Um Lugar Chamado Notting Hill, 20 Anos

 

O maior mérito do cinema é, de vez em quando, transformar o impossível e o improvável em situações simples do cotidiano. Veja, por exemplo, “Um Lugar Chamado Notting Hill”: o livreiro, vivido por Hugh Grant, conhece pessoalmente sua atriz favorita, interpretada por Julia Roberts, quando ela, do nada, surge em sua livraria em Notting Hill. Dali, a partir de uma série de eventos coerentes, os dois engatam um romance que terá um final coerente com sua premissa de que tudo é possível. E isso é bem legal.

Apesar do filme ser lembrado por conter uma adorável fofura comportamental a partir de seus personagens, “Notting Hill” não é uma mera comédia romântica. Dirigida por Roger Michell e roteirizada por um pequeno mestre da dramaturgia britânica, Richard Curtis, o longa – que completa 20 anos em 2019 – tem uma história que vai muito além de uma fantasia cotidiana que se torna verdade. Há uma dose admirável de otimismo e, para usar um termo da moda – resiliência – na odisseia de idas e vindas que o livreiro William Thacker experimentará até conquistar a atriz americana Anna Scott. Era o tempo de Hugh Grant recém-saído de filmes como “Quatro Casamentos e um Funeral” (também de Curtis), como uma espécie de galã casual e levemente desastrado, desta Inglaterra de Tony Blair. Ele era o rosto deste tempo, escolha ideal para contracenar com uma atriz que carregava o DNA do cinemão americano dos anos 1990, Julia Roberts.

Ambientado no bairro londrino que lhe empresta o nome, Notting Hill é uma belezura despretensiosa, com ares de filme pequeno. O elenco funciona bem, especialmente por conta dos amigos de Thacker, entre os quais estão Bernie (vivido pelo astro da série Dowton Abbey, Hugh Bonneville), Bella ( interpretada por Gina McKee) e sua irmã mais nova, Honey, que ganhou a interpretação atriz Emma Chambers, recentemente falecida. Mas a maior estrela deste time de amigos britânicos de William é, certamente, o seu companheiro de apartamento, Spike, vivido curiosamente por Rhys Ifans, ex-integrante do grupo galês de rock Super Furry Animals, colocado na trama como um sensacional contraponto anárquico e doidaço para o certinho e metódico Thacker. Ifans, inclusive, teve sua carreira cinematográfica consolidada na década seguinte, aparecendo em filmes da franquias Harry Potter e Homem Aranha, além de figurar obras mais consistentes, como “Snowden”, de Oliver Stone.

A direção de Roger Michell é discreta e quase não se faz notar, mas ele deixa sua marca em alguns momentos. A sequência em que Thacker atravessa a rua enquanto o tempo transcorre ao som de “Ain’t No Sunshine”, clássico do soulman americano Bill Withers, é uma das mais belas do filme. Outro momento é a desilusão que o livreiro tem com a chegada do personagem vivido por Alec Baldwin, vendo-se obrigado a deixar Anna e indo embora pela rua com “How Can You Mend A Broken Heart”, de autoria dos Bee Gees, mas interpretada de forma rascante por outro soulman: Al Green. Aliás, a trilha sonora do filme trouxe, além destes dois clássicos, uma regravação poderosíssima naquele 1999: “She”, com Elvis Costello, que atualizava o original, gravado pelo cantor franco-armênio Charles Aznavour nos anos 1960. Costello foi um dos maiores frequentadores das ondas de rádio com sua versão e, para muita gente, se transformou num one-hit wonder, a despeito de uma carreira enorme e cheia de sucessos.

Richard Curtis, egresso do time de criadores do personagem Mr.Bean, foi um dos arquitetos dessa filmografia inglesa da virada do milênio. Ele já havia assinado “Quatro Casamentos e um Funeral” e, depois de Notting Hill, deixou sua marca em todos os filmes feitos nestes moldes, mesta época: “O Diário de Bridget Jones” (e as sequências), “Simplesmente Amor” – pelo qual foi indicado ao Oscar-, “Os Piratas do Rock” e a joia a ser descoberta neste ramalhete: “Questão de Tempo”, de 2013, um dos filmes mais belos e emocionantes dos últimos anos, sem exageros. Foi Notting Hill, mais que os outros, o grande responsável por mostrar esta Inglaterra legal, com gente jovem, engraçada e crítica de sua formalidade tradicional, marcando um movimento como se o país se mostrasse para o novo milênio, que batia à porta logo mais. E isso funcionou lindamente.

A rede Cinemark programou para hoje sessões especiais exibindo “Um Lugar Chamado Notting Hill”, por conta de seu vigésimo aniversário. Se você tem a mesma idade do filme ou era pequeno demais quando ele foi lançado, vale ver no cinema pela primeira vez.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Um Lugar Chamado Notting Hill, 20 Anos

  • 20 de maio de 2019 em 10:50
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    Curiosamente no sábado passado – 18/05/2019 – falava sobre este filme e seu diretor com amigos e que apesar de She ser a musica que mais se destacou da sua trilha, a que eu mais gosto é justamente a Ain’t No Sunshine! Simplesmente perfeita a sequencia que mostra a passagem do tempo ao som desta clássica melodia. Também falei sobre ” Uma questão de Tempo” que considero um outro grande filme deste diretor e que tem uma trilha também bacanérrima.
    Só não havia me dado conta que já faziam 20 anos da estréia de Notting Hill. O tempo não para mesmo.
    abraços
    Jesus Ferreira

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