Jordan, na melhor escola Chrissie Hynde/Siouxie Sioux de canto. Com letras orbitando o universo LGBTQIA+, o quarteto entrou no mapa das revelações canadenses em 2023, quando lançou o segundo álbum, “Blame My Ex”. Ainda que este seja um belo disco de canções enraivecidas e energéticas, não chega aos pés da polidez total que habita ‘No Hard Feelings”, sem mencionar que trata-se de um compêndio de onze faixas, todas elas próximas da perfeição.
Desde os primeiros acordes de “Can I Call You In The Morning?”, logo precedidos pela voz de Jordan, já dá pra saber que estamos diante de gente diferenciada quando o assunto é artesania sonora. Isso vai se confirmando ao longo do álbum, especialmente quando chega a vez de “Fine, Let’s Get Married”, uma faixa em que as meninas tiram o pé do peso e oferecem um arranjo delicado que contrasta com os vocais de Jordan, num jogo de estranheza gostosa. “I Wore You Better” parece encampar o mesmo timbre de guitarra e se sai com mais um ótimo resultado. E quando chegam faixas como “Jocelyn” (feita para estádios, ou melhor, arenas do mundo), com baixo emulando Peter Hook ou “Last Girls At The Party”, com felicidade sonora genuína, temos certeza de que estamos diante de um dos ótimos álbuns deste ano.
Já The Beths são um quarteto de Auckland, Nova Zelândia e este ótimo “Straight Line Is A Lie” é sua estreia pelo prestigioso selo ANTI- e marca sua chegada a uma nova audiência, já com alcance global. Com a presença da vocalista Elizabeth Stokes no comando da banda, The Beths faz um outro tipo de pós-punk, muito mais incorporado a outras influências, especialmente o rock alternativo de guitarras americano. Ele mesmo – feito por gente como Sonic Youth, Pixies e Breeders – que já dá as caras logo nos primeiros acordes da faixa-título, que abre o álbum. São poucos segundos de efeito de guitarra num falso início que, automaticamente, remontam ao Sonic Youth de 1988 e isso acontece em pouco mais de dois segundos. Logo em seguida, uma levada sonora com vocais femininos leva ou ouvinte ao início dos anos 1990 com toda a sua glória. Daí em diante, o álbum flui fácil fácil. “Mosquitoes” começa como uma baladinha acústica, mas incorpora uma levada baixo-bateria que tem origem lá no que o Fleetwood Mac fazia em 1977. E tudo é familiar – desde vocais de apoio e timbres de guitarras. “No Joy” é uma pequena jujuba sonora, que surge com timbres crocantes de bateria e guitarra, com mais acenos aos 1990.
Este é outro disco marcado pela excelência de quase totalidade de canções ótimas. “Til My Heart Stops”, lentinha a princípio, pungente do meio pro fim, mostra a versatilidade do The Beths na dosagem de climas e andamentos. “Take”, rapidinha e dinâmica, comprova o que dissemos, com um arranjo que vem descendo a ladeira e que escapa da mesmice pelo bom uso das guitarras de Jonathan Pierce. Essa capacidade de brincar em outros campos sonoros também se materializa na ótima “Best Laid Plans”, que encerra o disco com percussões e um groove surpreendente, num arranjo que corre em looping e acrescenta novidades.
The Beths e The Beaches estão em seu melhor ano na carreira. Chegaram ao ouvido da públicos maiores em ótima forma, com álbuns que vão fornecer fofuras sonoras para muita gente. Conheça e ame.
Ouça primeiro:
The Beths: “Best Laid Plans”, “Take”, “No Joy”, “Mosquitoes”, “Straight Line Is A Lie”
The Beaches: “Can I Call You In The Morning”, “Fine, Let’s Get Married”, “I Wore You Better”, “Jocelyn”, “Last Girls At The Party”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
