Um abraço pro Mauval

 

Hoje é meu aniversário. Completei a 51ª volta em torno do Sol e, aparentemente, contra alguns prognósticos que seriam lógicos, sigo firme. A vida está difícil, o acaso apronta todo dia, mas, ao contrário do que esperava, os dias têm sido mais de felicidade que de tristeza, o que só me confirma a noção de que a gente não é capaz de prever o que acontece nas nossas vidas. E pronto. Mas ainda é possível realizar alguns sonhos acalentados há muito, muito tempo. Por exemplo, veja o Ronca Ronca, castelo-móvel de música e vida que Maurício Valladares apresenta desde o início dos anos 1980. Já teve vários nomes: Rock Alive, quando começou lá na Fluminense FM clássica. Depois foi Ronca Tripa, Radiola e Ronca Ronca, nome que retém até hoje, via podcast semanal, no ar toda noite de quinta-feira. E anteontem, dia 08 de julho, eu ganhei uma música no setlist do programa.

 

Tudo bem, eu pedi. Mas isso não tira o mérito da empreitada, afinal de contas, Mauricio e Nandão (escudeiro que divide as atividades e o brilho da atual versão do Ronca) recebem vários pedidos de aniversariantes, têm pautas enormes (pauta grande) e as duas horas e pouco do programa são tempo muito curto para dar conta da demanda. Mas, felizmente, na edição 448, em algum ponto antes da primeira meia hora de programa, entrou a lindeza que é “Baby I Need Your Loving”, clássico de 1964 dos Four Tops, que eu havia solicitado aos cavalheiros. E, pouco após os menos de três minutos da canção, veio a saudação a mim, como o “gerente do portal Célula Pop”, com direito ao cumprimento de Nandão, a Lenda, me chamando de “Cadu” e tudo mais. Eu, ouvindo no escuro vazado pela luz da rua lá fora – preciso colocar a cortina – sorri. E acho que fiz um gesto de “yes” com as mãos. Simples assim.

 

Simples? Nada disso. Há muito envolvido nisso aí. Ouço Maurício desde que me entendo por gente quando o assunto é música. Meu jeito de pensar o assunto é consequência direta do que ele disse e fez ao longo do tempo. A novidade musical não está no que é feito na contemporaneidade, mas no que ainda não foi ouvido ou no que foi mal ouvido, seja em que tempo for. Ou seja, Mauricio é um agente constante da memória musical de umas duas, quase três gerações de ouvintes e pensantes sobre a música e seu efeito nas nossas vidas é imenso. Este jeito de pensar fez com que ele fosse o responsável direto em apresentar, via Flu FM clássica, bandas como The Cure, The Beat, Style Council, The Jam, reggae, dub, ska, sem falar na inestimável contribuição que deu ao nascente rock nacional, quando abriu os braços para gente como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Plebe Rude e várias outras bandas daquele tempo. Amante de música negra em geral, ele estava do lado certo da história quando percebeu que o hip hop, o reggae, o dub e o funk eram o futuro da música pop – algo que se confirmou e se confirma – quando muita gente insistia no rock. Imagina só uma rádio voltada apenas para a black music no dial carioca? Pois é, nunca aconteceu, mas a gente segue sonhando.

 

Mas Mauricio e Nandão estão longe de qualquer tipo de segregação. No próprio Ronca 448 ele abriu os trabalhos com Allman Brothers ao vivo, entabulou Jeff Beck Group, Elizeth Cardoso e Jacob do Bandolin para, depois disso tudo, mandar a minha “Baby I Need Your Loving”. E por aí ele foi, num cardápio musical que vai além de qualquer rótulo. Entre as canções, ele e Nandão falam sobre tudo e todos, com a mesma camaradagem de sempre. É a “conversa sobre música”, de que se sente tanta falta. São aquelas filosofias que só se aplicam quando estamos falando sobre o assunto, quando parece haver uma dobra espaço-tempo que permite tudo e todos. Por isso talvez a música seja tão importante pra tanta gente, porque ela abre espaço para qualquer assunto e quem estiver disposto a emitir qualquer opinião. Pra essas pessoas, ganhar uma canção num programa de rádio – porque, mesmo em forma de podcast, pensamento, implante de chip ou DNA – o Ronca Ronca sempre será um programa de rádio no sentido mais sublime do termo, é a realização de um sonho. Em tempos atuais, este carinho é absolutamente decisivo.

 

Mas, como quase tudo que é bom, o Ronca tem tido sua realização ameaçada por falta de recursos para se manter. Mauricio vai levando a coisa no peito e na raça. Diz que suas ocupações – fotógrafo e DJ – foram banalizadas pela modernidade, no que ele tem total razão. E o número de pessoas que tem a (falta de) noção de que um IPod substitui alguém que pensa e escolhe músicas, faz com que esta realidade seja bem cruel. Por isso, em breve, ele vai anunciar o Ronca Clube, uma forma da legião de ouvintes dar uma força para a estrutura do programa e, quem sabe, até melhorar a saúde financeira a tal ponto que Maurício consiga dar asas a projetos com gravações especiais e presenças interessantes no seu espaço. A gente, mesmo completamente ferrado financeiramente, vai teimar em participar de algum jeito.

 

Eu havia separado este dia para não fazer absolutamente nada, mas não poderia deixar de prestar essa homenagem ao meu amigo Mauval, a quem vi mais recentemente há uns dois, três anos, na Tracks da Gávea, com a minha ex-esposa, Maria. Foi um encontro rápido, mas o carinho dele para conosco é o carimbo do gente boa/boa praça que ele é. Tem a humildade e a simplicidade dos que inspiram outros. Por essas e outras, quero dar um grande abraço nele quando essa doença miserável passar.

 

Obrigado, Mauval. Obrigado, Nandão.

 

PS: quero sugerir uma CONNECTION FORTE sobre “Baby I Need Your Loving”, dos Four Tops e “Levi Stubbs Tears”, de Billy Bragg, que a escreveu e gravou em homenagem a um ídolo de infância que ele tem: Levi, o vocalista principal dos Four Tops. Uma é de 1964, a outra é de 1986. Aliás, Billy Bragg também me foi apresentado pelo MauVal. Ou seja…é disso que tudo se trata.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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